A HBO Max estreou «The Institute», uma adaptação do romance de Stephen King, que acompanha crianças com poderes psíquicos aprisionadas por uma organização secreta. A série explora os limites da autoridade científica e a luta pela autonomia individual.
«The Institute» chega ao streaming com um desafio ambicioso em mãos: adaptar uma das obras mais recentes de Stephen King, onde o terror psicológico se mistura com uma crítica social mordaz. A série apresenta-se como um thriller sombrio sobre o sequestro de crianças com capacidades psíquicas, mantidas num centro clandestino, sob vigilância e controlo absolutos. Mas o que poderia ser apenas mais uma narrativa de ficção científica transforma-se rapidamente numa reflexão desconfortável sobre a inocência destruída, o poder sem escrutínio e os limites da ciência (e da autoridade) quando esta perde todo e qualquer limite ético.
A base do enredo é, por si só, arrepiante. Crianças com aptidões telepáticas ou telecinéticas são raptadas e levadas para uma instalação isolada, onde deixam de ser tratadas como pessoas para se tornarem peças num mecanismo silencioso. Perdem os nomes, os direitos e até o contacto com o mundo exterior. A instalação é gerida por uma organização que se apresenta como indispensável à estabilidade global, mas cujos métodos revelam uma crueldade sistemática, disfarçada de racionalidade. É através de Luke Ellis, interpretado por Joe Freeman, que entramos neste mundo fechado, onde tudo parece moralmente distorcido.
A figura que personifica esta lógica perversa é Mrs. Sigsby (Mary-Louise Parker). A sua personagem representa o rosto humano do sistema; alguém que acredita, ou convenceu-se a acreditar, na legitimidade da missão. É uma figura inquietante precisamente porque age com calma, e porque encontra serenidade na obediência a uma causa abstrata. Parker evita o estereótipo da vilã fria e transforma Mrs. Sigsby numa extensão perfeita do Instituto: eficiente, implacável e absolutamente convencida da sua razão.

A narrativa alterna entre o quotidiano de Luke e companhia dentro do Instituto e a vida do agente Tim Jamieson (Ben Barnes), que acaba por se tornar uma peça-chave no desenrolar dos acontecimentos. Esta alternância dá ritmo à série e mantém o espectador atento, embora por vezes a tensão oscile, com momentos mais previsíveis e alguma perda de profundidade em personagens secundárias. A escolha de seguir uma linha narrativa bastante fiel à do livro ajuda a manter a clareza, mas também limita alguma da carga emocional que poderia ser mais explorada.
O mais inquietante em «The Institute» não é tanto o que se vê, mas o que se esconde e se vai revelando. A organização que gere o Instituto acredita estar a fazer o que é certo, uma vez que a violência e a repressão são justificadas como necessárias. O discurso interno é cuidadosamente calibrado: em vez de dor, fala-se em “procedimentos”; em vez de cativeiro, em “missões” ou “dever”. Aos olhos da instituição, o fim justifica os meios, e aos poucos as próprias crianças começam a duvidar da sua resistência. São levadas a acreditar que, ao cooperarem, estão a salvar o mundo. Mas de quê?
Esse é talvez o ponto mais desconcertante para quem assiste. A série não apresenta vilões caricatos nem monstros no escuro. O verdadeiro terror vem da frieza do sistema, da lógica impecável com que se justifica o injustificável, da maneira como a linguagem se torna ferramenta de manipulação. O Instituto é assustador precisamente porque não é um lugar de loucura, mas de ordem. Uma ordem sem alma.
Sem recorrer a grandes efeitos nem a dramatismos fáceis, «The Institute» constrói um ambiente onde o horror é subtil e persistente. Não é uma série para todos, e talvez por isso a receção tenha sido dividida. Há quem aprecie a seriedade do tom e a fidelidade à proposta moral, e há quem sinta falta de mais ação ou ousadia formal. Ainda assim, o que fica é uma adaptação que respeita o espírito do livro, que provoca e incomoda com inteligência e que levanta questões que não se resolvem no último episódio – nem devem.

