Num tempo de comédias românticas formatadas, em que as histórias de livrarias já mal têm valor de citação («Notting Hill» é de 1999), eis que há um filme capaz de contornar, com inteligência, as armadilhas da irrelevância. E mais: não o faz com quaisquer pretensões de “revitalização” desse género cinematográfico. Onde está então a novidade? «A Jane Austen Tramou a Minha Vida» é uma comédia romântica tout court, e destaca-se pela simples razão de permanecer naquela zona elegante que deixa a inspiração clássica habitar a contemporaneidade sem forçar o choque. Por outras palavras: o sentimento da protagonista que diz estar “no século errado” vem a tornar-se verdadeiro para o próprio espectador, na medida em que a fronteira do tempo se dilui aqui num romantismo intemporal… como é, aliás, apanágio dos clássicos.
Agathe (Camille Rutherford), a heroína desta primeira longa-metragem de Laura Piani, é livreira na icónica Shakespeare & Co, em Paris, e uma especialista informal em Jane Austen, autora que não perde oportunidade de recomendar aos clientes. E, como se imagina, também ela parece viver em “potência literária”: é solteira, vive presa na secreta ambição de vir a encontrar uma paixão semelhante à dos livros de Austen, e aspira alcançar um lugar como escritora.

Ora, tudo começa por esta última parte da premissa. Quando é convidada para uma residência literária em Inglaterra, sob o signo de Jane Austen, a solitária e desastrada Agathe acaba por conhecer aquele que pode muito bem ser a sua versão de Mr. Darcy, ao mesmo tempo que experiencia um bloqueio na escrita, depois de um capítulo enviado altamente promissor… Serão o amor e a tinta no papel incompatíveis? Claro que não.
Qualquer outra comédia romântica resolveria este impasse com muita agitação, barulho e peripécias barrocas. Mas apetece dizer que «A Jane Austen Tramou a Minha Vida» está do lado da sensibilidade e bom senso, isto é, de uma certa delicadeza no gesto metafórico de virar a página. No filme, trabalha-se o romantismo dentro de um “humor triste” que nunca atinge o rebuliço vão das comédias hodiernas (esse vício insuportável de infantilizar o espectador), procurando-se antes a amargura doce, ou a doce amargura literária. Nesse andamento suave, deparamos, por exemplo, com uma cena final que mostra Frederick Wiseman, grandíssimo cineasta americano, a ler um poema para uma pequena audiência na livraria – se isto não é um momento maravilhoso e inesquecível, que dá vontade de guardar como citação, não sei o que será.
TÍTULO NACIONAL: A Jane Austen Tramou a Minha Vida TÍTULO ORIGINAL: Jane Austen a gâché ma vie REALIZAÇÃO: Laura Piani ELENCO: Camille Rutherford, Charlie Anson, Pablo Pauly ORIGEM: França DURAÇÃO: 98 min. ANO: 2024
Imagens: © Les Films du Veyrier & Sciapode

