Última Edição

Novidades

Artigos Relacionados

Patricio Guzmán – A Cordilheira dos Sonhos

Morreu um dos mais importantes realizadores e argumentistas chilenos, Patricio Guzmán Lozanes. Nasceu em Santiago do Chile a 11 de Agosto de 1941 e faleceu em Paris a 15 Setembro de 2026. Podemos dizer que a sua obra documental, militante e de autor, ultrapassou desde há muito as fronteiras do seu país, mas na prática o cineasta nunca esqueceu as raízes profundas que lá deixou e o faziam regressar uma e outra vez ao domínio da análise estrutural da mais complexa e atormentada realidade chilena, reconhecendo essa viagem ao encontro das suas origens como parte fundamental da sua primeira e inequívoca identidade nacional do ponto vista social e cultural, a que adicionou uma ampla, criativa e corajosa dimensão política. Prova maior do que acabo de referir será o monumental e portentoso projecto genericamente intitulado “La Batalla de Chile”, sobre os acontecimentos que antecederam e provocaram o golpe militar de Pinochet a 11 de Setembro de 1973, o consequente assassinato do presidente eleito, Salvador Allende, e a miserável instauração de uma feroz e sanguinária ditadura militar que reprimiu com extrema violência qualquer manifestação contra o regime e aqueles que haviam apoiado a fugaz experiência democrática da coligação de esquerda denominada Unidade Popular (1970-1973). Para os devidos efeitos de memória, aqui ficam os subtítulos de cada uma das partes e o respectivo ano de produção: “La Insurrección de la Burguesia”, 1975, “El Golpe de Estado”, 1976, e “El Poder Popular “, 1979.

Nesta hora de luto, penso que seja apropriado recordar o último filme de Patricio Guzmán estreado em Portugal (não o derradeiro, “Mi País Imaginario”, 2022, e cuja estreia se aguarda pela mão da Midas Filmes). Trata-se de um belíssimo documentário que constitui uma robusta reflexão sobre um passado que dificilmente se pode ignorar e cujos ecos no presente com dificuldade se podem esquecer. Falo de “La Cordillera de Los Sueños” (A Cordilheira dos Sonhos), 2019, um filme que vai muito para além da citada e metafórica coluna dorsal do Chile. Na verdade, sim, basta olhar para um planisfério para se perceber que o Chile na sua vertical extensão linear possui, para o melhor e para o pior, uma imponente e geológica coluna dorsal, a Cordilheira dos Andes, que, por um lado, protege os que lá vivem num improvável ventre materno a que nem sempre os seus cidadãos podem dar o nome de pátria amada e, por outro, oculta o que realmente se passa nas suas entranhas e nos labirintos urbanos de uma megacidade como Santiago, impedindo a melhor percepção dos factos e acontecimentos da História por quem se encontra fora das suas fronteiras. Mesmo os que lá nasceram mas optaram pelo exílio sentem esse isolamento do mundo, como o realizador Patricio Guzmán. O filme começa com uma série de planos aéreos da capital do Chile: vemos as nuvens, vemos o longo e montanhoso muro de rocha que se ergue majestoso coberto de brumas, rasgos negros e neve, e lá em baixo um labirinto infernal, semelhante a uma superfície imensa estilhaçada em mil pedaços por uma qualquer força da natureza ou pelo destino que os chilenos, homens e mulheres, lhe quiseram dar. Será então o próprio realizador a dizer o que lhe vai na alma: “Cada vez que passo por cima da cordilheira sinto que estou a chegar ao país da minha infância, ao país das minhas origens. Cruzar a cordilheira é como chegar a um lugar muito longe, no passado. Tudo me parece irreal. Sinto-me um ser de outro planeta. Santiago, a cidade em que nasci, recebe-me com indiferença. Sempre que regresso sinto a mesma distância. Não reconheço a cidade que agora encontro. No fundo, não sei onde estou. Tenho a sensação que passou mais tempo do que realmente passou. Lembro-me de um país em que me sentia mais em casa, com a minha família, com os meus amigos. Mas agora os cheiros são outros. Não são como os ares que outrora respirava”. E prossegue sugerindo que as suas memórias parecem desaparecidas por entre as fissuras das pedras e planos rochosos que pavimentam o solo, como se fossem relevos abstractos esculpidos por gigantes. Por contraste, vemos a seguir uma deslumbrante imagem da cordilheira exposta como um amplo mural nas paredes do metropolitano da capital chilena. Por momentos pensamos estar a ver a ilustração que justifica por si só a referência maior desta obra, ou seja, “A Cordilheira dos Sonhos”. Mas será Patricio Guzmán a despertar-nos dessa atmosfera meio onírica das sequências iniciais para continuar a falar-nos de si, mas desta vez em relação aos outros e na relação com os seus compatriotas: “Em Santiago, muitas pessoas só olham para a cordilheira quando andam de metro”. Mais claro não podia ser: numa cidade em que a formação natural está bem presente, os seus habitantes só nos caminhos que lhe rasgam as profundezas se dão conta da sua imponência, e eventualmente da influência nas suas vidas e no seu quotidiano, ao dar de caras com a sua luminosa representação pictórica num dos vários frescos com paisagens chilenas pintados por Guilhermo Muñoz Vera. E continua o autor: “O pintor vive em Espanha. Eu vivo em França. Nem eu nem ele regressámos ao nosso país para aí viver. Nós sonhamos com o Chile de longe. Pela sua força e personalidade, a cordilheira surge como a metáfora desse sonho”. E acrescenta que quando era jovem não sentira qualquer curiosidade pelos Andes. Na verdade, a sua geração estava mais preocupada em construir uma sociedade nova. E, com uns pozinhos de ironia, em jeito de síntese conclui: “Os assuntos ao redor da cordilheira não eram revolucionários”. Por fim, abre a porta para a matéria primordial do projecto, enunciando: “Com o passar dos anos o meu olhar dirigiu-se para as montanhas. Elas intrigam-me. Talvez sejam a porta de entrada que me permita compreender o Chile de hoje”.

Daqui para a frente somos levados pela sua mão, pelas suas palavras e pelos depoimentos dos seus companheiros até ao profundo modo de ser e estar de um Chile que ficou adiado com o golpe militar de 11 de Setembro de 1973, que instaurou uma das mais brutais ditaduras da América Latina e do mundo. Serão muitas as vozes que nos falam do antes e depois, assim como do agora. Testemunhos vivos de muitas situações, muitas contradições, muitos retrocessos económicos e sociais mascarados pelos defensores do capitalismo selvagem como a fórmula do sucesso, do falacioso milagre económico chileno fruto da aplicação sem rei nem roque das estratégias de exploração definidas pela Escola de Chicago. O Chile foi a cobaia onde os seus mentores experimentaram a sua cartilha. Mas a memória maior desses anos de brasa será perante nós revelada ao conhecermos a dimensão dos arquivos áudio e visuais de Pablo Salas, um homem destemido que ousou estar onde era necessário para denunciar as investidas da ditadura, alguém que foi e continua a ser nos dias de hoje o fiel depositário das provas dadas pelos que resistiram nas lutas pela liberdade, nas manifestações reprimidas com violência desproporcionada, que superaram o medo no confronto com o poder. Percebemos que Patricio Guzmán sente uma admiração muito sincera por este realizador e operador que guarda em suportes frágeis mas preciosos os sinais vitais de um povo que não se deixou amordaçar nem se rendeu ao que na altura parecia ser o mais forte.

No fim, voltamos a ouvir a voz do realizador [foto] que nos diz: “Encontrei fragmentos do universo na cordilheira. Estão em museus chilenos. São meteoritos, pedras que caem do céu. São pequenos pedaços de planetas que vieram de muito longe. Dizia a minha mãe que cada vez que um cai de noite podemos pedir um desejo, um dos que se cumprem desde que o mantenhamos em segredo. Mas eu quero dizê-lo em voz alta. Quero que o Chile recupere a sua juventude e a sua alegria”. E neste desejo de regressar a uma infância perdida, cuja metáfora material podemos vislumbrar na casa materna em ruínas, “A Cordilheira dos Sonhos” cumpre cabalmente o seu propósito, que completa por assim dizer a Trilogia do Chile iniciada em 2010 com “Nostalgia de la Luz” (Nostalgia da Luz) e reforçada em 2015 com “El Bóton de Nácar” (O Botão de Nácar). Sereno, poético mas igualmente contundente reflexão fílmica na primeira pessoa e num contexto de partilha da memória e dos sentimentos que prevalecem no Chile sobre um período conturbado da sua História. Recebeu no Festival de Cannes de 2019 o L’Oeil d’Or, prémio para o Melhor Documentário, galardão que partilhou com o igualmente incisivo “For Sama”, co-dirigido por Waad Al-Kateab, pseudónimo de uma jornalista, cineasta e activista síria, e pelo cineasta inglês Edward Watts.

E nesta altura faço um apelo: que não demore a estreia de “Mi País Imaginario”, sobre a explosão social que ocorreu no Chile em 2019 e, já agora, se for possível em matéria de direitos de exibição, que se organize a reposição da referida Trilogia do Chile. Por fim, como diria um outro e emblemático combatente sul-americano, aqui fica um solidário “Hasta siempre!

João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

Também Poderá Gostar de