O mundo da espionagem já não é o que foi nos “bons velhos tempos” da chamada Guerra Fria, porém o universo literário continua a refletir este mundo glauco e sombrio de forma bastante surpreendente.
Le Carré deixou-nos há pouco tempo e o seu velho rival, Len Deighton, não publica nada há anos, gozando uma merecida reforma. No entanto, a ‘spy novel’ britânica tem um novo herdeiro e paladino na pessoa de Mick Herron, que, em apenas um livro, conseguiu redefinir as regras deste universo tão empolgante quanto desolador. O romance já tem uma dezena de anos e chama-se ‘Slow Horses’, o nome dado pelos membros do MI5 a agentes que, de algum modo, falharam na sua missão de zelar pela segurança interna do Reino Unido. Estes rejeitados do sistema são assim exilados para Slough House, uma propriedade dos serviços secretos em Londres, onde o único futuro que podem esperar é irem apodrecer lentamente. A genialidade de Herron, além de criar o mundo sem saída de Slough House, revelou-se na criação do seu responsável, o inenarrável Jackson Lamb. Lamb é um sobrevivente dos finais da Guerra Fria, em Berlim, um hábil e astuto agente de campo que agora dirige um grupo de falhados sem destino. Herron descreve Lamb como, digamos, um javardo com instintos sádicos, um desrespeito militante pelas ditas regras, péssimos hábitos alimentares e de higiene e ainda uma relação íntima com o seu whisky. Lamb trata toda a gente abaixo de cão, a começar pelos seus funcionários, porém o seu desprezo pela natureza humana não admite que mais ninguém use a sua gente para fins que não os seus. A intriga, agora adaptada pela Apple TV, é mais uma narrativa de modo sólido e seguro, como só os britânicos sabem, apresentando-nos uns serviços secretos algo disfuncionais, cínicos e esquizoides, nos quais o que conta é vencer a todo o custo. E é exatamente este espírito que leva uma das responsáveis superiores a desencadear uma operação ‘false flag’ que vai arrastar Lamb e a sua gente para uma desenfreada luta contra-relógio, em que o terrorismo nacionalista se cruza com o racismo e a ambição de operadores políticos.
Esta primeira série — a segunda estreará ainda este ano — é bastante feliz no modo como retrata o mundo sombrio dos espiões. Ela revela uma narrativa em que não há lugar para patriotismos. É uma narrativa em que não há lugar para patriotismos e o que conta é seguir as Regras de Londres: protegerem-se a todo custo. A produção de prestígio, que é «Slow Horses», apresenta os habituais excelentes valores de produção e um elenco liderado por Kristin Scott-Thomas, Jack Lowden, Olivia Cooke e Gary Oldman no papel de Jackson Lamb. A série é um absoluto sucesso e recomenda-se a toda a gente que aprecia intrigas tão perspicazes quanto empolgantes.
[Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº86]



