A razão edificante de filmar câmara-em-mão no cinema relaciona-se com a tormenta interior do herói. Na tradição neo-realista italiana na década de 1940, actores não profissionais movem-se por cidades devastadas pela Segunda Guerra Mundial por onde a câmara precisa rapidamente de passar para não perder o rasto das pessoas que segue. O que esta acompanha não é tanto o desejo narrativo quanto a noção da real passagem do tempo no ecrã. Procurava-se decantar a visceralidade que vem com o ritmo observacional, a continuidade de espaço, e o esbater das fronteiras entre a ficção e a realidade para melhor soterrar o espectador naquele mundo.
A segunda longa-metragem do realizador espanhol Adrián Orr inspira-se na veia neo-realista para situar a crueza, mas falta-lhe primeiro a tormenta. Ou melhor dito, falta-lhe uma voz. Não ajuda o facto do crescer-de-idade se ter infiltrado enquanto género cinematográfico em tempos recentes e existir em abundância dentro e fora do cinema independente. Por ser uma fase transitória e nebulosa da vida, prova ser a matéria perfeita para a modulação da autoria de um realizador que ainda não se encontrou. E com ela, o desafio de clarificar o que é, por necessidade, turvo.
«Aos Nossos Amigos» está focado nessa viagem. Não muito diferente do cinema-conceito de «Boyhood: Momentos de uma Vida», de Richard Linklater, este segue Sara (Toledo) e os amigos dela num bairro de Madrid nas suas aventuras e desventuras ao longo de quatro anos. À meta-linguagem de Linklater, onde a forma é a mensagem e a ficção alia-se à realidade para confrontar o espectador com a efemeridade da passagem do tempo, Adrián Orr substitui o lado mais apurado do cinema Americano pelo registo documental câmara-em-mão europeu. Mas mesmo com as arestas arrastadas e os testemunhos improvisados, a co-produção luso-espanhola nunca chega à depuração do estudo de personagem no seu centro. Perde, aliás, a força inicial no seu acto de reprodução, o que leva a que o filme nunca se solidifique e acabe por cair no indistinguível. Chegamos ao final sem indícios de quem Sara pode ser.
A tentativa é tão feliz, mas nunca adquire uma cara. Permanece sem forma e cor, motivado apenas por medir o pulso à vida à sua frente, resignado a essa vaga promessa. O curioso no caso de «Aos Nossos Amigos» é a presença do discurso da tormenta, por vezes tão eloquente que faz o ecrã brilhar. Sara defronta-se com a ideia de praticar a mesma profissão durante 30 anos seguidos. Sara tenta, com dificuldade, encontrar a melhor forma de exprimir que deseja expandir o papel que tem na sua própria vida à mesa da cozinha com a namorada. Em qualquer um destes momentos, o filme fala connosco. É uma pena que esse encontro nunca venha a espelhar uma arquitectura qualquer.
TÍTULO NACIONAL: Aos Nossos Amigos
TÍTULO ORIGINAL: A Nuestros Amigos
REALIZAÇÃO: Adrián Orr
ELENCO: Sara Toledo, Paula Mirá, Pedro Izquierdo
ORIGEM: Portugal, Espanha
DURAÇÃO: 90 min.
ANO: 2024



