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Mais uma Época de Caça – Frédéric Forrestier e Antoine Fourlon

Frédéric Forrestier e Antoine Fourlon partilham a realização de «Mais uma Época de Caça»

Dois anos depois de «Época de Caça», Frédéric Forrestier e Antoine Fourlon voltam a partilhar a realização da esperada sequela, «Mais uma Época de Caça», com o mesmo elenco, liderado por Didier Bourdon, uma lenda da comédia à francesa. A vida é tranquila na pequena vila de Saint Hubert, até à chegada de Stanislas, filho de Bernard, o antigo presidente da associação de caçadores locais. É que Stanislas, que chega com a mulher e os dois filhos, pretende trazer para a ali a caça à raposa. A paz da aldeia está prestes a ser abalada.

Foi fácil reunir praticamente toda a equipa para esta sequela?

Frédéric Forrestier: Toda a gente ficou muito contente por voltar para este segundo capítulo. Foi um prazer reencontrar as personagens e viver novas aventuras, mas também integrar novos atores e novas personagens.

Antoine Fourlon: O mais complicado foi conciliar as agendas de todos. Como são atores muito requisitados, foi extremamente difícil encontrar dois meses em que estivessem todos disponíveis. Tivemos uma janela muito pequena e aproveitámo-la. Caso contrário, talvez só conseguíssemos filmar daqui a dois ou três anos. Houve atores que não pudemos ter logo no início das filmagens e outros que não estiveram disponíveis no final. Foi uma verdadeira operação logística.

A comédia continua a ser muito popular em França, mas também é um género muito competitivo. Há filmes que resultam muito bem e outros nem tanto. Qual a razão para o sucesso deste conceito?

Frédéric Forrestier: O sucesso do primeiro filme deveu-se ao facto de muitas pessoas se reconhecerem nas personagens. Os parisienses que decidem mudar-se para o campo, aqueles que vivem no campo e que passam a lidar com novos vizinhos vindos da cidade, porque os preços das casas são mais acessíveis. Além disso, tudo isto aconteceu depois do confinamento provocado pela Covid, quando muita gente decidiu abandonar as grandes cidades. Criou-se um contexto em que praticamente qualquer espectador encontrava um ponto de identificação com o filme.

Antoine Fourlon: Além disso, tratava-se de um tema original. Praticamente ninguém faz filmes sobre a caça. Em França, a caça é uma atividade enorme, é um dos países da Europa onde mais se caça, mas, quando aparece no cinema, costuma ser em dramas, thrillers, histórias de perseguição ou até feminicídios. Nós decidimos rir de um assunto que, apesar de tudo, tem uma dimensão política e gera bastante polémica. Acho que isso distinguiu o filme.

Imagino que o meio da caça seja bastante fechado e muito ligado às suas tradições. Receberam reações por brincarem com esse universo?

Antoine Fourlon: Eu conheço muito bem a caça. Eu próprio fui caçador. Por isso nunca estive muito preocupado com a reação dos caçadores. Sabia que a maioria deles tinha suficiente sentido de humor e capacidade de rir de si próprio. Além disso, quase tudo o que mostramos no primeiro filme corresponde a situações reais. Aliás, até fomos relativamente moderados em comparação com algumas coisas que eu próprio vi.

E o Frederic? Caça ou pesca?

Frédéric Forrestier: Nem uma coisa nem outra. Não sou caçador nem pescador. A pesca exige demasiada paciência para mim. No primeiro filme fizemos questão de brincar com toda a gente. Brincámos com os parisienses, brincámos com os caçadores, mas nunca quisemos que o filme se transformasse numa defesa ou num ataque à caça. Era uma armadilha em que não queríamos cair. Aliás, essa era também uma preocupação dos nossos distribuidores. Não queriam que o filme se transformasse numa polémica política.

O filme fala muito da realidade francesa, mas as personagens têm algo de universal. O que diriam ao público português para o convencer a ver o filme?

Frédéric Forrestier: Diria que o filme fala de algo muito universal. Todos os homens gostam de ter um pretexto para se encontrarem ao domingo, comerem bem e beberem um copo juntos. É isso que une os habitantes da aldeia. O objetivo nunca foi matar animais. O importante é terem uma desculpa para estarem juntos e afastarem-se um pouco das mulheres.

Antoine Fourlon: É preciso sempre um pretexto. Se não for ir ao café beber um copo, pode ser fazer desporto, pescar ou caçar. Tudo isso cria laços sociais. Sobretudo no meio rural, onde as pessoas vivem longe umas das outras. A abertura da época da caça acaba por ser um momento em que todos se reencontram.

Frédéric Forrestier: E depois temos a personagem do André, que já é idoso. O grande objetivo dele é conseguir regressar no ano seguinte. Cada nova abertura da caça é uma pequena vitória, contra a idade, contra a doença, contra a morte e até contra o tédio.

A sequência do Citroen é genial, em Portugal as pessoas a partir de uma certa idade conhecem bem aquele modelo, com aquela suspensão.

Frédéric Forrestier: É verdade, é também uma referência geracional. Há toda uma geração mais nova que já nem conhece esses automóveis. Hoje já não existe aquela suspensão hidropneumática. É pena, porque era realmente extraordinária.

Como surgiu essa ideia?

Antoine Fourlon: Quando escolhemos os veículos das personagens, no primeiro filme, cada uma tinha um carro que refletia a sua personalidade. Por exemplo, o Defender fazia todo o sentido para um determinado tipo de caçador. No caso do André, inicialmente queríamos um DS, mas não conseguimos encontrar um. Acabámos por optar pelo GS, que, de certa forma, era o DS do proletariado. Assentava perfeitamente na personagem. No segundo filme fazia todo o sentido recuperar o mesmo carro e construir essa sequência à sua volta.

Imagino que trabalhar com Didier Bourdon seja sempre um enorme prazer.

Antoine Fourlon: É um profissional absolutamente extraordinário. Entretanto tornou-se também um verdadeiro amigo. É um prazer tê-lo no plateau, porque está sempre extremamente motivado. Envolveu-se completamente no filme e na personagem. E também gosta muito de trabalhar connosco.

Frédéric Forrestier: Tudo o que propõe é engraçado. Todas as ideias que tem são boas. É como um cão farejador de trufas: sabe sempre onde está a comédia. Independentemente da situação, encontra imediatamente o momento certo para fazer rir. E não ajuda apenas a sua própria personagem. Também orienta os outros atores, mostrando-lhes onde está o potencial cómico de cada cena. Quando ele está presente, tenho a sensação de que todo o elenco representa ainda melhor. Todos se esforçam mais. Isso é fantástico.

Em França continua a ser extremamente popular.

Antoine Fourlon: Sim, sem dúvida. Faz muitos filmes, porque é muito solicitado. É um ator muito querido pelo público.

Como dividem o trabalho de realização entre os dois?

Frédéric Forrestier: Com muita naturalidade. Na verdade, quase não dividimos. Fazemos praticamente tudo em conjunto. Eu já tinha realizado vários filmes e, naturalmente, tenho bastante experiência na direção em plateau. O Antonin chegou mais pela escrita, mas está muito envolvido na direção dos atores. Consultamo-nos permanentemente. Tudo o que diz respeito à realização é decidido em conjunto: figurinos, cenários, enquadramentos… tudo o que contribui para construir o filme e enriquecer a comédia. É muito vantajoso sermos dois.

Antoine Fourlon: E também funciona como um estímulo. Nenhum de nós quer desiludir o outro. Às vezes um ator pede-nos qualquer coisa e um de nós pode dizer: «Não sei se o Fred vai concordar…» Ou então: «Acho que o Antonin não vai aceitar essa ideia.» (risos.) No fundo, é uma forma muito prática de mantermos a coerência.

O que vos despertou o interesse por este projeto?

Antoine Fourlon: Foi, acima de tudo, a caça. É um tema profundamente pessoal para mim. Quase todas as personagens caçadoras são inspiradas na minha própria família ou em pessoas com quem cacei. O André existiu mesmo. Era aquele que se esquecia sempre das munições. O Bernard era um primo mais velho, que estava constantemente zangado porque dizia que fazíamos sempre disparates. Gostava muito de transportar essas pessoas para o cinema. Caricaturando um pouco, mas sem exagerar. Queria que fossem personagens ternurentas, pelas quais o público pudesse sentir afeto.

Quando estão a escrever, já pensam na realização?

Antoine Fourlon: Não propriamente. Nessa fase pensamos sobretudo no ritmo. Onde estarão os momentos cómicos. Onde surgirão as gargalhadas. Ainda não pensamos nos atores nem na encenação. Tentamos imaginar o filme como um todo: o ritmo, a atmosfera, a musicalidade dos diálogos. A realização chega mais tarde, quando já conhecemos os cenários e começamos verdadeiramente a construir o filme.

Costuma dizer-se que, quando se filma um drama muito pesado, o ambiente no plateau acaba por ser bastante descontraído, para aliviar a tensão. Pelo contrário, a comédia exige uma enorme disciplina. Como foi no vosso caso?

Frédéric Forrestier: Havia uma excelente atmosfera. Sabíamos que não estávamos a filmar uma tragédia de Shakespeare. Por isso havia boa disposição. O mais importante é que toda a equipa se dê bem. Mas é verdade que a comédia exige muita precisão. Há piadas e diálogos que só funcionam se forem ditos exatamente com a entoação certa, no ritmo certo e filmados da forma correta. Além disso, tivemos apenas oito semanas para filmar, o que obrigava a uma grande disciplina. Mas disciplina não significa falta de alegria. É perfeitamente possível trabalhar com rigor e divertir-nos ao mesmo tempo.

Pergunta inevitável. Vamos ter um «Chasse Gardée 3»?

Frédéric Forrestier: Tudo dependerá do seu sucesso. O mercado cinematográfico está hoje muito mais competitivo do que estava quando estreou o primeiro.

Antoine Fourlon: Também será muito importante perceber como o filme funciona na televisão. Hoje em dia as audiências televisivas contam muito. O primeiro «Chasse Gardée» ainda não passou na televisão pública, mas isso acontecerá em breve e veremos até que ponto esse fator poderá influenciar o futuro da saga. Ainda há muitas histórias para contar. E muitas piadas por fazer.

Foto: © 2025 STARMAN FILMS CURIOSA FILMS STUDIO TF1 UGC IMAGES TF1 FILMS PRODUCTION TATANE FILMS

João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

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