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Linguagem Universal

É difícil definir a modernidade no cinema. Não chega desafiar as fronteiras de género e tom. Mas Matthew Rankin consegue fazê-lo, contra todas as expectativas, em «Linguagem Universal». Perante o inicial plano fixo da fachada de uma escola – pela janela, vemos o professor a gritar com os alunos -, entramos dentro de um absurdismo deadpan tão singular que consegue realmente tocar na verdade humana (mais real do que a realidade!) sem ser preciso tempo de aclimatização. Parte-se logo à descoberta do contar de uma história de forma miniaturista até dela se esculpir uma voz que relembra tantas outras, mas só se assemelha consigo própria.  

Encontramo-nos na invernal Winnipeg, no Canadá, mas por aqui fala-se farsi ou francês, e tudo é culturalmente específico ora da maior cidade da província de Manitoba, ora de Teerão, a capital do Irão. É uma zona intermédia entre as duas geografias. Especialmente no que diz respeito à linguagem do filme que, no sentido mais estrito da questão, é gramaticalmente iraniano, com variadas influências internacionais (vai buscar Abbas Kiarostami e Jafar Panahi, mas também e especialmente Roy Andersson e Aki Kaurismäki, Jacques Tati e Wes Anderson). Pode-se mesmo dizer que não cabe no mundo como o conhecemos. O resultado é crescentemente cintilante, num trajecto que nunca se esgota. Se tanto, a beleza de «Linguagem Universal» encontra-se na forma como vai produzindo energia enquanto se reproduz, como uma máquina auto-sustentável.

Quando se estreia no festival de Cannes em 2024 (por cá chegou-nos primeiro pelo festival de cinema IndieLisboa o ano passado), Rankin que estudou para ser historiador, salienta o seu interesse no meta-realismo à Filmmaker Magazine: “Estes ‘meta-realistas’ brincam com o realismo cinemático (…) são muito cépticos sobre a possibilidade da autenticidade no cinema então jogam entre modos de artifício.” Assim é «Linguagem Universal». Dentro da parábola, Rankin intercala histórias e personagens que se debatem com os desafios da vida quotidiana. O ponto de partida é arranjar forma de descongelar dinheiro para comprar uns óculos ao colega de escola e recuperar o status quo da turma. O seu sentido de humor é rítmico e mordaz, e faz lembrar o activismo político das fábulas iranianas (onde o silêncio fala muito alto).

Da cenografia simétrica às personagens caricaturescas (vendedores de perús, guias turísticos, coleccionadores de lágrimas), Rankin constrói um filme globo-de-neve. É espaçoso e calmo, mas fechado sobre si mesmo, e procura situar os humanos dentro dos edifícios que habitam naquele lugar tão inóspito. Por vezes, filma-os como se se tratassem de personagens num videojogo, em travellings que os acompanham até ao seu destino. Outras vezes, faz uso de planos fixos e amplos, com muito espaço negativo neles, que as personagens atravessam como se fosse uma maquete. Para além disso, o foco da comunicação entre os humanos é colocada no receptor em vez do interlocutor. O que importa para Rankin é o outro.

Um filme indispensável.

TÍTULO NACIONAL: Linguagem Universal
TÍTULO ORIGINAL: Une Langue Universelle
REALIZAÇÃO: Matthew Rankin
ELENCO: Matthew Rankin, Pirouz Nemati, Amir Amiri
ORIGEM: Canadá
DURAÇÃO: 89 min.
ANO: 2024

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