Wednesday

WEDNESDAY

WEDNESDAY

Góticos de todo o mundo rejubilai! A família Addams está de volta, mais ou menos.

Esta nova série da Netflix centra-se na mais intrigante dos membros da família Addams – a benjamin Wednesday, que é conhecida pela sua obsessão pelos tons escuros e um refinado humor ainda mais negro.

A série criada pelo cartunista Charles Addams começou a ser publicada nos finais da década de 1930 na influente revista The New Yorker, espalhando-se progressivamente por vários meios de comunicação até chegar à TV no meio da década de 1960 através de uma hilariante comédia de situação centrada no contraste entre o muito sui generis clã e o mundo circundante. Desde então os Addams foram tema de longas-metragens, animações e agora esta série sobre Wednesday e a sua adolescência num colégio privado.

Wednesday é colocada pelos pais na selecta Academia Nevermore depois de um incidente no liceu local onde Wednesday deixa bem claro aos bullies locais que só ela é que pode torturar o seu irmão Pugsley. Pelo meio há uma piscina pejada de piranhas, e um testículo a menos, o que leva à transferência da nossa protagonista para a alma mater de Edgar Allan Poe. Porém a escola, que parece ser mais adequada à especificidade de uma alma negra como Wednesday, depressa se revela como um local não menos perigoso tendo uma população estudantil composta de lobisomens, vampiros, sereias, transmorfos, etc., ou seja todo o tipo de seres pouco comuns. Ainda por cima, Nevermore está no centro de uma zona outrora o coração dos peregrinos fundamentalistas do século XVII, que sempre perseguiram todos os seres que escapavam às suas rigorosas normas.

Se por um lado a série é uma exploração da adolescência de Wednesday, com as suas periclitantes aproximações à amizade e ao amor, por outro é um retrato de uma rebelde no meio de outros rebeldes, isto tudo numa ambiência de mistério e perigo onde nem tudo é o que parece e onde os monstros rondam a área de academia, não poupando ninguém.

Produzido e dirigido maioritariamente por Tim Burton, a série tem todos os elementos típicos do universo do realizador: o seu humor muito negro, a sua elaborada paleta gótica, e um pendor por tudo o que seja, ao mesmo tempo surpreendente, inesperado e monstruoso.

Os incondicionais de Burton não se podem queixar, já que está lá tudo o que é essencial no mundo de Burton, a inocência e o horror e a sua paixão por tudo o que é diferente.

A intriga adolescente não é exactamente inovadora, e o desenlace final surge algo previsivel, no entanto a atmosfera criada e o desempenho do elenco transmutam algumas fraquezas em momentos de verdadeira surpresa, calafrios q.b., e prazer.

Um destaque muito especial para a produção visual que tanto nos cenários, como no guarda-roupa sintetiza de modo muito sedutor o universo de Charles Addams. Porém o trunfo desta série é o seu elenco liderado pela jovem Jenna Ortega, que aqui se afirma como a mais perfeita encarnação actual de Wednesday Addams. Também decisivos para a consolidação dramática deste universo algo ínvio, contamos ainda com as presenças de Catherine Zeta-Jones, Luis Gúzman, Gwendoline Christie e a Wednesday Addams original dos filmes, a sempre excelente Christina Ricci, aqui noutra personagem. Um entretenimento leve e divertido, mais ou menos tenebroso, mas excelentemente produzido que não só nos satisfaz como nos faz esperar uma segunda série com alguma trepidação. Mandatória para todos os entusiastas do macabro e outros góticos. Manuel C. Costa