Living

VIVER

VIVER

Em 1952, Akira Kurosawa realizou um magnífico e intimista conto urbano chamado «Viver – Ikiru»: a história de um funcionário público que sai do torpor dos dias passados na sua repartição ao descobrir que tem um cancro e poucos meses de vida. Foi essa mesma história, profundamente inscrita no Japão dos anos 1950, que o nobel Kazuo Ishiguro recuperou em «Viver», adaptando à realidade britânica da mesma década o argumento coassinado por Kurosawa, Shinobu Hashimoto e Hideo Oguni. Estamos então perante uma nova versão encomendada ao realizador Oliver Hermanus, que acima de tudo se mostrou competente na missão de dar “vida” a uma narrativa ultra delicada, mantendo o cenário de época.

Na verdade, Hermanus será o nome menos relevante nesta operação arriscada. Ishiguro, cuja sensibilidade britânica já tinha ficado à vista em «Os Despojos do Dia» (1993), o filme de James Ivory baseado num romance seu, volta a provar que o refinamento da escrita pode ser a base mais segura para o “espírito” de certos retratos dramáticos – não admira que desta feita tenha alcançado a nomeação para o Oscar de melhor argumento adaptado.

Mas não é apenas a esse crédito que se deve o toque de nobreza de «Living». A saber, Bill Nighy (também nomeado ao Oscar), que interpreta o tal funcionário, aqui responsável pela divisão de obras públicas da Câmara Municipal de Londres, encarna a própria definição de gentleman. Ele é um Sr. Williams perfeito: um homem de trato polido, respeitável, mais ou menos apagado no seu quotidiano e praticante da burocracia. Uma postura monótona que se transforma no momento em que o médico lhe dá a má notícia… Aí, o herói entra em ação: o que lhe importa é viver e ser útil a quem sempre foi lesado pelo funcionalismo público, algo que se traduz no projeto e obra de um pequeno parque infantil, que será o seu secreto legado (ele não revela a quase ninguém a sua condição).

No fim de contas, o que «Ikiru» tinha que «Viver» não tem é carga melodramática. Onde o filme de Kurosawa se revela denso e comovente, este é aprazivelmente elegante e suavemente enternecedor. Falta-lhe o porte emocional e a especificidade cultural do outro (veja-se toda a sequência do velório do protagonista em «Ikiru»), embora Bill Nighy assegure cada nota de gentileza e melancolia à personagem. Ser um autêntico cavalheiro inglês, guardião de um classicismo esquecido, não está ao alcance de qualquer ator – cada gesto ou expressão de Nighy coloca «Viver» um pouco acima das suas modestas hipóteses de igualar uma obra-prima.

Título original: Living Realização: Oliver Hermanus Elenco: Bill Nighy, Aimee Lou Wood, Alex Sharp Duração: 102 min. EUA/Japão/Suécia, 2022

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº92, Abril 2023]