VIDAS PASSADAS

VIDAS PASSADAS

«Vidas Passadas» é uma impressionante obra de estreia de Celine Song. É um mergulho de humanidade que desafia as convenções do género.

A história estabelece um arco de relações na amizade e o amor entre dois personagens: Nora e Hae Sung. Uma narrativa em três tempos distintos que arranca no período da pré-adolescência.

Em miúda, Nora nutre uma paixão secreta por Hae Sung, o seu melhor amigo e protetor, mas os pais de Nora decidem emigrar da Coreia do Sul para o Canadá e a relação entre eles é quebrada. Doze anos depois, Nora muda-se para Nova Iorque, decidida a embarcar no sonho de ser uma escritora de sucesso. Hae Sung, após cumprir o serviço militar obrigatório na Coreia do Sul, consegue descobrir o paradeiro de Nora. A relação evolui através do ecrã e de chamadas por Skype, mas acaba por desvanecer perante a impossibilidade de Hae Sung se deslocar aos Estados Unidos. O filme culmina, vários anos depois do último contacto, no período de uma semana, quando os protagonistas se reencontram presencialmente pela primeira vez desde a sua separação na infância.

Greta Lee tem uma sólida interpretação, é o centro nevrálgico desta obra, onde tudo começa e desagua na expressão total dos sentimentos deste filme. Interpreta a personagem com o coração e a alma dividida entre a geografia emocional e territorial. Destaque ainda para Teo Yoo numa performance estoica no papel de Hae Sung e para a presença de John Magaro, um actor que desenvolveu uma longa carreira no cinema, teatro e televisão, e que aqui interpreta o papel de Arthur, o marido americano de Nora.

Celine Song criou um melodrama (baseado na sua história pessoal) e carregado de intimismo, com uma voz global onde as fronteiras se esbatem, mas a saudade é uma entidade bem viva, quase como uma assombração, na existência destes personagens. Existindo mesmo um confronto e uma torrente emocional quando a memória se torna uma realidade palpável, quando Nora e Hae Sung se reencontram após a sua longa separação. Nesse magnífico momento estes apercebem-se – sem dizer uma palavra – de tudo aquilo que poderia ter sido e, sobretudo, sentido, sem terem a capacidade para lá chegar devido às escolhas que fizeram nas suas vidas.

Além da qualidade e inteligência do argumento de Celine Song, referência também para o poder da visão da realizadora na forma como conseguiu expressar nos vários enquadramentos das imagens autênticos poemas visuais que engradecem a sua obra.

«Vidas Passadas» tem uma sensibilidade e espírito que são cada vez mais raros no cinema mainstream através da abordagem da identidade e do amor e ao desviar-se dos clichés amorosos e dos pressupostos cinematográficos. Acaricia outros temas que dizem muito às diásporas espalhadas pelo planeta. A forma como a tecnologia aproxima as pessoas, mas também o sublinhar das distâncias afectivas e espaciais.

«Vidas Passadas» é um filme que explora de uma forma adulta as possibilidades e as muitas vidas que cada pessoa poderia ter tido num encontro agridoce com o destino. Uma obra lacónica sobre a vida onde as expressões valem mil palavras. Um filme marcante que também estabelece uma relação para vida com o espectador.

Título original: Past Lives Realização: Celine Song Elenco: Greta Lee, Teo Yoo, John Magaro Duração: 105 min. EUA/Coreia do Sul, 2023