VÍCIO INTRÍNSECO

VÍCIO INTRÍNSECO

«Vício Intrínseco» não é só o título de um filme brilhante, mas uma trágica metáfora para a realidade: os ovos partem-se, o chocolate derrete, o vidro estala… tudo o que é vivo morre. Não está em causa a aplicação da lei de Murphy, mas o reconhecimento de uma qualidade intrínseca – a entropia – que parece permear com desordem todas as coisas, mesmo as mais preciosas. Caso raro em que a terminologia do direito civil se confunde com a dimensão poética e enigmática da língua (em português pode dizer-se “vício redibitório”, felizmente não se optou por esta tradução), a expressão refere-se a um defeito ou atributo indesejado de um produto que, quando oculto numa transacção comercial, pode vir a justificar a sua anulação.

Correndo o risco de simplificar demasiado um filme que se diz por aí excessivamente confuso, parece-me que foi intenção de Paul Thomas Anderson – realizador e responsável pelo excepcional trabalho de adaptação do livro homónimo de Thomas Pynchon –, testar com «Vício Intrínseco» a aplicação do conceito às condições do tão fustigado contracto social. O enredo progride por etapas que invariavelmente conduzem o protagonista, ‘Doc’ Sportello (Joaquin Phoenix), e com ele os espectadores, a armadilhas e encruzilhadas cada vez mais estreitas, mas que Sportello enfrenta com a confiança de um equilibrista experiente, ainda que muito pedrado. Pelo caminho ele debate-se com uma polícia que não é apenas incompetente mas criminosa, grupos empresariais que operam como uma máfia, organizações religiosas que não passam de seitas. Só um inocente é que não vê que a degradação é uma premissa do sistema e não um acidente. Só um cínico não reconhece o valor do arrependimento e o direito à redenção.

Se não se achar absolutamente imperiosa a enunciação de uma resposta clara ao “quem, quando, onde e como?” então a história de «Vício Intrínseco» é bastante simples e pode mesmo resumir-se numa linha: um tipo bem intencionado tenta ajudar a sua ex a sair de um terrível imbróglio no qual acaba metido. O modo como depois Anderson desenvolve este e outros motivos é que é revelador do talento do autor, por exemplo, a sua invulgar capacidade para dirigir grandes grupos de actores – nunca é demais lembrar «Boogie Nights» (1997) e «Magnolia» (1999). À semelhança do que também aconteceu com «Haverá Sangue» (2007) e «The Master» (2012), o realizador escolheu viajar para o passado para falar da América de hoje. Desta vez o palco são os não tão longínquos anos 70, um tempo de desilusões, guerras absurdas e graves retrocessos nas conquistas sociais. Algo que aos nossos ouvidos soa estranhamente familiar…

Mas a melancolia não é, de todo, o humor predominante neste corpo sanguíneo. Encabeçado por Joaquin Phoenix e Josh Brolin (‘Bigfoot’) o filme conta com magníficas interpretações que celebram um argumento que, em si, é já uma festa – o diálogo entre Sportello e Crocker Fenway (Martin Donovan) arrebata qualquer um. «Vício Intrínseco» mergulha-nos vertiginosamente num universo hilariante, povoado por gays neonazis, massagistas chinesas, dentistas loucos, teorias da conspiração e muita, muita erva. É preciso experimentar.

Título Original: Inherent Vice Realização: Paul Thomas Anderson Elenco: Joaquin Phoenix, Josh Brolin, Owen Wilson. 148 min. EUA, 2014

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