Vergonha

VERGONHA

VERGONHA

Após o brilhante «Hunger/Fome» (2008), o realizador Steve McQueen regressa ao grande ecrã juntamente com o seu actor de eleição Michael Fassbender. Preparem-se para mais um tour de force cinematográfico menos intenso à superfície do que Hunger mas igualmente complexo do ponto de vista humano. Submergimos no mundo de um personagem doente, um viciado sexual que vive compartimentado entre os impulsos, e os orgasmos, que lhe satisfazem o vício, que se escondem por detrás de uma aparência de um homem perfeito nos seus 30 que trabalha numa torre de marfim em Nova Iorque. Inicialmente estamos à deriva, o protagonista está num percurso melindroso entre as ilusões para o mundo exterior e a sua vida secreta: a masturbação nas casas-de-banho, a pornografia na internet, as prostitutas e os engates de uma noite formam situações herméticas que saciam a ansiedade e dão sentido à vida de Brandon (Michael Fassbender). A vergonha surge pela incapacidade de se controlar – ele é um escravo da doença provocada pelo seu ímpeto sexual.

O conflito central de «Vergonha» ganha forma, na segunda metade, deixando de ser apenas uma via-sacra nas taras de um viciado sexual, o protagonista é confrontado com a presença da sua irmã. A sua condição de isolamento é posto em causa colocando os seus hábitos em risco. É uma fase de introspecção e descontrolo de ambos irmãos encurralados nos profundos problemas de ambiguidade afectiva. A isto junta-se um exemplo típico da impossibilidade de ter uma relação amorosa, pois é algo que colide com o vazio da sua adição. A sequência do hotel é uma das grandes cenas do filme: sem muitas palavras, carregado de emoções, um desfecho revelador e ângulos entranhados na alma do personagem.

À performance titânica de Fassbender, entrega total ao papel ao colocar-se, metafórica e literalmente, nu perante as câmaras, adicionamos o desempenho de Carey Mulligan que não fica nada a dever ao actor principal. Carey Mulligan, é uma actriz que também consegue ir ao âmago da sua personagem indo ao encontro de fantasmas e fragilidades que mexem com «Vergonha».

O registo, a dois tempos, efectua algumas tentativas fúteis de justificar o comportamento dos seus personagens (o passado e a família) mas a obra toma conta do seu destino precisamente quando se descontrola e faz-nos perder na interpretação magistral de Michael Fassbender. Não sendo uma desilusão, por detrás das expectativas altas e do furor internacional, também, provocado pelo lado sexualmente explícito, descobrimos um filme que aborda de forma séria e adulta o sexo como uma pertinente aflição.

Título original: Shame Realização: Steve McQueen Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan, James Badge Dale. Duração: 101 min. Reino Unido/Canadá/EUA, 2011

[Crítica originalmente publicada no site Cinema2000, Março 2012]