VALE DE AMOR

VALE DE AMOR

Gerard e Isabelle são um casal de atores de meia-idade que perdeu o filho, Michael, há poucos meses, embora a mãe o tenha deixado quando ele tinha ainda poucos anos. Meses depois de se ter suicidado, são as cartas que enviou a cada um dos progenitores que os conseguem juntar novamente no Vale da Morte, no leste da Califórnia. Depois de 30 anos separados e de cada um ter refeito a sua vida, o encontro no local mais quente do planeta parece ser uma verdadeira descida aos infernos.

Guillaume Nicloux («La Religieuse» ou «O Concílio de Pedra») junta dois grandes nomes do cinema francês e brinca com uma teia onde realidade e ficção se confundem por vezes. Dois atores no final de carreira, reencontram-se anos depois de uma relação atribulada para lidarem com o suicídio do filho de ambos, alguém que nunca teve um lugar cativo nas suas agendas ocupadas. Passados tantos anos, o ponto de encontro marcado por esse mesmo filho, e deixado em cada carta, é o lugar do mundo onde as temperaturas atingem mais de 50 graus e onde a vaga de calor é tamanha que pode matar.

Neste reencontro, as duas personagens fazem uma retrospetiva das suas vidas, deixando o tempo salvar apenas alguns momentos que ficaram gravados para sempre na mente de ambos. Enquanto tentam lamber as feridas da sua ausência na vida do filho, parece existir pouca ou nenhuma preocupação do realizador em fechar as cenas. Nicloux deixa a fita a rolar, colocando nas suas personagens principais o peso do filme. Não tem pressa e não parece ter pretensões a que seja uma grande obra narrativa. Pelo contrário, deixa a audiência à deriva no deserto do vale da morte, junto com os dois protagonistas, e a ansiar, ao seu lado, o encontro marcado para as 14 horas.

Deixando derreter com o calor as elações narrativas, o realizador é, no entanto, exímio na fotografia, misturando na perfeição a teatralidade francesa e a imensidão paisagística americana. Capacidade essa que valeu a Christophe Offenstein («Pequenas Mentiras entre Amigos» e «E Agora, onde Vamos?») o César de Melhor Cinematografia nos prémios do cinema francês. Sem pretensões maiores, Depardieu e Huppert limitam-se a transparecer o talento de quem já não tem segredos com a câmara. Depois do primeiro trabalho que lhes permitiu partilhar o grande ecrã, em 1974, com «Les Valseuses», de Bertrand Blier, e de «Loulou», em 1980, assinado por Maurice Pialat, os dois atores dão a alma a «Vale de Amor», que recebeu a nomeação à Palma de Ouro, em 2015.

Numa transmutação para a realidade, este é o filme que junta dois grandes atores que se limitam a ser. O cunho humano da história é passado através do seu desempenho, mais do que o sentido metafísico que a narrativa traz nas notas de intenções. Numa ilusão entre o que é real e ficção, resta o reencontro de Depardieu e Huppert, os eternos rebeldes do cinema francês, que numa viagem em busca de vida depois da morte descobrem, afinal, a mortalidade da sua história.

Título original: Valley of Love Realização: Guillaume Nicloux Elenco: Isabelle Huppert, Gérard Depardieu, Dan Warner. Duração 91 min. França/Bélgica, 2015

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