UM CRIME NO EXPRESSO DO ORIENTE

UM CRIME NO EXPRESSO DO ORIENTE

Não é preciso muito para resolver este ‘crime’: o culpado é Kenneth Branagh. O bigode farfalhudo anunciava a caricatura e a estreia confirmou a suspeita. Sem dúvida um dos melhores atores britânicos da sua geração, Branagh é bom executor… da sua conceção sofrível do universo de Agatha Christie. «Um Crime no Expresso do Oriente» é bom entretenimento, mas exigia-se – ou devia exigir-se – mais.

Ainda o comboio não tinha arrancado e já o excêntrico bigode do Hercule Poirot de Kenneth Branagh captava todas as atenções. Sem o mesmo tom negro a rodear-lhe o rosto, a pelugem mais clara do detetive Poirot prometia o seu renascimento, qual fénix, retirado diretamente das páginas de Agatha Christie para ser o protagonista de um dos principais blockbusters de 2017. O elenco de estrelas adivinhava-se o adorno perfeito para uma reincursão numa das viagens mais adoradas pelos fãs do mistério policial, a bordo do enigmático Expresso do Oriente, onde se escreveram, em segredo, histórias protagonizadas por espiões, fugitivos e corações apaixonados.

A história, ficcional mas inspirada pelo fantástico Expresso, que encontramos em «Um Crime no Expresso do Oriente» (2017) é bem menos glamourosa. O ricaço Ratchett (Johnny Depp) é assassinado no seu compartimento e todos os ‘vizinhos’ são suspeitos. O crime seria indecifrável… não estivesse ali Hercule Poirot, o conceituado detetive belga criado por Agatha Christie e que há muito habita o pequeno e o grande ecrã. Como bem sabemos, nenhum mistério é impossível para ele e, por mais difícil que pareça a viagem, nenhum criminoso é capaz de lhe escapar.
Uma das mais emblemáticas viagens à boleia de Ratchett e companhia aconteceu na década de 70, com «Um Crime no Expresso do Oriente» (1974), filme que muitos consideram servir de base à obra agora realizada por Branagh. As semelhanças começam logo com a decisão, aparentemente infalível, de reunir um elenco galático. Conseguir isso em 1974 foi um feito ‘absurdo’ que, apesar da passagem das décadas, ainda hoje é elogiado. O realizador Sidney Lumet pegou na estrela mais popular de então, Sean Connery, e somou-lhe portentos da representação, como Lauren Bacall, Ingrid Bergman e Albert Finney, para fazer uma das adaptações mais elogiadas por Agatha Christie, que viria a falecer pouco tempo depois.
Mas, sejamos justos: volvidos 43 anos, reunir um elenco de luxo não é algo assim tão hérculeo, uma vez que isso acontece com relativa frequência, seja nos filmes d’Os Vingadores ou em séries como «Westworld» e «True Detective». Além disso, está longe de ser um fenómeno recente; tem é mais tendência a repetir-se na atualidade. E, embora seja natural deixarmo-nos encantar por elencos que reúnem Judi Dench, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Michelle Pfeiffer e Johnny Depp, isso está longe de ser suficiente para ter um filme com qualidade. Veja-se fracassos flagrantes e arrasados pela crítica como «O Caminho do Poder» (2006), «Movie 43» (2013) ou «Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça» (2016).

Kenneth Branagh cumpre, na generalidade, o que esperamos dele, mas com exagero. Começa no bigode – ainda que as críticas ao mesmo não reúnam consenso – e continua com a banda sonora demasiado literal, e a constante necessidade de usar e abusar dos efeitos visuais que tem ao seu dispor. Embora estes aspectos, por si só, não sejam necessariamente negativos, a soma de todos contribui para a distração do espectador e, acima de tudo, para a desmistificação do enigma que Poirot tem à sua frente. Mais uma vez, é quase inevitável lembrar «Um Crime no Expresso do Oriente» (1974), onde, com menos recursos ao seu dispor, Sidney Lumet foi capaz de aproveitar cada um deles ao máximo: no fundo, é verdadeiramente irónico que a incursão de Branagh acabe por fazer, por comparação, justiça ao papel de Lumet enquanto realizador, tantas vezes ofuscado pela genialidade do elenco que reuniu.

Em contrapartida, Branagh complementa os seus excessos com preguiça. Pode parecer irrisório, mas a verdade é que, ao contrário de Lumet, que fazia cenas mais longas e permitia que testemunhássemos a evolução de cada personagem, Branagh serve-se dos seus adorados grandes planos, que saltitam de personagem em personagem, para criar a tensão. Ainda que essa artimanha dê mais poder ao realizador, que está aqui em duplo papel e assim ganha maior controlo, prejudica o filme e a natural evolução do mistério, que se desfaz em dois ou três golpes tão óbvios quanto a banda sonora que os acompanha.

O aspecto mais gritante desta opção criativa de Branagh acontece já perto do fim: a revelação do mistério não acontece dentro de um dos compartimentos do comboio, mas sim no exterior, qual reencarnação d’“A Última Ceia”, para facilitar a filmagem e edição. A câmara salta repetidamente entre Poirot e a mesa dos suspeitos, com (mais uma vez) um rol aparentemente interminável de grandes planos, aos quais se soma um dramatismo extra que nada acrescenta à história de Agatha Christie – esta é tão rica que não precisa. Ainda assim, quem tem uma Michelle Pfeiffer tem tudo: apesar de ter sido a terceira escolha (!) para a Sra. Hubbard, atrás de Angelina Jolie e Charlize Theron – notoriamente demasiado novas para o papel –, a atriz rouba todas as cenas em que participa. O mesmo para Judi Dench, ainda que tal seja mais uma certeza do que uma novidade. Apesar de não ser fácil brilhar em «Um Crime no Expresso do Oriente» (2017), já que pouca margem têm para o alcançar, elas conseguem-no com distinção!
Branagh repete a fórmula de Sidney Lumet, mas falha na dosagem do ingrediente principal: ele próprio. Assim como já aconteceu no passado, o ator britânico tem um claro gosto por ocupar as cadeiras de protagonista e realizador ao mesmo tempo, controlando o processo criativo em todos os momentos cruciais. Fê-lo pela primeira vez em «Henrique V» (1989), o que lhe valeu a nomeação aos Óscares de Melhor Realizador e Melhor Ator – ironicamente, saiu vitorioso apenas na terceira nomeação, o Guarda-Roupa. No seu estilo, Branagh é um ‘monstro’ do teatro e não tem problemas em catapultá-lo, tanto quanto possível, para o grande ecrã; mas a sua teatralidade, tantas vezes “over the top”, tende a vazar do ‘recipente’ em que a procura conter: aconteceu em filmes como «Autópsia de Um Crime» (2007), «Cinderela» (2015) e agora em «Um Crime no Expresso do Oriente» (2014). Parece o típico conto do rapaz que se perde e procura, sem sucesso, o regresso a casa, neste caso o bem-sucedido «Henrique V».

Apesar de tudo, «Um Crime no Expresso do Oriente» (2017) não é um mau filme: é um competente momento de entretenimento mas, por mais que esperemos o ‘salto’ ao longo da narrativa, não chega a ser mais do que isso. É uma concretização medríoque de um mistério sobejamente conhecido, cuja adaptação acarreta uma enorme responsabilidade – e o filme não está à altura da exigência de uma adaptação de Christie ou do seu Poirot. Este é o Poirot de Branagh, ou seja, a imagem que o cineasta tem da personagem já estabelecida, e celebrizada por atores como Albert Finney e David Suchet. Como tal, cabe a cada espectador aceitar isso pacificamente ou não.

Título original: Murder on the Orient Express Realização: Kenneth Branagh Elenco: Kenneth Branagh, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Judi Dench, Michelle Pfeiffer, Olivia Colman, Willem Dafoe, Johnny Depp, Josh Gad, Daisy Ridley, Derek Jacobi. Duração: 114 min. Malta/EUA, 2017

[Crítica publicada na revista Metropolis nº55, Novembro 2017]

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