The Nevers

The Nevers: Quando os Impossíveis são Possíveis

The Nevers: Quando os Impossíveis são Possíveis

«The Nevers», a nova aposta sobrenatural da HBO, marca o regresso de Joss Whedon ao pequeno ecrã. O streaming disponibiliza o primeiro de seis episódios segunda-feira, 12. A segunda metade será lançada em data a anunciar.

Joss Whedon (criador), Jane Espenson e Douglas Petrie reescrevem a famigerada época Vitoriana à sua maneira, atribuindo às mulheres e aos marginalizados da sociedade um papel que, na realidade, nunca estiveram próximos de ter. Um súbito e misterioso evento provoca o caos em 1866, “tocando” um leque restrito da população, que fica capacitado com atributos inexplicáveis, que vão desde visões do futuro ao domínio (ou neste caso falta dele) de diversas línguas, assim como ao controlo do fogo ou do gelo, e até gigantismo e poderes curativos “mágicos”.

A assinatura de Whedon, o mesmo autor por detrás de séries como «Buffy, Caçadora de Vampiros», «Angel» ou «Agents of S.H.I.E.L.D.», é notória para quem acompanhou algumas das séries referidas. Talvez por isso seja difícil, mesmo depois de o produtor executivo abandonar o projeto em novembro por “motivos pessoais”, descolá-lo desta série. [Não obstante, um regresso à TV pode agora afigurar-se ainda mais difícil depois de várias críticas de abuso de poder, e não só, em «Buffy, Caçadora de Vampiros» e noutros projetos, que se vêm juntar a um conjunto de polémicas mais audíveis desde 2016.]

The Nevers

Mas vamos à série. Estamos em 1869, três anos depois do acontecimento desconhecido que mudou, para sempre, as dinâmicas da sociedade. Das roupas aos espaços físicos, passando por uma banda sonora temática e mais clássica, somos inseridos num passado de reis e rainhas. Mas a ação acontece nas ruas, nos becos, nos cantos mais obscuros. Apesar do lado mágico e entusiasmante, a sociedade prepara-se, em «The Nevers», para revelar uma das suas piores faces, ainda que disfarçada e exagerada pela ficção.

Amalia True (Laura Donnelly, Outlander) é o principal rosto de um conjunto de outsiders, maioritariamente mulheres, que se tentam adaptar aos poderes que receberam. O grupo tem de enfrentar a revolta do poder político, que vai estudando variados jogos de bastidores, de uma sociedade que marginaliza o desconhecido (visto até como bruxaria) e forças opositoras que tentam travar aqueles que foram touched [as personagens referem-se a quem tem poderes como “aqueles que foram tocados”].

A viragem da trama acontece numa altura de grandes inovações, com alguns a atribuírem a responsabilidade destas “bruxarias” ao surgimento da eletricidade. Mas poderá falar-se de impossíveis numa realidade onde tudo acontece? Penance Adair (Ann Skelly, Vikings) é o braço-direito de Amalia e uma das responsáveis pela resposta tecnológica do grupo, mais uma vez colocando uma mulher numa posição onde não costumava ter oportunidades. A relação entre ela e Amalia é um dos principais fios condutores da ação, com a sua amizade a pautar a trama de momentos de drama, ação, comédia, e a funcionar até como balizador moral. O lado mais violento de Amalia é, assim, equilibrado pela personalidade mais ponderada e dócil de Penance.

Podemos dividir o núcleo de personagens em três setores: o “orfanato” gerido por Amalia, onde vive grande parte das pessoas com habilidades, os excluídos, que têm poderes e os usam de maneira diferente ou até como oposição, e os misteriosos mascarados que começaram a atacar os outros, tendo como objetivo a execução de experiências científicas. E, mesmo quem parece aceitar a diferença, revela a espaços o seu preconceito: seja através da sinalização das mulheres touched ou da denúncia das mesmas.

A questão social é o catalisador da narrativa e do posicionamento das personagens. A reação dos homens em posições de poder e das famílias que têm de lidar com o desconhecido (em associação com a religião) são indicadores da sociedade da época e, em parte, da própria atualidade. O sobrenatural funciona também como uma metáfora da diferença, nem sempre aceite sem julgamento, perseguição ou pesar. A ficção tem, aliás, desempenhado ao longo dos séculos um papel essencial para comunicar a realidade em que nasce ao seu tempo e aos vindouros.

É inevitável comparar «The Nevers» a histórias como X-Men, Buffy e até Fantastic Beasts. Há diversas referências a um imaginário demasiado presente e frequente no pequeno e grande ecrã. Ainda assim, a série tenta conquistar terreno próprio através de storylines complexas que, apesar do mistério, vão desmascarando o suficiente para manterem o interesse da audiência. Fica a dúvida, apesar disso, se não teria sido benéfico – à imagem de outras estreias da HBO – lançar os dois primeiros episódios no mesmo dia. Isto porque ambos se completam, desenvolvendo o contexto, e o primeiro, mais parado, pode desencorajar parte do público.

O elenco é bastante forte. Aos nomes já referidos juntam-se, entre outros, James Norton, Olivia Williams, Tom Riley, Nick Frost, Ben Chaplin, Denis O’Hare, Pip Torrens e Eleanor Tomlinson.

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