Tar

TÁR

TÁR

Ora aqui temos um filme que divide águas. De facto, ou se gosta apaixonadamente, pela ambição temática, a caracterização do mundo elitista da música clássica, e é claro pelo tour-de-force que é a notável interpretação de Cate Blanchett. Noutra perspectiva, «Tár» pode parecer um pastelão algo pretencioso sobre as fraquezas de carácter de alguém que é muito boa no seu ofício mas cuja personalidade não reflecte exactamente a pureza e genialidade da música que dirige.

Em muitos campos da actividade humana somos quase condicionados a admirar a forma como indivíduos excepcionais conduzem alguns aspectos das suas carreiras, especialmente no mundo da arte, e é fácil fazer uma avaliação do resultado final do trabalho de um artista como uma reflexão do mundo interior do dito artista. Ora isso é uma ilusão, Lydia Tár, uma maestrina à beira de uma consagração definitiva é de facto uma artista consumada capaz de ilustrar e transcender, com o seu talento a música das esferas. Porém Tár está longe de ser perfeita, ela é cruel, narcisista e a sua ascensão foi feita num trilho de ambição desmedida onde os meios valem os fins. O filme de facto é um estudo de personalidade, uma perspectiva pré-colapso de todo um percurso que tem em si a raiz da sua própria destruição. Todd Field faz aqui um hábil e bastante arguto comentário sobre a chamada ‘cancel culture’ e o seu impacte no tecido social mas sem se propor a polémicas, porém o filme por vezes alonga-se e parece congratular-se com a sua própria abordagem. O facto da música ser uma personagem decisiva na narrativa e de algum modo a sua razão de ser, devia talvez ser o contraste da personalidade da maestrina, porém por várias vezes a música tem um efeito contrário, por vezes analgésico, o que leva a um distanciamento do espectador. Sim, Cate Blanchett é imperiosa na sua caracterização, mas por vezes quase que se percebem os artifícios da representação, O seu desempenho é vistoso e poderoso, mas de naturalista não tem nada. Sejamos directos: se o espectador não é um apreciador, mesmo que muito irregular, dos prazeres da música clássica, vai-lhe ser difícil encontrar algo que o preencha neste drama sobre a inevitável queda de um ídolo.

Blanchett, nomeada para o óscar de Melhor actriz? Talvez ganhe, a academia adora este tipo de registos, mas para mim os meus votos vão para Michelle Yeoh, que fez de «Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo» um dos grandes triunfos do ano passado. Manuel C. Costa

Título original: Tár Realização: Todd Field Elenco: Cate Blanchett, Noémie Merlant, Nina Hoss, Sophie Kauer, Mark Strong, Alec Baldwin (voz) Duração: 158 min. EUA, 2022