Sorte à Logan/Logan Lucky

SORTE À LOGAN

SORTE À LOGAN

Um bom cartão de visita de «Sorte à Logan de Steven Soderbergh poderá ser a imagem de Daniel Craig. Num fato de prisioneiro, às riscas, descobrimo-lo com o cabelo pintado num tom claro, quase branco… Para além de ser um tratamento visual em tudo e por tudo oposto ao misto de frieza e elegância de James Bond, Soderbergh leva a paródia ao requinte máximo, apresentando-o no genérico final como um actor… estreante.

Que está, então, em jogo? É simples dizê-lo: Soderbergh continua a desenvolver todo um sector da sua obra como um jogo de citação/paródia das convenções do próprio cinema. Mas não é nada fácil fazê-lo, sobretudo com a verve e a elegância que o realizador que se estreou com «Sexo, Mentiras e Video» (já lá vão 28 anos…) continua a demonstrar com o novíssimo «Logan Lucky», entre nós lançado com o título não muito feliz de «Sorte à Logan».

Estamos perante uma variação sobre o modelo consagrado com «Ocean’s Eleven» (2001) e prolongado através de «Ocean’s Twelve» (2004) e «Ocean’s Thirteen» (2007). Uma quadrilha monta um grande golpe — desta vez, trata-se de roubar as receitas espectaculares de um dia das corridas NASCAR — e, pelo caminho, os seus elementos vão vivendo um bizarro processo de revelação e auto-revelação, sempre conduzido pela máxima ironia.

Apetece dizer que esta é a versão proletária da pose aristocrática dos golpistas de «Ocean’s Eleven» — interpretando os dois irmãos que arquitectam o golpe, Channing Tatum e Adam Driver são a expressão exemplar dessa mudança de classe que marca todas as peripécias. Ao mesmo tempo, há neste filme (como nos outros citados) uma subtileza do olhar que, mesmo através da sua ligeireza, vai construindo uma espécie de irónica reportagem sobre sinais e comportamentos típicos de muitos sectores da sociedade americana.

Soderbergh é, enfim, um legítimo herdeiro do espírito da série B clássica — um criador que se mantém fiel a um espírito de espectáculo capaz de explorar os artifícios mais insólitos, sem nunca perder a capacidade de manter um olhar de elaborada energia crítica para o mundo à sua volta. De acordo com a lógica mais primitiva da expressão, talvez possamos concluir: That’s entertainment!.

Título original: Logan Lucky Realização: Steven Soderbergh Elenco: Channing Tatum, Adam Driver, Daniel Craig, Riley Keough, Katie Holmes, Seth MacFarlane. 118 min. EUA, 2017

[Crítica originalmente publicada na revista Metropolis nº54, Novembro 2017]