Última Edição

Novidades

Artigos Relacionados

SÓ OS AMANTES SOBREVIVEM

«Só os Amantes Sobrevivem» é um título deliciosamente ambíguo que, quer no original, quer na tradução para português, assenta como uma luva nesta doce história de amor entre dois vampiros. Mais uma? Nem por isso. Claramente Jim Jarmusch, o realizador e argumentista, divertiu-se a brincar com os códigos do género. Tom Hiddleston e Tilda Swinton fazem um trabalho extraordinário no papel de Adam & Eve, dois monstros sensíveis, os amantes e os sobreviventes de que fala o título. Em pleno século XXI deixou de ser seguro andar por aí a morder pescoços alheios – o sangue dos zombies (como são chamados os humanos) já não é de confiança –, é por isso necessário empreender grandes esforços para não definhar ou acabar contaminado. As asas de morcego também já não são uma opção viável para viajar longas distâncias. À semelhança do mais comum dos mortais, eles fazem reservas e check-in, precisam da ajuda de asas de metal para levantar voo.

A convivência mais ou menos pacífica entre tecnologia, burocracia e alguns mitos e superstições ancestrais é um aspecto interessante e divertido num filme em que a melancolia geracional (para não dizer saudosismo) dita o tom dominante. A decrépita cidade de Detroit ou a antiga Tânger, pouso temporário destas criaturas nocturnas, parecem-se com um quadro romântico, cheio de simbolismo, quase inocente, quase banal. Será precisa a chegada abrupta, qual deus ex machina, de Ava (Mia Wasikowska), a irmã mais nova de Eve, para mudar este estado de coisas, para forçar a narrativa a sair do seu curso circular e extático. Ao contrário da irmã e do cunhado, Ava, alguns séculos mais nova, é uma predadora selvagem e impulsiva, cuja energia é tão contagiante quanto destrutiva.

Mas, apesar de «Só os Amantes Sobrevivem» se centrar numa paixão secular, este não é um filme sobre a eternidade. A eternidade, como se sabe, é o instante. Para além do aperfeiçoamento de certos talentos (como tocar vários instrumentos, ler e falar várias línguas, etc.), aprendemos que toda a experiência de vida acumulada não chega para fazer desaparecer o desconforto gerado pelas reuniões familiares, ou o tédio que de vez em quando nos assola. A curiosidade é único antídoto, quer para vampiros quer para humanos. Ser capaz de encontrar prazer nas pequenas coisas – como dançar ao som de Wanda Jackson ou Charlie Feathers. No fundo, a santíssima trindade “sexo, drogas e rock n’roll” continua a ser a receita intemporal para enganar a eternidade. Um brinde a isto.

Título original: Only Lovers Left Alive Realização: Jim Jarmusch Elenco: Tilda Swinton, Tom Hiddleston, John Hurt, Mia Wasikowska Duração: 123 min Reino Unido/Alemanha/Grécia, 2014

[Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº21, Agosto 2014]

https://www.youtube.com/watch?v=ycOKvWrwYFo
Artigo anterior
Próximo artigo
Catarina Maia
Catarina Maia
Catarina Maia é crítica de cinema, editora de conteúdos e investigadora independente. Escreve regularmente para a revista METROPOLIS desde 2013, entre críticas, entrevistas e ensaios sobre cinema contemporâneo, cultura visual e cinema de autor. Licenciada em Estudos Artísticos e pós-graduada em Estudos Fílmicos e da Imagem pela Universidade de Coimbra, cruza frequentemente o pensamento cinematográfico com questões sociais, éticas, ecológicas e urbanas. Paralelamente, desenvolve trabalho na área da comunicação cultural e coordena o projeto cívico de cariz ambiental Jardim Monte Formoso, ligado à biodiversidade e ao espaço público. Interessa-se particularmente pelas relações entre cinema, ética, memória e justiça social. A frase “Não gastes tudo em freiras”, do filme As Bodas de Deus (1998), de João César Monteiro, permanece como mote pessoal, entre a ironia, a ternura e a desobediência.

Também Poderá Gostar de