Só Deus Perdoa

SÓ DEUS PERDOA

SÓ DEUS PERDOA

Um filme com design de som. O muito aguardado sucessor de «Drive», do wonder kid dinamarquês Nicolas Winding Refn, é só isto? Não é bem assim, mas às vezes parece. Refn tinha ideias, intenções. Fazer um estudo sobre o género da vingança. Ou “action movie” arty sem diálogos. Muito esboços. Mas e o filme? O guião? Estava lá? Não parece. Às tantas, percebe-se que a fuga para um território experimental era aquilo que estava mais a jeito. Ir para Banguecoque e fazer um filme marado com o maior galã de Hollywood, porque não? Um capricho que dê por onde der parece sempre incompleto, para não dizer mal resolvido. Por outro lado, esta história de mãe e filho, que é afinal um conto de sacrifício, está quase inquinada pelo peso dos pequenos prazeres de culpa ocidentais. Refn interessa-se sempre mais em detalhes como a música chunga tailandesa ou os neóns dos bares vermelhos de Banguecoque. Nota-se um desinvestimento na mãe vilã interpretada por Scott Thomas. A mãe que obriga o filho mal amado a vingar a morte do irmão bem amado. Pelo meio, no finíssimo submundo criminal thai, há um herói perdido na sua falência moral. Ryan Gosling é uma alma que se auto-condena. Um sacana com uma lei sacra do seu próprio fracasso.

Odeie-se ou ame-se, o aparato de Winding Refn tem passado sempre pela estilização de um conceito de violência no cinema contemporâneo. Mais do que nunca, a proeza é levada ao extremo. Em «Só Deus Perdoa» o exercício passa mesmo pela estilização teatral da violência. Reconhecer que é um “tour de force” é fazer chover no molhado, mas também é de bom senso admitir que há momentos de uma deliciosa insanidade. Os mais exigentes poderão cobrar que a sua estética está demasiado colada à de Gaspar Noé. Não por acaso, Gaspar visitou o plateau e está referenciado nos agradecimentos. Aqui e ali, sim, há um efeito Noé, suficiente para em Cannes ter ganho nova onda de ódios. O problema é que depois de «Drive» pedia-se o paraíso ou, neste caso, o inferno a Refn. Mas, claro, o charme do “sound design” e a genuína forma como sem uma narrativa estruturada se passa do sublime ao ridículo, salvam o filme de uma triste sina. Por um triz, tudo isto poderia ser um postal ilustrado do bas-fond de Banguecoque. E os menos exigentes vão poder com certeza gabar os méritos da composição impassível de Ryan Gosling e da soberania de aço da grande Kristin Scott Thomas. «Só Deus Perdoa» só não se livra de uma coisa: desiludir todos os que foram conquistados por «Drive».

Título original: Only God Forgive Realização: Nicolas Winding Refn Elenco: Ryan Gosling, Kristin Scott Thomas, Tom Burke Duração: 90 min Dinamarca/França/Suécia/Bélgica, 2013

[Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº11, Julho/Agosto 2013]

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