PORTO/POST/DOC – DARIO OLIVEIRA EM ENTREVISTA

PORTO/POST/DOC – DARIO OLIVEIRA EM ENTREVISTA

A poucos dias de começar mais uma edição do Porto/Post/Doc, conversámos com Dario Oliveira, diretor do certame. Os desafios colocados pela pandemia na organização do festival, o tema central da edição deste ano (a secção Cidade do Depois), a secção dedicada ao cinema falado em língua portuguesa – Cinema Falado, o foco no futuro da produção nacional, com a competição para obras produzidas em contexto de escolas de cinema, e finalmente a área reservada ao documentário musical, Transmission, foram os assuntos debatidos. O festival começa esta sexta-feira, dia 20 de novembro com «American Utopia» de Spike Lee e prolonga-se até ao próximo fim de semana.

Começamos por saudar a realização de mais uma edição num período particularmente complexo da produção nacional e do cinema em geral. Como foi preparar a edição 2020 neste cenário recheado de incertezas e situações novas e complexas?
DARIO OLIVEIRA: Cada edição do festival começa muito antes da rentrée, que para nós é Janeiro, depois do festival acontecer no fim do ano (na última semana de Novembro), nós costumamos já estar a preparar o próximo festival ao mesmo tempo que está a acontecer o festival desse ano: a primeira coisa que fizemos foi iniciar a preparação do festival, no início do ano, e, de repente, percebemos que tudo teria de ser diferente. E então passámos os primeiros meses do ano, o primeiro semestre do ano, a tentar encontrar um caminho que fosse real pois estávamos a viver uma situação de grande dúvida, a ver os festivais à nossa volta a serem anulados …

E a terem uma saída de recurso que era a saída possível: a versão online. E muitos festivais optaram pelo online pois os organizadores não tiveram sequer tempo de adiar. Alguns foram adiados. E aqui existe um pormenor importante: os festivais não fazem o que lhes apetece (nós que fazemos festivais sabemos isso pois conhecemos os bastidores de todo o processo). São adiados caso isso possa acontecer, pois dependem de salas (as salas pertencem aos municípios que têm uma programação autónoma)…

Por exemplo, o Porto/Post/Doc tem as datas deste ano marcadas há já dois anos, e com essa antecipação de dois anos! Se nós não fizéssemos o festival nestas datas (em Novembro) não teríamos outra semana no teatro municipal (Rivoli) para o fazer.

«White Riot»


Depois ficavam sem espaço para o realizar?
DARIO OLIVEIRA: Tinha de ser naquele espaço de tempo para o festival, os dez dias do evento. Caso contrário, só o poderíamos fazer em 2021.Ou então a hipótese seria fazê-lo noutro lugar o que não seria possível. Portanto, a primeira condicionante é esta e neste primeiro semestre do ano pesamos todas essas condicionantes e toda esta pressão sobre a atividade artística, de oferta de programação (festivais de música, de teatro, de dança, do cinema…)… todos a serem completamente aniquilados por um rolo compressor que foi a pandemia.

Que mudanças é que foram operadas para esta edição?
DARIO OLIVEIRA: Reconstruímos o festival! Fomos adaptando o festival consoante as limitações que foram aparecendo: trabalhamos sempre com três grelhas – três projetos de festival -; tivemos de cortar coisas e deixar o essencial do festival que, este ano, é um programa temático e chama-se A Cidade do Depois; temos as competições: a internacional, uma nova competição, Cinema Falado, apresenta filmes que utilizam a língua portuguesa como base sendo um grande incentivo à produção nacional, com um apoio simbólico a todo o tecido profissional que gravita à volta do cinema português (com o respetivo prémio para o Melhor Filme)…

Temos também uma nova competição de documentários de música..

E depois, deixamos adiados alguns focos de autor, até porque as pessoas não estão disponíveis para viajar como todos sabemos. Portanto, fazer um foco num autor, que está vivo, que deveria vir ao festival …

E não pode estar presente!
DARIO OLIVEIRA: E não pôde estar, por isso nós adiámos essas retrospetivas para 2021! Essas são as principais diferenças. Claro que há aqui um dano colateral que é o facto de não termos a presença física das duas centenas de convidados que costumámos estar presentes: jornalistas, realizadores, programadores dos filmes, produtores e distribuidores. Portanto, essa parte da indústria. a parte profissional também fica comprometida, de alguma forma e temos todas as atividades do fórum do real que são encontros, conversas e as masterclasses…tudo a decorrer na parte digital. Para terminar, desde a primeira hora, logo em Março, percebemos que teríamos de ter um suporte digital para o festival, em caso de haver uma segunda vaga da pandemia –que está a acontecer!- e sermos, de todo, impossibilitados de fazer o festival nas salas- o festival presencial para o público, para a cidade. E, temos o festival a acontecer, também, online…

«Juventude em Marcha»

Na Plataforma…
DARRIO OLIVEIRA: Numa plataforma – a Shift71 – que vai funcionar como um canal VOD na qual as pessoas compram um bilhete digital com a oferta de todos os filmes, quase todos os filmes, alguns não conseguimos negociar os direitos com os distribuidores porque já tinham compromissos com outros esquemas de distribuição megalómanos que nós não podemos pagar para ter os filmes disponíveis online. Portanto, durante duas semanas as pessoas podem ir ao nosso site, através do site e do link direcionado para esta plataforma. Portanto, é uma coisa muito simples, demora alguns segundos a chegar lá e toda a gente, mesmo fora da cidade, poderá acompanhar. Isto é um serviço que nós vamos ter, é uma coisa nova.

O Dario já tinha falado nisso: o tema central é A Cidade do Depois, traduz-se num programa que concentra a atenção nas “transformações da representação cinematográfica das cidades ao longo dos últimos 100 anos”. Pode concretizar esta ideia, em termos sucintos?
DARIO OLIVEIRA: Esta ideia tem uma longa história, tem quase dois anos: chamava-se “a vida e a morte das grandes cidades”.

Tivemos que adaptar e isso tem alguma graça falar disto agora, a dias de começar o festival, porque achámos que tínhamos de mudar o nome e não ter a palavra morte nem este conceito da morte das cidades não explícito no título, ainda que aquilo que está na génese do programa mantêm-se. No fundo nós temos aqui filmes, não dos últimos cem anos, mas quase. O mais antigo título que está aqui é o «Paris que dorme» (1924) que apresenta uma Paris esvaziada de pessoas que é impossível não pensar no período que estamos a viver ao vermos o filme. Mas a grande parte dos filmes que vamos apresentar vêm dos anos 60, dos anos 80 …

Inclusive, tem o «Millenium Mambo» (2001)…
DARIO OLIVEIRA: Sim, que tem 20 anos. Todo este programa tem uma preponderância de histórias de pessoas e da forma como as cidades expulsaram e criaram dificuldades às pessoas que as habitam e que trabalham nelas e para elas. Deixaram de sentir aquilo para o que as cidades foram pensadas, sítios de conforto e funcionalidades. Hoje em dia todos sabemos que as cidades são sítios opressores, são museus ao ar livre para turistas. Não é um fenómeno local, mas sim global, absolutamente reconhecido e que chega a todo o lado – é global, é contemporâneo. A mudança das populações para os subúrbios, a limpeza algo clínica das cidades para os turistas, dos sem-abrigo … tudo isto atravessa estas histórias que integram a [secção] A Cidade do Depois. Histórias da impossibilidade de vencer e de ter uma vida normal, a trabalhar…

Do dia-a-dia, do quotidiano…
DARIO OLIVEIRA: Sim. Estas histórias tem de ser mostradas, tem de ser apresentadas às pessoas, porque, muitas vezes, perdemo-nos com estas visões das cidades, dos corredores verdes que ligam os centros às periferias, os teleféricos, as ciclovias …

É verdade, é verdade. Essa “Disneyficação”
DARIO OLIVEIRA: Isso tudo deixa-nos um pouco enganados com estas medidas de maquilhagem nas cidades. Por baixo disso deixam muita gente em sofrimento.

«MLK/FBI»

Estava a pensar que este tema central A cidade do Depois podia dar uma nova secção, futuramente, ou não?
DARIO OLIVEIRA: Vai dar!

Porque há uma linha para explorar muito grande, não é?
DARIO OLIVEIRA: Há, porque como nós dizemos na equipa sobraram tantos filmes maravilhosos que há que dar espaço para eles serem exibidos.

Na secção Cinema Falado (cinema em língua portuguesa) destaca-se um dado relevante em cenário de pandemia: todas as obras foram produzidas em 2020.
DARIO OLIVEIRA: Quase, há uma que é de 2019, ainda que seja do fim do ano. É um filme brasileiro.

Sim, mas é um feito conseguir num ano como este que todas as obras produzidas sejam de 2020 …
DARIO OLIVEIRA: Toda a gente acha que se produz menos cinema porque há menos apoios, tudo está comprometido em termos de produção. O cinema em Portugal nunca foi uma indústria, não existe mercado para haver uma indústria. Existe um pequeno grupo de produtores médios que fazem um trabalho excecional. Excecional! Porque há autores, existem realizadores. Porque há ideias, porque há criadores. O cinema português é uma das formas de expressão artística popular que mais faz pela cultura portuguesa no mundo. Os filmes que compõem esta secção são filmes portugueses, alguns deles co-produções, um filme angolano. A maioria destes filmes são feitos cá. A produção portuguesa não parou!

Sim, exato…
DARIO OLIVEIRA: Aquilo que está ameaçado é uma incompreensão por parte do poder político, por parte da crítica, por parte das empresas… a incapacidade de reconhecer aos artistas portugueses o real valor que eles têm e entenderem como é que as coisas funcionam. Os festivais são montras onde os filmes se descobrem, depois os filmes têm de fazer um percurso. Têm que estar de malas aviadas para serem descobertos noutras paragens, noutros festivais. E serem vendidos! E estes filmes portugueses, e estes autores conseguem-no. O lugar onde eles são mais mal tratados acaba por ser em Portugal. Falta de reconhecimento entre nós.

«Ecstasy»

O foco no futuro do cinema nacional é outra das marcas do Porto/Post/Doc. A secção Cinema Novo apresenta uma seleção de trabalhos de jovens estudantes em escolas de cinema. O que destaca na “colheita” deste ano?
DARIO OLIVEIRA: Destaco uma coisa que tenho vindo a aprender com esta experiência dos festivais, porque se aprende imenso. É que cada vez mais a nova geração é consciente da sua própria capacidade de fazer cinema que interesse, para depois ser mostrado. Nós temos aqui uma série de filmes entre documentário e ficção, experimental e animação, e todos estes filmes são extremamente importantes para entender o que pode vir a acontecer no cinema português. Há aqui filmes feitos em contexto nacional. Há outros feitos noutras escolas internacionais. Nós, a cada ano que passa, recebemos mais filmes. Estes filmes são essa vontade de arriscar, de irmos procurar em cada vez mais lugares o que está a acontecer. São curtas-metragens, feitas em contexto escolar, mas que ultrapassam muito aquilo que se podia esperar de uma competição escolar. São filmes muito autónomos, bem feitos. Não são exercícios de estilo. É uma forma de partilharmos isto com o público.

Qual é o objetivo desta secção?
DARIO OLIVEIRA: Mostrar este cinema aos profissionais que se convidam ao festival e que este ano vão acompanhar o festival através da edição digital: estes filmes também podem ser descobertos através da nossa plataforma digital. E faço aqui um convite: acima de tudo vejam estes filmes para perceber que contra ventos e marés esta vaga de novos autores que começam agora a produzir…

Uma Vaga não só de talento, mas com vontade de fazer coisas diferentes, com um traço marcadamente pessoal e próprio…
DARIO OLIVEIRA: Sim, e aqui há um grande conhecimento cada vez mais consciente da história do cinema e de criar linguagens próprias. E é aqui que se começam a perceber, nestas primeiras obras. São mais que insipientes, são obras que interessa de facto mostrar. Não só num contexto escolar, mas num contexto de festival a par, aqui, com outras obras com outra história, com outra capacidade de produção, investimento, equipas. Aqui são filmes que foram feitos num contexto de escola com algumas fragilidades, e com muitas limitações, nomeadamente no que diz respeito ao investimento. É preciso saber que foram feitos com meios muito precários, muito reduzidos, limitados, mas que mesmo assim estão aqui para serem mostrados por alguma coisa.

«A Nossa Terra, O Nosso Altar»

A programação da secção Transmission, que o Dario já tinha falado antes, reflete alguns dos temas e tendências atuais do meio musical e terá uma programação paralela em VOD na plataforma Shift72: Com a quase ausência de espetáculos e manifestações de índole musical, desde o início da pandemia, esta secção adquire aqui uma importância, digamos que suplementar?
DARIO OLIVEIRA: Eu gosto muito desta pergunta. Vou tentar explicar: esta secção já existia. O que é que temos? Como é que o Transmission, nesta edição, ganha um valor diferente? Por dois motivos: um que tem a ver com a produção atual, que acaba por trazer coisas muito importantes para esta edição. Por outro lado já era a maior parte das coisas. O Transmission já era uma secção onde o nosso público encontrava filmes. Nós não vamos nunca à procura dos filmes que as pessoas querem ver.

O Transmission é sempre um desafio a saber mais, a descobrir mais. Este ano tem uma carta branca daquele que é o maior festival de cinema documental da Europa que é o In-Edit, que acontece em Barcelona, embora este ano tenha sido apenas em formato online por causa da pandemia (terminou há poucos dias). Apresentamos três filmes escolhidos por eles. Nós temos, pela primeira vez, uma secção competitiva e procuramos nesta secção que houvesse a abordagem de temas importantes para despertar algo no nosso público. Temas que são, de facto, muito pertinentes: por exemplo, o «White Riot» fala do rock against racism, que é um movimento criado por um fotógrafo no final da década de 1970, em Londres, numa altura em que o nacional-socialismo estava em grande …

E este rock against racism aparece como um movimento através duma oportunidade única, que era o nascimento do pós-punk, da new wave e apropria-se desta capacidade que a música rock tem de alertar as consciências, de abanar o sistema para transmitir esta mensagem. No fundo, é um exemplo de como a cultura popular é capaz de derrotar essa ascensão do movimento nacional socialista em Inglaterra. E nós apresentamos este filme porque tem tudo a ver com aquilo que estamos a viver no presente momento. Acho que as questões políticas e injustiças sociais estão presentes nas escolhas desta secção. O Transmission é isso: a vontade de ser interventivo politicamente, socialmente e culturalmente, através da música, e não o lugar onde as pessoas vão encontrar o último documentário sobre a sua banda preferida. Isso também pode acontecer, e se acontecer ótimo.

É o que se passa com o filme de abertura do Porto/Post/Doc…
DARIO OLIVEIRA: Sim, é o documentário, um dos documentários do ano! o «American Utopia» do David Byrne, filmado pelo Spike Lee: não é um filme narrativo, não é um documentário sobre a obra do David Byrne. É provavelmente o documentário mais bem feito sobre o espetáculo ao vivo da Broadway que o David Byrne fez há dois anos. Mas o filme em assim é muito mais do que a gravação dum espetáculo. É uma forma de amplificar a mensagem.

E é engraçado que a génese desse espetáculo passou por Portugal, há dois anos, em Cascais…
DARIO OLIVEIRA: sim, sim passou. Num festival de verão. Passou, mas eu desafio quem esteve lá a ver este filme. Porque o filme é bastante mais completo e profundo.

«Welcome to the Dark Ages»

A última questão: Vocês já pensaram na extensão do festival ao longo do próximo ano, em momentos e sessões destinadas ao efeito? É uma opção em cima da mesa?
DARIO OLIVEIRA: É. O Há filmes na Baixa é uma programação que alimenta ao longo do ano o Cinema Passos Manuel. E aquilo que acontece ao longo das outras 52 semanas do ano, podemos sim chamar-lhe uma extensão do festival porque voltamos aos autores que apresentámos em Novembro, durante o festival, mostramos mais filmes e cinematografias que mostramos pela primeira vez no festival. Portanto, tudo isto tem uma relação, os autores, as cinematografias, o documentário, o cinema do real. Tudo aquilo que nos move para este momento concentrado de programação que é o festival, depois é o motor de tudo aquilo que é a programação do Há filmes na Baixa

Que aprofunda, digamos que o próprio coração do festival…
DARIO OLIVEIRA: Exatamente. porque o nosso público volta para as sessões do Há filmes na Baixa. Nós temos uma associação que funciona como um cineclube, que tem mais de cem sócios. Portanto é através desta forma de apresentação de cinema que nós conseguimos fidelizar e conseguimos ter um público que chega à sessão seguinte a conhecer melhor os autores que nós mostramos em primeira mão…

A querer saber mais sobre cinema contemporâneo e isto é formação de públicos, que é um trabalho que nós queremos acarinhar e que já existe há sete anos…

Claro que agora está tudo comprometido em termos de horários, ocupação de salas, mas nós tínhamos uma ocupação média no festival de 110 pessoas por sessão e um número muito idêntico nas sessões do Há filmes na Baixa por que o público era o mesmo, e cada ano tem vindo a aumentar.

Muito Obrigado e Boa sorte para o Porto/Post/Doc deste ano

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