PÔR DO SOL – O MISTÉRIO DO COLAR DE SÃO CAJÓ

PÔR DO SOL – O MISTÉRIO DO COLAR DE SÃO CAJÓ

“Tirando os cavalos a andar para trás, tudo o que acontece no ‘Pôr do Sol’ acontece em novelas”. Dito, citado e descrito por Rui Melo durante a sua passagem na Comic Con de 2021, face ao sucesso da sua criação “Pôr do Sol”, sátira de telenovela à portuguesa, de humor deslocado e personagens excêntricas, que conquistou a nossa portugalidade em alturas da pandemia. O suficiente para a concretização de uma segunda temporada e agora, inevitavelmente, um filme que prossegue as aventuras destas figuras queridas para o grande público em modo prequela. A “trama” de «Pôr do Sol – O Mistério do Colar de São Cajó», se é que existe concretamente, esperneia ao longo de um só macguffin, um colar denominado de São Cajó (aquele que estará na família de Bourbon de Linhaça por mais de 3500 anos), e é através desse adereço que o espectador deparará com a génese de uma família de agrobetos caricaturalmente scalabitana, que em ares de telenovela seria levado a sério (daí a “magia” da série). Não é caso de ficarmos resolvidos das grandes questões da Humanidade, mas questionamos nesta metragem se era justificável uma conversão cinematográfica do fenómeno televisivo, mais do que decretar se tem ou não “piada” o seu modus operandi. A resposta é um claro Não, esborratado e carimbado, até porque fora da sua caixa – a “pequena caixa” que se tornou a televisão, e muito mais a generalista – o “Pôr do Sol” perde o seu intuito de caricatura. Deseja continuar a ser a sátira das produções telenovelescas como havia sido, contudo, num “corpo que não lhe pertence”, o de um filme enfiado numa tela grande com duas horas de duração. O que resta desse transformismo é a velha cantiga de “televisão ao invés de cinema” que se tem pairado no questionável termo de “cinema comercial português”. Com isto não nos envergonhamos dos talentos investidos, Rui Melo, a figura-chave, é um ponta-de-lança nas diferentes linhas de jogo ou Diogo Amaral mantém-se como o ator mais à vontade na sua pele de auto-ridicularização, mas nada disso impede que um sucesso televisivo se despoje dos seus propósitos na mudança de terreno. Mais vale termos solicitado uma terceira temporada, porque gozar com telenovelas é “bico-de-obra”, fazer pouco da produção cinematográfica nestes termos é como “dar com os burros n’água”.

Título original: Pôr do Sol – O Mistério do Colar de São Cajó Realização: Manuel Pureza Elenco: Rui Melo, Gabriela Barros, Diogo Amaral, Sofia Sá da Bandeira, Marco Delgado, Diogo Infante Duração: 112 min. Portugal, 2023

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº97, Verão 2023]