Perry Mason: Mais Spin-Offs Assim, Por Favor!

Perry Mason: Mais Spin-Offs Assim, Por Favor!

Fiquem com a review da primeira temporada de «Perry Mason», que tem estreia marcada para amanhã, 22, na HBO Portugal. Matthew Rhys e Tatiana Maslany garantem um regresso incrível à TV.

Ao começar a escrever este artigo, acercam-se da memória algumas das palavras que li e escrevi sobre o bem conseguido spin-off de «Watchmen». Numa altura em que surgem prequelas, sequelas e todo o género de reciclagem de histórias, muitas sem substância, é uma verdadeira lufada de ar fresco encontrar séries como «Watchmen» ou «Perry Mason». Que têm a capacidade de respeitar o passado e, ao mesmo tempo, chamam a responsabilidade sem medos e reinventam um universo já estabelecido, adicionando-lhe uma nova camada.

Para quem não conhece o imaginário associado a Perry Mason, este é um advogado que surgiu nos livros pela primeira vez em 1933. Erle Stanley Gardner assinou 86 obras, algumas publicadas após a sua morte. Contaria depois com diversas adaptações, sendo a mais memorável a série da década de 50, da CBS. Atualmente, é a terceira saga literária mais lida de sempre, atrás de Harry Potter e Goosebumps/Arrepios. No total, soma mais de 300 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.

Feitas as apresentações, vamos ao assunto que realmente interessa. Perry Mason (Matthey Rhys, Os Americanos) surge agora como detetive, em Los Angeles na plena década de 30, sendo rotineiramente contratado para apanhar parceiros infiéis e outros casos de pequena monta. Atormentado ainda pelo que viveu na Guerra, leva uma vida solitária e tem apenas uma certeza: há as leis/regras e há o que é certo. E a personagem de Rhys opta sempre pela segunda opção.

Tudo muda quando é contratado por EB Jonathan (John Lithgow) para trabalhar no bizarro caso de um bebé que apareceu morto depois de o resgate ter sido pago. Com os pais Matthew (Nate Corddry) e Emily Dodson (Gayle Rankin) em sofrimento, a investigação torna-se progressivamente mais complicada quando surgem possíveis culpados aparentemente insuspeitos. E, enquanto o espectador vai recebendo algumas provas, o elenco principal continua completamente perdido e longe de resolver o mistério. Sairá Mason de sorriso no rosto no final da temporada?

«Perry Mason» é uma série de realização sóbria, fotografia escura e que concretiza próximo da perfeição o argumento e o que este quer passar. Nada que surpreenda, uma vez que cinco dos oito episódios são realizados pelo notável Timothy Van Patten (A Guerra dos Tronos, Os Sopranos, Broadwalk Empire ou The Pacific).

Por sua vez, conta com um elenco repleto de estrelas, onde — além dos referidos — se destacam nomes como Tatiana Maslany (a incrível protagonista de «Orphan Black), Juliet Rylance — que dá vida a Della Street, a assistente de Mason nos livros, aqui ao lado de EB —, Lili Taylor, Stephen Root ou Robert Patrick. Muito suportada pela ação, a minissérie da HBO afasta-se do conceito de séries de advogados e alia sempre o tribunal, onde é julgado o caso do bebé Charlie, a momentos repletos de tensão, luta e revelações inesperadas.

Ao mesmo tempo, acompanha uma cidade em movimento e um país que se encara a si próprio à sua pior luz. Sem redundâncias ou insistências da narrativa, aborda com naturalidade algo que, à data, estava tão embrenhado na sociedade que era visto como natural: a segregação racial, a corrupção da autoridade, a homossexualidade como segredo e as condições precárias dos ex-combatentes. Segura de si e da história que quer contar, «Perry Mason» não depende em demasia da personagem que lhe dá nome, pelo que todas têm espaço para crescer, nomeadamente Emily e a Irmã Alice (Maslany) — o rosto de uma igreja evangélica que envolve bastantes crentes, dinheiro e até uma rádio.

Já escrevi várias vezes na Metropolis sobre como a Tatiana Maslany é incrível, e tinha saudades de o fazer após o seu interregno na TV desde «Orphan Black». Para quem viu a série, é impressionante como depois de cerca de duas dezenas de personagens (clones), a atriz canadiana ainda tem a capacidade de nos mostrar algo que não tínhamos visto antes. Podia escrever uma review apenas sobre ela. Sobre como agarra cada monólogo que é concedido à sua Alice, ou se transfigura na perfeição perante a câmara. É tudo dela, mesmo que não se saiba se a atriz tem lugar numa eventual segunda temporada.

Consistente do princípio ao fim, «Perry Mason» promete ter vindo para ficar. Integrando o leque das melhores séries de 2020 até ao momento, numa luta onde a HBO tem comprovado que há vida depois de «A Guerra dos Tronos», a trama protagonizada por Rhys mostra também o ator em estado de graça. Depois das comparações com «Watchmen» no início do texto, há uma em concreto que não queremos que se repita: queremos mais temporadas.

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