Paris 13

PARIS 13

PARIS 13

Existe uma canção de Chico Buarque que arranca lágrimas e dispara assobios sempre que toca na rádio: “Carlos amava Dora/ que amava Pedro/ que amava tanto/ que amava a filha/ que amava Carlos/ que amava Dora/ que amava toda a quadrilha”? Existe um quê do sentimento descrito pelo trovador brasileiro em «Paris 13» («Les Olympiades, Paris 13e»), que o francês Jacques Audiard extraiu das BDs do cartoonista americano Adrian Tomine (“A Solidão de um Quadrinho Sem Fim”). É um momento Truffaut de Audiard, fragmentando Antoine Doinel por muitos personagens. Na sua narrativa de um preto & branco suave, Émilie conhece Camille que está atraído por Nora, cujo caminho se cruza com o de Amber. Três garotas e um rapaz. Quatro encarnações da multiplicidade cultural de uma França que saiu da pandemia afoita por entender o que restou do contato físico, do toque, da presencialidade.

Esses personagens são amigos; às vezes, amantes; e às vezes, as duas coisas. Foi esse o ethos que o campeão de bilheteria laureado com a Palma de Ouro de 2015, pelo bravo «Dheepan», extraiu das graphic novels “Amber Sweet”, “Hawaiian Getaway”, “Summer Blonde” e “Killing and Dying”, publicados por Tomine na banda desenhada “Optic Nerve”. Mas Audiard dá o seu toque autoralíssimo ao dar vazão a uma transcendência, ou seja, uma prospeção de felicidade que parece não caber mais nos cerebrais e nada carnais rizomas do cinema contemporâneo. O fervor da carne sumiu sobretudo num momento no qual Hollywood parece ter abolido o beijo na boca das suas tramas, mesmo as mais comerciais. Diante do medievalismo dos tempos atuais, onde sobretudo Hollywood castrou toques e beijos, um filme que celebra o amor, nas bases da fisicalidade, merece ser festejado como um gesto de ousadia.

Na sua argamassa, em fase de palavra, Nicolas Livecchi , Léa Mysius e Céline Sciamma (a diretora do apaixonante «Retrato de uma Jovem em Chamas», de 2019) colaboraram com Audiard num guião que exulta Jean-Marie Maurice Schérer (1920-2010), mais conhecido pelo pseudónimo Éric Rohmer, a cada tomada, buscando reavivar as memórias desse realizador que deu à palavra falada a dimensão de um poema. Muito se fala da conexão entre «Paris, 13» e «A Minha Noite em Casa de Maud» (1969), que rendeu a Rohmer duas indicações ao Oscar. No fim dos anos 1960, esse pilar da Nouvelle Vague (o movimento responsável por levar o cinema francês à modernidade, submetendo-o a uma hemodiálise sociológica) surpreendeu uma era que revisava comportamentos afetivos e sexuais ao mostrar uma (quase) amizade entre um católico fervoroso (Jean-Louis Trintignant) e uma mulher libertária Maud (Françoise Fabian). Cinco décadas depois, a estranheza que havia em Rohmer, acerca das conexões entre cama e rotina, amizade e tesão, segue intrigando a ala autoral da indústria cinematográfica francesa, ainda rendendo uma dramaturgia capaz de se opor às convenções da moral.

Audiard, que chegou aos 70 anos, interessa-se por essa mania que as pessoas têm de gostar de alguém desde «Nos Meus Lábios» (2001), que atestou o som e a fúria de atriz Emmanuelle Devos. Mas o ato de amar, em seus filmes, quase sempre era mediado por um aríete de desespero e por vetores de desarranjo social, como visto em «Ferrugem e Osso», de 2012. Há quatro anos, «Os Irmãos Sisters», um faroeste que ele filmou em Inglês, com Joaquin Phoenix e John C. Reilly, trouxe o primeiro sopro de brandura em seu corpo a corpo com a paixão. E, agora, um timbre cool rege as notas do desejo de «Paris 13». Mesmo nas sequências de mais febre, com incontinência de prazer, ele consegue ser suave, interessado em mostrar como ligações cálidas servem de interseção entre a operadora de telefone Émilie (Lucie Zhang), o incansável professor Camille Germain (Makita Samba), a estudante de Direito Nora (Noémie Merlant, avassaladora) e a camgirl Amber (Jehnny Beth). Cada um num arranjo, todas essas quatro pessoas se querem. Acreditam-se fiéis ao que Chico cantava: “a gente só almoça, só se coça e se roça e só se vicia”. Mas, como samba sua música: “Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família. Armadilha”. Amar não é fácil. O cinema sabe. E é tarefa de poetas como Audiard compartilhar esse conhecimento.

Título original: Les Olympiades, Paris 13e Realização: Jacques Audiard Elenco: Lucie Zhang, Makita Samba, Noémie Merlant Duração: 105 min. França, 2021