Óscares 2024

Óscares 2024

A 96ª cerimónia dos Óscares ficou marcada pela noite de consagração de «Oppenheimer» com 7 Óscares incluíndo Melhor Filme. Foi um evento sem surpresas, mas onde a diversidade dos vencedores foi um denominador comum.

Christopher Nolan finalmente ganhou o Óscar de Melhor Realizador e foi muito interessante ver um grande realizador como Nolan receber o galardão do lendário Spielberg, que apresentou a categoria de Melhor Realizador, um feliz encontro de dois grandes criadores da 7ª Arte e diria quase uma passagem de testemunho.

Robert Downey Jr., ganhou o seu primeiro Óscar numa longa e dura viagem dentro e especialmente fora dos ecrãs, um incrível trajecto do fundo do poço para a aclamação global e total redenção numa demonstração do seu talento como actor no papel de Lewis Strauss em «Oppenheimer».

Oppenheimer

Cillian Murphy venceu numa categoria fortíssima e recheada de excelentes interpretações. O actor irlandês venceu sem surpresas o Óscar de Melhor Actor pelo seu papel de J. Robert Oppenheimer. Quando saímos do visionamento de imprensa de «Oppenheimer» (em Julho de 2023) tínhamos praticamente a certeza que o Óscar seria seu. Este galardão marca também uma colaboração de sucesso do actor com Christopher Nolan e a produtora Emma Thomas. Relembramos que foi um papel que Cillian Murphy assumiu sem sequer ter lido o argumento…

Emma Stone venceu o seu segundo Óscar de Melhor Actriz – um prémio mais do que justo – pela performance de Bella Baxter em «Pobres Criaturas». A actriz teve (mais um) ataque de pânico e o vestido estragou-se, mas tudo correu pelo melhor com o Óscar na mão. Emma Stone referiu o conselho que aprendeu de Yorgos Lanthimos, os filmes são um trabalho de equipa para fazer algo maior do que apenas a soma das suas partes. Além da vitória de Emma Stone, «Pobres Criaturas» levou para casa mais 3 merecidos Óscares as categorias mais criativas (Design de Produção, Maquilhagem e Figurino).

Um dos melhores discursos da noite foi para Da’Vine Joy Randolph a vencedora do Óscar de Melhor Actriz Secundária para «Os Excluídos». Ela foi auxiliada a subir ao palco por Paul Giamatti (devido ao seu belo e comprido vestido) mas esqueceu-se de agradecer aos seus pares no filme e ao realizador Alexander Payne. Mas a emoção e a sinceridade de Da’Vine Joy Randolph fizeram-nos esquecer qualquer lapso da única menina negra na escola de interpretação onde ela andou e que desde pequena aprendeu a criar o seu próprio caminho.

O outro grande discurso da noite pertenceu ao talentoso Cord Jefferson, vencedor do Oscar de Melhor Argumento Adaptado por «American Fiction» questionando a politica dos estúdios gastarem 200 milhões para fazer um filme e que poderiam com o mesmo dinheiro fazer 20 filmes de 10 milhões dando oportunidades a outros cineastas como ele. E por falar em argumentos, o casal Justine Triet e Arthur Harari venceu o Óscar de Melhor Argumento Original por «Anatomia de Uma Queda».

A melhor interpretação musical da noite foi de “What Was I Made For?” de Billie Eilish e Finneas O’Connell que fez levantar a plateia, a dupla também levou o Óscar de Melhor Canção por «Barbie». Mas a interpretação musical que deixou a plateia em delírio foi a contagiante performance da canção nomeada “I’m Just Ken” por Ryan Gosling e companhia com a participação especial de Slash. Foi um número de puro espectáculo, cheio de luz, cor e uma frenética coreografia em palco, um momento digno do passado musical de Hollywood.

O momento In Memoriam merecia outra sobriedade e espalhou-se ao comprido especialmente na realização televisiva ao misturar dança e a performance de Andrea Bocelli e Matteo Bocelli de “Time to Say Goodbye”. Um número que retirou o protagonismo às imagens que estavam a passar nos ecrãs do Dolby Theatre e que prestavam tributo aos talentos que a indústria cinematográfica perdeu. Também não se entendeu a colocação de Alexei Navalny no segmento mesmo apesar do falecido dissidente russo ter participado no documentário homónimo de Daniel Roher (vencedor do Óscar de Melhor Documentário em 2023). O segmento terminou de forma mais insólita ao “picar o ponto” colocando os vários nomes de outras figuras da indústria que desaparecem no ecrã da sala. É um caso onde claramente no futuro a produção testar o mote “less is more” basta recordar outros tributos mais lacónicos In Memoriam e despidos de glamour no passado da cerimónia.

Por falar em despidos, na apresentação do Óscar de Melhor Figurino, John Cena esteve hilariante sublinhado a importância de possuir um guarda-roupa… ele surgiu inicialmente todo nu (antes da apresentação dos nomeados) e apenas protegido pelo envelope do vencedor da categoria a tapar o seu baixo-ventre.  Fotos dentro da sala comprovam que John Cena estava de tanga quando vestiu a toga para apresentar o Óscar da categoria a Holly Waddington pelo figurino de «Pobres Criaturas». Foi um belo gag com Jimmy Kimmel que surgiu a propósito dos 50 anos do incidente na cerimónia dos Oscars de 1974 com David Niven e um corredor nu…

O Óscar de Efeitos Visuais para «Godzilla Minus One» (o primeiro Óscar desta saga) provocou talvez o momento mais insólito da noite com o vencedor japonês (o realizador Takashi Yamazaki) a ter dificuldades a falar inglês e mesmo com problemas a ler o que tinha escrito na sua cábula, tivemos muito pena do senhor e foi só um embraço de 90 segundos… O mesmo pode ser dito pela apresentação do principal Óscar da noite, o de Melhor Filme, Al Pacino não esteve no seu melhor.

A cerimónia não foi tomada de assalto por declarações políticas (como o recente Festival de Cinema de Berlim) e teve ainda mais impacto quando dois dos vencedores fizeram referência nos seus discursos às tragédias do conflito em Israel e à Guerra na Ucrânia. Primeiro, um sólido discurso escrito de Jonathan Glazer, sobre a desumanização e a comparação ao conflito em Israel e a Faixa de Gaza aquando a atribuição do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro por «A Zona de Interesse». E depois, Mstyslav Chernov por «20 Days in Mariupol» pelo Óscar de Melhor Documentário onde referiu que trocava o seu Óscar e nunca desejava ter feito o seu filme em torno da agressão russa à Ucrânia. E por falarmos em política obviamente que Jimmy Kimmel arrasou Donald Trump à boleia de um post do ex-Presidente americano sobre o anfitrião da noite.

Dois grandes nomes do cinema venceram um Óscar, mas não tiveram presentes, Hayao Miyazaki, que venceu de forma expectável o Óscar de Melhor Animação com «O Rapaz e a Garça», e Wes Anderson, que apesar da sua grande carreira, só agora venceu o seu primeiro Óscar com a Melhor Curta Metragem «A Incrível História de Henry Sugar». O Óscar de Wes Anderson foi acompanhado por uma deixa de humor e improvisação do actor e comediante Ramy Youssef de «Pobres Criaturas» (que estava a apresentar o prémio ao lado de Issa Era), afirmou de uma forma casual “Parabéns Wes nós sabíamos que conseguias fazer longas [metragens], mas Uau…”

Ficou na retina a apresentação individual dos nomeados dos Óscares de interpretação pelos vencedores do passado. E mesmo com os discursos no teleponto só mesmo Tim Robbins falhou a apresentação da nomeação de Robert De Niro ao considerá-lo vencedor em vez de nomeado. Estas apresentações foram marcadas pelos excelentes tributos aos actores nomeados e às suas performances e foram recheadas do brilho das grandes estrelas em palco mesmo que umas tenham sido mais eloquentes do que outras. E assim foi o tom da cerimónia com altos e baixos mas num registo de mínimos olímpicos e sem entusiasmar particularmente. Ainda não foi desta que tivemos um anfitrião de execpção – a culpa é da nostalgia e de Billy Crystal – mas Jimmy Kimmel no modo de talk-show teve os seus bons momentos. A cerimónia será, como sempre, lembrada pelos vencedores, o legado dos filmes e as grandes interpretações, num ano que mesmo com greves pelo meio tornou-se absolutamente excepcional para o cinema.

LISTA DE VENCEDORES