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OS INOCENTES

Quem somos nós quando ninguém está a ver? «Os Inocentes», de Eskil Vogt, parece jogar com este velho enigma. Logo no início do filme, vemos Ida (Rakel Lenora Fløttum), uma menina de 9/10 anos que viaja de carro com os pais (Ellen Dorrit Pedersen and Morten Svartveit) e a irmã mais velha, Anna (Alva Brynsmo Ramstad), que sofre de autismo. No banco de trás, Ida certifica-se de que ninguém a está a ver e belisca com força a irmã, que parece incapaz de se expressar senão através de uma subtil mudança de semblante. Uma crueldade fina, “infantil”, que nos apresenta assim a protagonista de uma história que mistura de forma subtil o quotidiano vulgar com o sobrenatural.

A família de Ida acaba de se mudar para um novo bairro nos arredores de Oslo. São as férias de Verão e a maioria dos vizinhos está fora. Enquanto vagueia pelas ruas mais ou menos desertas, Ida conhece Ben (Sam Ashraf), um outro menino solitário que se oferece para lhe mostrar as redondezas. A eles junta-se mais tarde Aisha (Mina Yasmin Asheim), uma criança sensível que consegue comunicar com Anna sem o uso de palavras. Mas os seus poderes não se ficam por aí. Aliás, todos eles, em maior ou menor grau, descobrem que têm superpoderes que nem sempre vão usar para o bem…

Parceiro de escrita de longa data de Joachim Trier, Eskil Vogt, nomeado para os Oscars na categoria de Melhor Argumento pelo filme «A Pior Pessoa do Mundo», regressa a um tema clássico que lhe parece ser caro («Thema», 2017), a juventude e os poderes sobrenaturais. Sustentado pelas interpretações brilhantes dos jovens actores, «Os Inocentes» mergulha-nos numa faceta mais sombria da infância, lugar de indefinição e experimentação, que raras vezes vemos retratado com tanta inteligência e sensibilidade. Intrigante e por vezes doloroso, vale a pena descobrir nos cinemas.

Título original: De uskyldige Realização: Eskil Vogt Elenco: Rakel Lenora Fløttum, Alva Brynsmo Ramstad, Sam Ashraf Duração: 117 min. Noruega/Suécia/Dinamarca/Filândia/França/Reino Unido, 2021

https://www.youtube.com/watch?v=RY2yL_bIsEIhttps://www.youtube.com/watch?v=RY2yL_bIsEI
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Catarina Maia
Catarina Maia
Catarina Maia é crítica de cinema, editora de conteúdos e investigadora independente. Escreve regularmente para a revista METROPOLIS desde 2013, entre críticas, entrevistas e ensaios sobre cinema contemporâneo, cultura visual e cinema de autor. Licenciada em Estudos Artísticos e pós-graduada em Estudos Fílmicos e da Imagem pela Universidade de Coimbra, cruza frequentemente o pensamento cinematográfico com questões sociais, éticas, ecológicas e urbanas. Paralelamente, desenvolve trabalho na área da comunicação cultural e coordena o projeto cívico de cariz ambiental Jardim Monte Formoso, ligado à biodiversidade e ao espaço público. Interessa-se particularmente pelas relações entre cinema, ética, memória e justiça social. A frase “Não gastes tudo em freiras”, do filme As Bodas de Deus (1998), de João César Monteiro, permanece como mote pessoal, entre a ironia, a ternura e a desobediência.

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