OS EXCLUÍDOS

OS EXCLUÍDOS

A meio de Fevereiro de 2024, a receita comercial da dramédia «The Holdovers» («Os Excluídos», em Portugal; «Os Rejeitados», no Brasil) estava próximo dos US$ 40 milhões, na esteira de cinco nomeações ao Óscar 2024, entre elas a de Melhor Filme, Argumento Original e Montagem. As duas outras indicações sublinham as duas conquistas que a tocante longa-metragem de Alexander Payne teve no Globo de Ouro: Melhor Atriz Secundária (Da’Vine Joy Randolph) e Melhor Ator (Paul Giamatti). É um retorno de Payne a uma estética dos anos 1970, como fizera antes em «Nebraska» (2013). Como se viu nesse filme, o seu molde para narrar se reporta à Nova Hollywood – o período compreendido entre 1967 e 1981, quando o cinema americano passou por uma hemodiálise moral. Dois títulos desse período parecem estar no seu radar: «Ensina-me a Viver» («Harold and Maude», 1971) e «Bem-Vindo, Mr. Chance» («Being There», 1979).

Percebemos em Alexander Payne há um pouco de “Ensina-me…”, no facto de também termos nele, tal qual na pérola dos anos 1970, um jovem que não sabe lidar com a rejeição familiar, abraçando o lado mais bizarro a fim de se proteger das perdas. Existem também faíscas da fenomenal longa-metragem com Peter Sellers (1925-1980), sobre um solitário “videota” que, isolado do mundo sob uma bolha analgésica, precisa cair na estrada e reaprender a viver com a sua genial ignorância. O personagem de Paul Giamatti, o professor Paul Hunham, cai nesse arquétipo.

O jovem Angus Tully (vivido por Dominic Sessa) assemelha-se ao Harold, do filme de 1971, que, assim como “Being There”, foi pilotado por Hal Ashby (1929-1988). Sempre que os nomes seminais do Cinema Novo norte-americano são citados, Francis Ford Coppola, Brian De Palma, Martin Scorsese, George Lucas e Steven Spielberg são os mais celebrados. Mas todos eles falam de Ashby como um irmão mais velho. O irmão pacifista que via a beleza em tudo aquilo que chama de rotina. Era um cineasta que vibrava pelos perdedores e não se importava com o desejo de vitória na sua pátria. Aliás, quando Coppola estava prestes a falar da Guerra do Vietnam sob uma perspetiva épica, com «Apocalypse Now» (1979), Ashby apareceu antes dele com um drama que abordava o conflito sem farda, da ótica dos que se feriram: «Amargo Regresso» («Coming Home», 1978). O mesmo assunto já havia aparecido na obra de Hal em «A Última Missão» («The Last Detail», 1973).

Fotografado em tons cinzentos e pastéis por Egil Bryld, «Os Excluídos» apresenta-nos uma família um bocado disfuncional – como eram as famílias de Ashby. Tudo começa quando uma confusão criada por Angus Tully  que obriga o estudante a passar as festas de fim de ano – em 1970 – no campus do seu colégio interno (a Barton Academy), uma vez que sua mãe não parece afoita para vê-lo. A postura ética de absoluta severidade de Paul Hunham (Giamatti) faz com que os seus superiores condenem o professor a passar o Natal a cuidar de Tully. Sendo um facto que não haja ninguém que esteja à espere do professor para a ceia de Natal. Diante do luto e das asperezas de um país racista, Mary Lamb também fica com eles, ainda que parcialmente…

Os olhos de Ashby – assim como os de Payne – revolvem com a certeza de que a vida nem sempre nos rende grandes vitórias, ainda que, invariavelmente, renda lições redentoras. Não é por acaso, toda analogia que se faça entre «Os Excluídos» e o legado de Ashby, passe pela memorável personagem (alvo de exclusão racial) de Da’Vine Joy Randolph: Mary Lamb, a responsável de um refeitório escolar. Essa figura amargurada é o istmo que une a ilha Payne ao arquipélago cinéfilo de histórias sobre fracassados profissionais contadas por Ashby. Ao falar deles, na forma de comédias tristes, a arte cinematográfica apresenta histórias vencedoras naquilo que o American Way Of Life desconhece: a aceitação dos deslizes e dos insucessos.

Título original: The Holdovers Realização: Alexander Payne Elenco: Paul Giamatti, Da’Vine Joy Randolph, Dominic Sessa Duração: 133 min. EUA, 2023