O Projecto Adam

O PROJECTO ADAM

O PROJECTO ADAM

«O Projeto Adam» voltou a reunir em 2022 Shaun Levy a Ryan Reynolds após o bem-sucedido «Free Guy: Herói Improvável» (2021). Ambos partilham o dom de estarem como peixes na água no género de cinema de aventura e acção com comédia à mistura, tendo um vasto rol de filmes que ficam na retina e são sinónimo de boa disposição e entretenimento.

«O Projeto Adam», da Netflix, é cinema de aventura carregado de nostalgia na história de um herói que dobra o conceito de espaço e de tempo para encontrar o amor da sua vida. Nesse percurso a narrativa lida com o diálogo e as emoções fortes das relações entre pais e filhos.

A premissa de «O Projeto Adam» é simples, a narrativa não inventa – não há entropia –, é tudo muito linear, apesar de estarmos a lidar com conceitos de viagens no tempo. Os argumentistas liderados pelo talentoso Jonathan Tropper trocaram por miúdos a linguagem mais esotérica da viagem no tempo e brincam no diálogo com estas noções no cinema popular. A história leva Adam (Ryan Reynolds) a saltar no tempo de 2050 para 2018 para impedir o desaparecimento no futuro da sua mulher (Zoe Saldana). O salto no tempo não corre como previsto e Adam vai parar a 2018 e dá de caras com a sua versão mais jovem (Walker Scobell), mais inteligente e menos corrompida por escolhas estúpidas que marcam a sua vida no futuro. Nesse momento percebemos o porquê do Adam adulto procurar a única escolha certa da sua existência… A dinâmica entre os dois “Adams” é deliciosa, Walker Scobell contracena lindamente com Ryan Reynolds. E não foi só a comédia, mas também no confronto dramático de dois personagens em diferentes pontos da sua vida. O diálogo e a transmissão de sabedoria da vivência de uma vida do Adam adulto face à falta de percepção e valorização do mundo em especial da mãe do jovem Adam. O que fixou o filme à terra foram mesmo os sentimentos entre os personagens, as suas escolhas e o arrependimento, diríamos, a procura da redenção perante a possibilidade de voltar atrás e corrigir os erros do passado evitando os erros do futuro. O argumento identificou o primeiro ponto de fricção e arrependimento de ambos. Em primeiro lugar em relação à mãe numa interpretação de Jennifer Garner com ternura e sacrifício maternal. E depois face ao génio do pai, demasiado ocupado para cuidar da família – Mark Ruffalo interpreta o papel de pai com a qualidade que o distingue nas quatro Estações. A par da trama familiar há belos momentos de acção e ficção e a introdução de mais personagens. Exemplo disso é a relação com o amor perdido desempenhado pela sempre fiável de Zoe Saldana.

Ryan Reynolds é a estrela que brilha mais forte, além de actor, é produtor desta obra e nota-se o seu envolvimento criativo, é uma garantia de aposta certa que não nos deixa ficar mal. Walker Scobell, como o jovem Adam, foi a surpresa da obra, um talento inato que não tinha experiência perante as câmaras, só tinha participado numa peça na escola. Scobell foi descoberto pela directora de casting, Carmen Cuba, a responsável do casting dos jovens actores de «Stranger Things».

O sentimento de nostalgia também marcou presença e tornou a viagem mais agradável através da encenação (história, cenários e efeitos visuais) ao remeter o filme para a categoria de obras de culto da produtora Amblin («E.T. – O Extra-Terrestre» ou «Regresso ao Futuro»). Boas vibrações que se sentem do primeiro ao último minuto. «O Projeto Adam» não inventou a roda, mas abraçou o cânone do género e sai-se lindamente no processo de entreter os espectadores em duas horas muito bem passadas.

Título original: The Adam Project Realização: Shawn Levy Elenco: Ryan Reynolds, Walker Scobell, Mark Ruffalo, Jennifer Garner, Zoe Saldana, Catherine Keener Duração: 106 min EUA, 2022