O Mordomo

O MORDOMO

O MORDOMO

Danny Strong, argumentista que encantou a América com o telefilme «Recount» e que está escalonado para escrever os dois filmes finais da saga Hunger Games, consegue aqui algo raro em Hollywood: um argumento com os moldes da crónica romanceada. Ou seja, pega na história verdadeira de um mordomo da Casa Branca que serviu 8 Presidentes e dá-lhe um outro nome e uma família fictícia. Em nome do desejo didático histórico deste projeto, encena-se uma reconstituição dos mais importantes eventos XX na América e dá-se voz a uma América negra que sentiu na pele as convulsões sociais do país. Claro está que toda a intenção é jogar-se numa iconografia de uma marca sentimental afro-americana. Por isso, Spike Lee entrou a bordo, tendo sido depois substituído por Lee Daniels, atualmente uma das vozes mais fortes do cinema afro-americano,em parte devido ao sucesso estrondoso do algo sobrevalorizado Precious. Não haja dúvidas, Lee Daniel’s «O Mordomo» é apontado para um público afro-americano. Isso, a priori, poderia ser um handicap, mas torna-se rapidamente uma vantagem. Cedo se percebe que o “feeling” do filme é genuíno, mesmo quando assume uma condição de lição de História.

Mas nem tudo são rosas. O cinema de Lee Daniels tem algumas limitações estruturais. Falta-lhe algum engenho narrativo e a forma abonecada como os Presidentes desfilam mais ou menos caracterizados assemelha-se mais a um caderno de encargos. Uma coisa de máscaras, sem visível dimensão humana. Felizmente, privilegia-se a figura do mordomo, personagem incrível que exala dignidade. Tanta dignidade cola-se ao ADN do filme. Uma dignidade que se encaixa como um teatro de poses, onde as paredes da Casa Branca funcionam como um palco assumidamente não realista. Por isso, no plano inicial (que lá para o fim é explicado), não há a tentação de mostrar tudo. Talvez «O Mordomo» venha a ser mais falado pelos seus valores simbólicos e pela presença (bem correta, por sinal) de Oprah, mas importa realçar a sua firme crença numa herança de cinema clássico americano. E a música de Rodrigo Leão cai que nem ginjas nesse efeito. No final, a lágrima no canto do olho não parece nada desonesta.

Título original: Lee Daniel’s The Butler Realização: Lee Daniels Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, Lenny Kravitz, John Cusack, Jane Fonda, Vanessa Redgrave, David Oyelowo Duração: 132 min EUA, 2013

[Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº12, Setembro 2013]