O Mentor

O MENTOR

O MENTOR

«O Mentor» – Leão de Prata em Veneza em 2012 – abre com uma sequência em que o sol, não chega para esconjurar a escuridão em que estão mergulhados os seus figurantes. São soldados norte-americanos e, numa praia algures, entre mergulhos e em plena alucinação alcoólica constroem o seu “castelo de areia”: um corpo de mulher, seios e sexo destacado. Freddie Quell consuma o estupro. Ensaia uma demanda de vida e calor num corpo inerte? Continua a representar o papel que lhe foi entregue – sobrevive. Nele o que há é morte e danação mascarados com uma alegria louca.

Freddie Quell é Joaquim Phoenix, num papel para nomeação a óscar de melhor actor – como já lhe garantiu a Taça Volpi, repartida com Phillip Seymour Hoffman na edição do festival de Veneza deste ano. Freddie Quell é Joaquim Phoenix num dos grandes papéis que o cinema ofereceu a um actor nos últimos anos. Joaquim Phoenix iniciado em personagens trágicas, perdidas, como aquelas a que Marlon Brando foi dando alma enquanto consumia a sua no processo. Já lá vamos.

A sequência de abertura de «O Mentor» – em que o sol e a descontracção deveriam ser dominantes – é um “negativo” da história filmada por Paul Thomas Anderson e “animada” soberbamente por Phoenix e pelo extraordinário Phillip Seymour Hoffman [cúmplice habitual de Thomas Anderson] após o desfiar do genérico inicial.

A saber. Quell é um veterano da II Guerra Mundial com um problema grave de alcoolismo potenciado pelo stress pós-traumático – embora, como será mostrado na grande sequência do filme, a vida passada de Quell e uma “herança” familiar pesada tenham espoletado a desordem e violência do seu comportamento. Quando regressa aos EUA mantém-se inadptado. Um encontro com Lancaster Dodd, líder do movimento denominado “a Causa”, sugere uma hipótese de redenção. Essa possibilidade de redenção é, porém, mais sugerida pela empatia e entendimento entre Dodd e Quell do que pela “Causa” enquanto movimento.

A primeira parte do filme – sobre a vida de Quell após o final da guerra e o encontro com Dodd – “encerra” com uma sequência de antologia. Trata-se da sequência de rememoração, por Quell, da sua vida passada, anterior à guerra. A intensidade dos desempenhos e o entendimento total entre Phoenix e Hoffman evocam outra sequência antológica da história do cinema – também ela alimentada pela tensão e pela ambiguidade dos sentimentos; também ela ancorada numa expectativa de redenção. Refiro-me à sequência do táxi entre Marlon Brando e Rod Steiger em «Há lodo no cais».

O Mentor

Neste ponto, é o momento de falar de uma proposta nada óbvia encerrada pelo novo filme de Anderson. O realizador actualiza – com distinção – a utilização do “método”, via de representação que, a partir dos 50 do século XX, se impôs através do Actors Studio então dirigido por Lee Strasberg [inspirado pelo trabalho de Stanislavski no teatro e após a visita deste aos EUA]. Fá-lo não como um fim em si mas porque faz parte do processo de reconstituição, alternativa, de uma época que não é, como o revisionismo histórico tantas vezes quis propôr, em versão colorida, só a do “sonho americano”. Enquanto a “sociedade de consumo” se tornava o modelo dominante de organização social num mundo de nações unidas e em pleno “plano marshall”, a América submetia a choques eléctricos os filhos que se desviavam do padrão de comportamento “aceitável”. No pós-guerra, Edward Bernays – o sobrinho de Freud inventor das relações públicas que foi um dos homens mais influentes do século – assumia, não podia continuar a usar-se a palavra propaganda e era pago pelo governos dos EUA para ensinar aos americanos como e o que pensar e a colonizar, através do capitalismo, os países vizinhos da América do Sul. A utilização da psicanálise como uma arma do estado – que Anderson recria ainda na primeira parte do seu filme quando reconstitui o regresso de Quell – faz parte do subtexto do filme. Mas a abordagem do surgimento de seitas e cultos não poderia ficar de fora. Escreveu-se, demasiado, que a história do surgimento da Cientologia inspirou Anderson para a criação de «O Mentor». A segunda parte do filme é sobre a relação de Quell e Dodd enquadrada pela “a Causa”.

“A Causa” formata tudo. Elimina o espaço relacional entre indivíduos. Elimina a possibilidade de relações ao sabor do imprevisto. Peggy (Amy Adams), a mulher de Dodd, assegura isso mesmo. É ela o pilar racional de “A Causa”. É ela que faz respeitar o “guião” e evita maior exposição pública quando ese culto com pretensões filosóficas perde adeptos e soma queixas judiciais. No filme é ela, aliás, quem assume a máxima “Nunca defender. Atacar sempre”, do pai da Igreja da Cientologia, L Ron Hubbard. “A Causa” é pretexto para Anderson filmar a impossibilidade de redenção de Quell por essa via, fechada, após o registo da existência desta, sem descambar para a sátira embora não evitando a aproximação à comédia. Sempre que surge ocasião, Quell faz tábua rasa do processo de análise e da aprendizagem de domínio sobre as pulsões, animalescas. “A Causa” é sobretudo pretexto para compôr uma personalidade, a de Dodd, que permite enquadrar uma relação e aprofundar a exploração de Anderson sobre o papel que os cultos desempenharam na história da América, no caso concreto no pós- guerra.

O Mentor

Dezasseis anos após «Hamlet», de Kenneth Branagh, «O Mentor» é a primeira obra a explorar as possibilidades do formato 65mm e retoma a colaboração musical com Jonny Greenwood (o guitarrista dos Radiohead), responsável pela banda sonora do filme anterior de Anderson, «There will be blood».

«O Mentor» é animado por dois extraordinários actores dirigidos pelo único realizador da sua geração herdeiro das qualidades do período de ouro do cinema norte-americano. Está nos antípodas do cinema de efeitos obcecado em prender a atenção do espectador e em dirigir-lhe as ideias. Anderson compôs uma obra perfeita visualmente cujo subtexto é deixado ao entendimento do espectador. Só não é perfeita porque a abordagem de “a Causa” – ainda que feita para sustentar a relação entre Quell e Dodd – é demasiado longa pelo menos para uma audiência não americana e desligada do fascínio que certos cultos exercem nos EUA.

O filme encerra com uma sequência em que Quell parece ter internalizado os procedimentos ensinados pelo “mestre”. Ter-se-á Quell “curado” através da anulação do livre arbítrio e pela repetição da liturgia de “a Causa”? Ou esta sequência é a suprema ironia de Anderson, que tornou Quell oficiante num processo de consciencialização activado pelo cineasta nas suas obras e em que os dramas individuais se confrontam, de modo dilacerado, com a existência forjada de uma identidade colectiva imaginada que se sustenta pelo esmagamento das especificidades da identidade de cada um? Maria do Carmo Piçarra

Título original: The Master Realização: Paul Thomas Anderson Elenco: Joaquim Phoenix, Phillip Seymour Hoffman, Amy Adams, Laura Dern. Duração: 143 min EUA, 2012

[Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº4, Dezembro 2012]