O IRLANDÊS

O IRLANDÊS

Os remorsos são uma pequeníssima parte do longo relato autobiográfico de Frank “The Irishman” Sheeran (Robert de Niro). Na sua voz e no seu semblante também não se vislumbram orgulho ou sequer emoção, e, no entanto, Frank conseguiu um feito que nenhum outro dos seus comparsas alcançou: está vivo. Encontramo-lo no final de um travelling pelos corredores de uma casa de repouso, sentado numa cadeira de rodas, cabelo branco e ralo, olhar vazio. Conta-nos a nós, espectadores, aquilo que prefere não confessar nem ao padre.

Na verdade, não há nada para confessar. É a vida. Depois de voltar da guerra, Frank trabalhou como motorista na distribuição de carnes, até que um dia, um acaso fá-lo cruzar-se com Russell Bufalino (Joe Pesci), um encontro que lhe viria a mudar o curso da vida. A sua natureza discreta e a obediência passiva fazem com que rapidamente se torne no homem de confiança de Bufalino e depois de Jimmy Hoffa (Al Pacino), personagens verídicas ligadas ao mundo do crime organizado na América dos anos 50 e 60 do século passado. Entre flashbacks, passam-se várias décadas, e o que o CGI mais ou menos consegue fazer por rejuvenescer as feições dos actores mostra-se inútil no que toca à linguagem corporal. Apesar de nos distrair um pouco da história, esta contradição acaba por ser um aspecto interessante do filme porque chama a atenção para aquilo que é no fundo o coração deste projecto: uma reflecção sobre a passagem do tempo, o Inverno da vida.

Aos 77 anos, Scorsese volta a juntar o gangue: Robert de Niro, Joe Pesci e Harvey Keitel, a geração de ouro que nos deu «Os Cavaleiros do Asfalto» (1973), «Tudo Bons Rapazes» (1990) e «Casino» (1995), marcos não só de um género mas de toda a história do cinema. O reencontro destes grandes actores – a quem se junta também Al Pacino naquela que é a sua primeira colaboração com Scorsese –, tem um sabor agridoce. É inevitável misturar a ficção com a realidade e isso também ajuda a tornar o filme especial, um pouco como uma despedida. É, aliás, Scorsese quem põe as coisas nestes termos quando admite que «O Irlandês» poderá muito bem ser o seu último filme.

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