O FARAÓ NEGRO, O SELVAGEM E A PRINCESA

O FARAÓ NEGRO, O SELVAGEM E A PRINCESA

Com cerca de 20 filmes e algumas séries num currículo inaugurado em 1976, Michel Ocelot fez da animação um parque temático artesanal da antropologia. A partir da sua curta de formação como cineasta autoral («Les 3 Inventeurs», de 1980), idealizada após uma passagem pela televisão, de 1976 a 1979, ele apostou na etnografia como argamassa de uma obra que namorada com a fantasia e com a geografia. Muito similar às «1001 Noites», de Pier Paolo Pasolini, a sua longa animada mais recente, «O Faraó Negro, o Selvagem e a Princesa», é uma espécie de triagem de oralidades. Épocas distintas – o Egito da construção das pirâmides, a Idade Média e o século XVIII – servem de instância de pesquisa para o seu olhar curioso.

As escolhas temáticas de Ocelot partem da dignidade que uma cultura distinta da francesa requer… e merece. Por isso, sua filmografia, com destaque para a franquia “Kirikou”, observa o mundo como uma grande loja de doces. O seu desejo é se deliciar de cada guloseima, desfrutando do sabor de cada uma, numa degustação que não tem hierarquia. A Terra é muito vasta e diversa. É preciso saber aproveitar essa multiplicidade. Mas é preciso que esse degustar seja orgânico e mútuo. Precisa ser dele, o realizador, e precisa ser da plateia, tratando especificidades culturais com respeito. O caminho inicial para isso é uma direção de arte que converse com uma farta pesquisa pictórica do passado.

Assim como os seus anteriores exercícios autorais, «O Faraó Negro, o Selvagem e a Princesa» é visualmente exuberante em sua trança de contos do Sudão, da Turquia e de uma Eurásia que se caracterizava pelos processos de unificação. Os seus personagens são nobres assolados pelas restrições dos seus pais, os seus suseranos, as suas mães, as suas governantes. A partir dessas figuras, com o seu modo artesanal de animar, avesso a facilidades digitais, Ocelot defende que existe uma liturgia estética, no mundo real, sob perigo de ser encerrada. Uma missa de uma religião poética, que consiste em se arrumar para ir a uma sala de exibição, dar o dinheiro do ingresso à bilheteira, sentar numa plateia, com um saco de pipocas na mão para imergir na experiência da tela grande. O seu «O Faraó Negro, o Selvagem e a Princesa» é uma prece pela manutenção desse sacramento.

Título original: Le pharaon, le sauvage et la princeses Realização: Michel Ocelot Elenco: Serge Bagdassarian, Thissa d’Avila Bensalah, Olivier Claverie Duração: 83 min. França/Bélgica, 2022