O DIA SEGUINTE

O DIA SEGUINTE

Curioso título, quanto mais não seja por uma memória muito particular que relança. De facto, foi em 1983 que surgiu a realização de Nicholas Meyer, «O Dia Seguinte», encenando a tragédia de uma pequena cidade do Kansas na sequência de uma terrível explosão nuclear. Em boa verdade, nem se tratava de um objecto de cinema, mas sim de um telefilme (muito convencional) que, tendo em conta os ecos perturbantes da sua temática, acabou por ter distribuição comercial nas salas de muitos países, incluindo Portugal.

Num contraste de inevitável ironia, o filme do sul-coreano Hong Sang-soo faz o retrato de uma personagem enredada nas rotinas do seu quotidiano, acabando por ser surpreendido pelos efeitos perversos de uma aventura amorosa que protagonizou. Em termos esquemáticos, e evitando revelar as peripécias essenciais do argumento, digamos que esta é a história de Kim Bongwan (Hae-hyo Kwon), proprietário de uma pequena editora literária, subitamente confrontado com o mais inesperado dos triângulos sentimentais: ele, a mulher e a sua nova empregada…

Já sabíamos que Hong Sang-soo gosta de explorar o modo como as histórias amorosas podem evoluir como um jogo de espelhos com tanto de imprevisível como revelador — assim acontecia, por exemplo, em «Sítio Certo, História Errada» (2015), filme em que a narrativa se dividia mesmo em dois capítulos simétricos que questionavam a própria nitidez das emoções expostas. Agora, em «O Dia Seguinte», talvez mais do que em qualquer dos seus trabalhos anteriores (lembremos «Noite e Dia», 2008), Hong Sang-soo aposta em apresentar as relações humanas como dispositivos (quase) teatrais em que o valor, e também a ambiguidade, das palavras desempenha um fundamental papel.

Quando «O Dia Seguinte» foi apresentado na secção competitiva do Festival de Cannes, houve quem evocasse o paralelismo possível com o francês Eric Rohmer (1920-2010) e, em especial, a sua série de «Seis Contos Morais» em que se inclui a obra-prima «A Minha Noite em Casa de Maud» (1969). Não sabemos de Hong Sang-soo se reconhece em tal paralelismo. O certo é que em ambos os casos deparamos com essa crença dúplice nas virtudes da fala: as palavras podem ser instrumentos de uma verdade radical, mas também máscaras que transfiguram as relações humanas.

João Lopes

Título Original: Geu-hu Realização: Hong Sang-soo Elenco: Hae-hyo Kwon, Yunhee Cho, Ki Joabang, Min-hee Kim, Sae-byeok Kim. 92 min. Coreia do Sul, 2017

[Crítica publicada na revista Metropolis nº55, Janeiro 2018]

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