O evidente contágio do cinema romeno e do seu estilo vincadamente austero e predatório em relação ao protagonista no cinema de André Marques serve como um “cartão de visita” para este seu salto no território das longas-metragens. Nesse sentido, usufruindo do tom realista e de algumas piscadelas ao miserabilismo, encontramos Rogério (o coreógrafo e bailarino Vítor Roriz, uma revelação), homem desempregado, à deriva da sua existência e vergado pelo álcool como solução aos seus silenciosos desesperos. Não é por menos que “Quero é Viver”, do grupo Humanos, canção póstuma de António Variações, assume-se como jingle de partida para uma versão dardeneada de «Lost Weekend», ou «Farrapo Humano» (título tão indicado!) como se diz em bom português.

Porém, há uma guinada que resgata Rogério do tédio do seu desprezo e passividade, um elemento que o faz tomar consciência da sua própria condição, incitando nele uma revolta coronária. Em «O Bêbado», há um sentimento de proximidade para com as situações envolvidas, devido ao seu realismo formalizado e à crueza com que se instala uma estética (curiosamente a imagem torna-se cada vez mais enevoada sempre que a personagem bebe, uma impressão, um acompanhamento ao seu estado de embriaguez). Contudo, é na forma como André Marques pontua este argumento com pequenos mas credíveis detalhes, sem nunca desvirtuar o país (e o tipo de país) em que vive, e realçando a regra de ouro do cinema, mostrar em vez de contar, ou melhor, sugerir antes de exibir, que somos totalmente convencidos.

Portanto, Rogério é o nosso «Taxi Driver», um homem que, sem nada a ganhar e sem nada a perder, decide cometer um último ato de dignidade para com a sua própria figura, longe do dualismo moral que julgamos precipitadamente que o filme cederá. Há um último brinde, um copo pronto a ser “despejado” goela abaixo. Que se lixe a sua moral! «O Bêbado» é um ensinamento de como uma produção portuguesa pode ser cinema de qualidade com vertente comercial, sem nunca subjugar-se à linguagem televisiva. À primeira “bala”, estamos de acordo de que André Marques é um nome a seguir atentamente em próximas “aventuras”. Filme digno.

Título original: O Bêbado Realização: André Marques Elenco: Vítor Roriz, Ina Esanu, Teresa Madruga Duração: 121 min. Portugal, 2023

[texto originalmente publicado a 25 de Junho, 2024]

O Bêbado | Estreia dia 30 de maio, sexta-feira, 18h25, em exclusivo no TVCine Edition e no TVCine+

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