O ASTRONAUTA

O ASTRONAUTA

A década de 1990 chegava aos seus passos finais quando a milionária facturação comercial de um filme de humor – quase B – chamado «O ‘Águas’» (1998) fez o nova-iorquino do Brooklyn Adam Richard Sandler se tornar o comediante de maior rentabilidade nas bilheteiras dos EUA – e de boa parte do mundo. Até «Jack and Jill» (2011), ele foi sinónimo de sala cheia nos multiplexes. Quando a sua rentabilidade derrapou, ele mudou de terreno e migrou para o streaming. Encontrou na Netflix um mar para desovar a sua forma autoralíssima de fazer rir, na persona do homem comum (de ascendência judaica) que explode quando é sufocado por pressões afetivas. Ele inverte a estrutura cómica clássica do patético fraco e se mostra um Diabo da Tasmânia em formas humanas, estourando em insegurança ou raiva. Uma vez ou outra ele leva esse desenho para o drama. Em « Embriagado de Amor» (2002), ele vai à seara romântica, na pele de um apaixonado explosivo, numa interpretação que ajudou Paul Thomas Anderson a consagrar-se como um dos maiores diretores de atores de nosso tempo. Até arrecadou o prémio de Melhor Realizador em Cannes. Depois vieram «Em Nome da Amizade» (2007) e «Homens, Mulheres e Crianças» (2014), numa linha melodramática, que deu lugar ao thriller em «Diamante Bruto». Segundo a Cahiers du Cinéma, foi um dos dez melhores filmes de 2019. Pode se passar um pódio igual com «O Astronauta», que abriu sua carreira na Berlinale, em sessão fora de concurso. É um sci-fi checo-americano.

A sua fonte de inspiração é o romance “Spaceman of Bohemia”, de Jaroslav Kalfar. A direção é do sueco Johan Renck (da minissérie “Chernobyl”) que usa a palavra como sua espinha dorsal, mas provoca Sandler, a cada segundo, para extrair de seu olhar angústias e doçuras, de um jeito que o ator nunca fez.

Plasticamente refinado pela fotografia de Jakob Ihre e pela música de Max Richter, o doído «O Astronauta» põe os clichés de Sandler de lado e expande as suas potências de atuação para dar o ónus vívido à construção tridimensional do cosmonauta Jakub Procházka. Ele vem de uma família de criadores de porcos da República Tcheca, e virou um herói para a Ciência no seu país. A meio de uma missão nas estrelas para estudar uma nuvem radioativa, ele entra em parafuso pela culpa que sente de ter deixado a sua mulher, Lenka (Carey Mulligan), na Terra. À sombra do isolamento, numa exasperante sensação de desterro, ele passa a ver uma criatura na sua nave, uma aranha gigante (com a voz de Paul Dano), que funciona como o Grilo Falante de Pinóquio: o bicho dá a Jakub a medida moral de suas escolhas.

Título original: Spaceman Realização: Johan Renck Elenco: Adam Sandler, Carey Mulligan, Paul Dano, Lena Olin, Isabella Rossellini, Kunal Nayyar Duração: 107 min. República Checa/EUA, 2024