Ninfomaníaca

NINFOMANÍACA

NINFOMANÍACA

Não senti nada… É com esta mesma triste constatação que termina a primeira parte de «Ninfomaníaca», um filme dividido em dois volumes, com cerca de 2 horas cada – a versão sem cortes de Lars von Trier tem mais 1 hora e acaba de ser apresentada, ao que parece sem surpresas, no Festival de Berlim. Sendo que a busca do prazer é um aspecto essencial da compulsão que motiva uma ninfomaníaca a procurar múltiplas relações sexuais e múltiplos parceiros, a perda de sensibilidade pode ser um evento devastador, capaz de acordar instintos violentos e levar a escolhas desesperadas.

Funcionando como o eco desse percurso louco, a cena inicial leva-nos de câmara na mão, por entre um labirinto de ruelas indistintas, até encontrar Joe (Charlotte Gainsbourg) caída no chão de um beco sujo, visivelmente maltratada e imóvel debaixo da chuva. É a bondade de um estranho, Seligman (Stellan Skarsgård), que a arranca à apatia e a faz aceitar acompanhá-lo a casa onde, depois de recomposta, ela contará a sua história.

E é assim que seguimos Joe nas suas aventuras sexuais desde a infância, passando pela adolescência, até à fase adulta (interpretações de Maja Arsovic, Stacy Martin e Charlotte Gainsbourg, respectivamente). Ancorada no pequeno quarto, a conversa entre os dois foge sempre para fora, seja através de flashbacks ou de outros intróitos de natureza diversa. É interessante observar o modo como objectos vulgares (um garfo, um leitor de cassetes, um quadro ou mesmo uma mancha na parede), que à partida passariam despercebidos, se tornam centrais e servem a Joe de gatilho na progressão da história. Mas parece ter faltado a Lars suficiente confiança na força do diálogo e das evocações, sendo-lhe preciso mostrar tudo.

Uma montagem feita por associação directa, mais ou menos aleatória, didáctica, subjectiva ou cómica que, se supõe, pretende ser lúdica, resulta apenas patética. É assim que se entende e resolve a clausura do quarto, do diálogo entre Joe e Seligman em que assenta a estrutura do filme, através de uma estética idêntica à dos videoclips caseiros, que às vezes temos o azar de encontrar no youtube. Fala-se de pesca e vemos um curto plano de uma cana de pesca. Fala-se de medicina e vemos uma consulta de ginecologia. O filme até nos ensina a contar, pelo menos até 8. O que faz sentido, uma vez que a maior parte do tempo «Ninfomaníaca» parece preso nos primeiros estádios do desenvolvimento infantil, entre o que Freud definiu como a fase anal e a fase fálica – repare-se no fascínio com as pilinhas (de todos os tamanhos e cores), o chichi e outras secreções.

É um filme infantil também porque se apresenta como um sintoma de uma espécie de birra, que justifica a instrumentalização das personagens para esclarecer velhas querelas pessoais. Por exemplo, a distinção que a dada altura Seligman faz de semita e sionista remete-nos evidentemente para a polémica conferência de imprensa em Cannes 2011, onde von Trier disse simpatizar com Hitler – facto que, como se sabe, levou o Festival a declará-lo persona non grata. A velha acusação de gozo na violência e humilhação das mulheres de que geralmente são alvo os seus filmes acha resposta na posição de quatro em que Joe, depois de amarrada, é ferozmente chicoteada por K (Jamie Bell). Mas o pior, diria eu, passa pelo uso despropositado de citações de outros filmes do realizador, de que são exemplo a cena em que Jerôme (Shia LaBeouf) incita Joe a procurar satisfação sexual na relação com outros homens (uma clara referência a «Ondas de Paixão» – 1996), ou a cena da criança que se dirige para a varanda, uma reencenação ao pormenor (recorrendo aos mesmos movimentos de câmara, a mesma música, etc.) da cena de «Anticristo» (2009). Felizmente as obras resistem e existem para lá dos seus autores. Resistirá também «Ninfomaníaca» a este ajuste de contas?

Não é fácil perceber o filme. Quando a própria protagonista se define enquanto portadora de uma vagina, e define, por sua vez, a sua vagina como uma porta automática, que se abre e fecha à passagem de estranhos, é pertinente perguntar qual o interesse de passar 4 ou 5 horas a olhar para uma porta automática. Conceptualmente até poderia ser interessante, mas, hélas, um bom tema não chega para fazer um bom filme.

Se olharmos para o outro lado (Seligman funciona como um duplo de Joe), não creio que tenhamos mais sorte. Na sua prolixidade enciclopédica, Seligman não passa de uma personagem de papel, é mais uma função do que um sujeito capaz de pensamentos verdadeiramente complexos, como o prova o seu final idiota. Exímio a identificar nas descrições de Joe as mais variadas associações, como as figuras de Messalina ou da prostituta da Babilónia, estranhamente não se lembra nunca de Narciso. Mas é nesta figura mítica que se acha uma possível chave de leitura para Joe, e para o filme.

Narciso, como nos conta Ovídio, é alguém incapaz de amar. Ele só se escuta a si, só vê o seu próprio reflexo. A mesma natureza vaidosa e orgulhosa que fazem de Narciso e de Joe seres inacessíveis, incapazes de responder ao outro, resulta no medo da aproximação, da entrega a que somos obrigados quando somos tocados pelo seu amor. Mas, debaixo de uma capa de desafio e de deboche, está o medo de se deixar afectar pelo o que o outro é.

Num filme de 1981, «My Dinner with Andre», um filme absolutamente delicioso, este sim todo feito de diálogo à mesa, a certa altura, Andre (Gregory), que contracena com Wally (Wallace Shaw), fala justamente sobre a necessidade de nos deixarmos afectar por outro ser, de nos permitirmos reagir a ele se queremos ser humanos. Não existe amor, ou humanidade, onde há incapacidade de reconhecer o outro. É por isso que todas as relações de Joe estão votadas ao desastre, porque ela não está disposta a aceitar o risco de que são feitos os encontros. A incapacidade de Joe distinguir um sujeito do seu mero reflexo (de que a designação por letras é um indício) acaba ironicamente por a fazer desaparecer a ela. Enredada em complexos de culpa, frustração e desprezo por si mesma, no final, a nossa ninfomaníaca transforma-se ela própria num eco, num não sujeito. E o filme, apaixonado que está por este reflexo líquido que não sabe ainda ser o seu, afunda-se inevitavelmente com ele.

Título original: Nymphomaniac Realização: Lars von Trier Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf Duração: 123 min Dinamarca/Alemanha/França/Bélgica/Reino Unido, 2013

[Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº17, Fevereiro 2014]