Mustang – Deniz Gamze Ergüven em entrevista

Mustang – Deniz Gamze Ergüven em entrevista

Cineasta de origem turca a viver e trabalhar em França, Deniz Gamze Ergüven conseguiu com «Mustang» uma crónica sobre a condição feminina na Turquia com importantes ressonâncias universais — chegou mesmo à nomeação para o Óscar de melhor filme estrangeiro.

[Entrevista publicada na revista Metropolis nº 36 – Março 2016]

Para si, tratava-se de mostrar qual a condição feminina na Turquia ou, acima de tudo, lembrar aos europeus que nem tudo é como eles possam imaginar?
É verdade que todo o trabalho de «Mustang» nasceu do desejo de dar a ver como é a vida de uma mulher e, claro, como é a vida de uma mulher na Turquia. Interessava-me, em particular, esse filtro através do qual são habitualmente vistas as mulheres — é um filtro que tende a “sexualizar” tudo o que diz respeito às mulheres. É algo que, enfim, desenha limites muito estritos ao lugar das mulheres na sociedade.

Há uma frase sua em que disse que “quando se é mulher, é preciso coragem para viver na Turquia”…
Eu disse isso?

Foi transcrito como tal, pelo menos.
Mas não me parece familiar. Não creio que o tivesse dito dessa maneira.

Como teria dito, então?
Acontece que na discussão sobre o lugar das mulheres, hoje em dia, na Turquia, estão face a face dois opostos desejos de sociedade. Assim, temos um governo que se exprime com frequência sobre o que as mulheres devem ou não devem fazer, inclusive nas pequenas coisas da vida quotidiana; isso acaba por insuflar valores diferentes daqueles que estavam na origem da nossa República e que conferiram um lugar forte às mulheres turcas — por exemplo, tendo o direito de voto muito antes de outras, em particular nas sociedades ocidentais. As leis protegem os direitos das mulheres, mas há lugares em que isso está algo fragilizado e a voltar atrás, num recuo de muitos séculos.

E parece-lhe que o filme poderá abanar um pouco as consciências?
Sim, mas não é questão que se possa reduzir ao que o filme conta. Para além do âmbito da história, o filme tem ecoado em contextos cultural e socialmente muito diferentes, com as mulheres a reconhecerem uma experiência próxima da sua. Da forma mais humilde, sou levada a pensar que o filme pode abrir um pequeno espaço de discussão, até porque tenho uma fé absoluta na força do cinema. Sempre considerei o cinema como muito mais poderoso que qualquer outra linguagem, pelo impacto que pode ter nas formas de pensar ou até de organização das sociedades — um filme de hora e meia pode gerar uma pequena “revolução” na cabeça de muitas pessoas.

Como decorreu a rodagem na Turquia, em particular o trabalho com as cinco jovens actrizes?
Começou por ser, ao longo de nove meses, um processo de casting muito intenso. Até porque eu procurava qualidades muito específicas: capacidade de escuta, capacidade de projecção nos problemas das personagens, uma imaginário muito rico. Tratava-se de compor um corpo com cinco cabeças — era preciso que o espectador acreditasse que elas são cinco irmãs. Depois, a rodagem na Turquia foi, ao mesmo tempo, delicada e muito livre. Senti-me como quem segue um rio que está a descobrir, esperando sempre uma surpresa na viragem seguinte, encontrando uma zona muito tranquila ou uma cascata.

Sendo a sua primeira longa-metragem como realizadora, qual a sensação de estar entre as nomeações para o Óscar de melhor filme estrangeiro?
É como um sonho, uma honra absoluta. Além do mais, é algo que nos traz uma tribuna universal. Já o Festival de Cannes envolveu um poder incrível, gerando um fortíssimo eco universal. Estando em jogo temas tão importantes, fico encantada com a luz que se projecta sobre o nosso trabalho.

O filme envolve também ecos pessoais, em particular ligados à sua infância na Turquia.
Sem dúvida. Identifico-me com a irmã mais pequena, com duas gerações familiares repletas de mulheres. Há no filme situações que eu própria vivi, outras que observei à minha volta, outras ainda que foram documentadas para ser incluídas no argumento.

Pode dizer-se que Mustang é um hino à liberdade?
Sim, é um filme que diz que a liberdade é um valor primordial.

Que recepção está a ter o filme na Turquia?
Essa recepção já começou de forma muito polarizada: alguns críticos e jornalistas importantes apoiaram muito o filme, enquanto outras pessoas me atacaram, dizendo coisas muito agressivas, tentando destruir a minha credibilidade. Na verdade, nada disso me surpreende muito. Ao mesmo tempo, o meu adido de imprensa na Turquia também já me informou que há muitos espectadores que recebem o filme de forma muito sentida.

*«Mustang» está em exibição na HBO Portugal.

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