Monstra - Bob Cuspe

Monstra 21ª edição – Fernando Galrito em entrevista

Monstra 21ª edição – Fernando Galrito em entrevista

A 21ªedição da Monstra marca o regresso do maior festival de animação realizado em Portugal, tivemos o privilégio de conversar com Fernando Galrito, fundador e diretor, sobre o caminho trilhado desde a 1ªedição, no Teatro Taborda, no ano 2000, as histórias destas duas décadas de edições e as vicissitudes provocadas pela pandemia. A produção portuguesa de cinema de animação, a escolha da Bulgária como país em foco nesta edição, o tema de reflexão da edição 2022 – animação analógica/digital – e o papel formador de novos públicos do festival foram alguns dos assuntos abordados nesta entrevista. A Monstra decorre nos cinemas São Jorge e na Cinemateca Portuguesa – Museu do cinema entre os dias 16 e 27 de Março.

A Monstra chega à 21ªedição! Como foi este percurso desde a 1ªedição em 2000, no teatro Taborda, até agora – a uma semana de começar mais uma edição? Pode fazer-nos um pequeno balanço deste caminho?
Foi um caminho longo e cheio de muitas e boas histórias, na sua grande maioria. De muitos e bons encontros com muita gente boa, dado que o cinema de animação tem essa caraterística. As sensações das pessoas do cinema de animação são muito boas e de muito bom trato. Daí que estas 21 edições e 22 anos de história tenham sido muito interessantes…

E muito gratificante, também…
Exatamente e muito gratificante não só para nós próprios. O maior prazer como diretor do festival é ter não só o prazer, mas a vantagem não só de ver muitos filmes, mas também de ver o mundo e depois termos o prazer de escolher alguns filmes para partilhar no festival. É um aspeto dessa partilha e dessa troca que é outro dos aspetos interessantes que nos marcam ao longo destes 22 anos. E que nos enchem enquanto organizadores deste festival e ao mesmo tempo nos deixa encantados porque é um trabalho interessante.

E deixa frutos, também, não é?
Era aí que eu ia chegar. Para além das pessoas que nós encontramos e que se tornam nossas amigas é interessante encontrar hoje pessoas com 20, 30 ou 40 anos e que nos dizem: “Ah, eu cresci a ver a monstrinha! E o cinema de animação da monstrinha!”.” Depois, passei para a Monstra”. É muito interessante também ter essa vantagem.

Esse papel formador da Monstra…
… Exatamente. Aliás, a Monstrinha é um caso sério no festival dado que o ano passado nós ultrapassámos as 70000 crianças como espetadores. Também esse lado de criar novos públicos é muito importante no festival.

E é um fator estimulante o de partilhar novos caminhos, novas ideias através do festival
Nós dizemos com muita frequência que quanto mais conhecemos novas culturas, menos medo temos delas e ficamos mais amigo delas.

Exatamente. É o desconhecimento, a ignorância que causa essa desconfiança, esse medo que fala…
E quando desconhecemos temos medo. E quando conhecemos percebemos que os iranianos, os russos, os franceses, os belgas, os ucranianos são muito parecidos connosco e fazem coisas tão bonitas como nós fazemos. E são tão sensíveis como nós somos. Faz com que nos sintamos mais atraídos pelos outros e com mais vontade de fazer melhor e comunicar com eles.

O Voo das Mantas
O Voo das Mantas


Isso também dá força nestes momentos difíceis: estes últimos dois anos com a pandemia com o processo e a organização. Como é que foi nestes últimos tempos?
Foi difícil, mas também foi desafiante. Ou seja. Estávamos a oito dias de iniciar o festival, em março de 2020, quando fecha tudo em Lisboa pela primeira vez. E o que é que acontece? Como tínhamos o festival preparado – nós fomos o primeiro festival a fazer uma edição online, organizámos e recorremos a uma plataforma. E aí vamos nós! Nessa desgraça que foi não estarmos ao pé das pessoas, de não nos encontramos, tivemos outras vantagens que foi ter pessoas de outras paragens – da Nova Zelândia, da Áustria, de Timor-Leste- pessoas que normalmente não assistem ao nosso festival a verem os filmes apresentados por nós. Por causa disso, acabaram por ver os nossos filmes. Ou seja, chegamos a outros países, a outras pessoas que doutra forma não teríamos chegado.

Que interessante…
…Ou seja, que coisas más ajudam a revelar novas virtualidades. E a fazerem encontrar novas pessoas. E ao longo destes dois anos foi assim que trabalhámos. Embora achamos e continuamos a acreditar no cinema na sala escura como o meio privilegiado, com um grande écran e queremos manter esse encontro com as pessoas na sala de cinema e a vermos o festival dessa forma. Embora a relação com o online não tenha deixado de ser interessante e desafiante e reveladora. Este ano de 2022, vamos voltar à nossa data normal, ao encontro com os nossos espetadores e nossos amigos dos vários países que nos visitam, estar com eles e abraçá-los. De qualquer modo, mesmo durante a pandemia, em outubro de 2020, tivemos algumas sessões ao vivo. E no ano passado, em julho, voltámos a fazer o festival ao vivo. Foi muito engraçado e gratificante também, porque houve muitas pessoas que nos disseram: “Há dois anos que não vou a um festival!”

Pois havia uma grande vontade das pessoas de irem ao festival e partilhar experiências. Há pouco falávamos deste papel formador da Monstra. Já existem jovens e espetadores do Festival que tenham seguido o caminho de fazer cinema de animação?
Sim, sim. Felizmente temos alguns casos. Temos dois tipos de casos: o daqueles que começaram a fazer cinema de animação por causa da Monstra e o outro de pessoas que passaram a ser realizadores de cinema – aliás temos o nosso colega de programação e direção do festival, o Miguel Pires de Matos, que há dez anos atrás era um dos grandes arquitetos deste país e que por causa das nossas propostas (filmes ligados à arquitetura) começou a descobrir o cinema de animação – que já conhecia como espetador- e neste momento já está a trabalhar como realizador, após ter abandonado completamente a arquitetura. E há muitos casos assim: em França, houve muitos franceses que vieram fazer o atelier de introdução à gravura e tornaram-se realizadores de animação. Criaram o cinema ambulante! Até criaram o cinema mais pequeno do Mundo (passou pela Monstra). Ou seja, ao longo da nossa história temos influenciado em várias direções pessoas a encontrar um caminho que estava escondido e que as pessoas por causa do festival passaram a descobrir. E são pessoas que têm uma grande qualidade…

Trash
Trash


E que têm uma voz própria. Falando agora da produção nacional que ocupa sempre um lugar de destaque com a atribuição do prémio Vasco Granja. Apesar da pandemia como foi a “colheita” do cinema de animação em Portugal?
Foi boa, embora para o ano que vem é que vamos colher os resultados de alguns atrasos: para o ano vamos estrear duas longas-metragens que eram para estar prontas agora, mas atrasaram-se um pouco por causa das questões da pandemia. No caso da longa-metragem, “Os Demónios do meu Avô” já estamos a fazer uma exposição no museu da marioneta e vamos estrear quinze minutos do filme na abertura do festival. E o outro filme do José Miguel Ribeiro está um pouco atrasado, mas para o ano vamos tê-lo connosco. Para além de dois ou três filmes da Animanostra. Para o ano vamos ter uma amostra ainda maior e de grande qualidade. Este ano temos “O Homem do Lixo” que é um filme tocante e está muito próximo da história da vida da realizadora. Vamos ter um trabalho do Francisco Lança que agarra na história da cigarra e da formiga e mostra a cigarra não como aquela que não quer trabalhar, mas antes pelo contrário é a artista e é um olhar interessante sobre os artistas em si e sobre aqueles que fazem obras de arte na música, na pintura, no cinema…E vamos ter outros filmes em estreia: o do Pedro Serrazina com um novo videoclip que fez para o Rodrigo Leão.

O país em foco este ano é a Bulgária e como refere na vossa apresentação é uma cinematografia pouco divulgada em Portugal. Qual a importância e a singularidade do cinema de animação da Bulgária no panorama internacional?
É uma cinematografia que foi muito vanguardista, nos anos 1950 e 1960. Quem vier assistir às sessões vão poder ver os filmes dessas décadas e que estavam à frente do seu tempo e em relação ao cinema de animação que se fazia em muitos outros países. Depois é um cinema de animação que tem tido uma evolução muito grande, com um conjunto de escolas onde os jovens realizadores se podem formar e que tem uma nova geração de grandes autores com uma qualidade de animação muito grande e depois são pessoas que nós conhecemos menos aqui em Portugal.

E esse olhar distinto é enriquecedor para o público português?
Completamente. São cinematografias menos conhecidas, de culturas menos conhecidas, mas quando começamos a olhá-las percebemos que existem elementos de contato. Por exemplo têm os caretos com os chocalhos como nós temos em Portugal. A cultura búlgara tem um conjunto de lendas que muitas delas tocam as nossas próprias lendas. Apesar da distância, de nós estarmos no sul da europa e eles no Leste, há aqui muitos pontos de contato. Depois o povo é muito parecido connosco, com uma facilidade de contato e de proximidade e uma alegria. A prova disso é que o Anri Koulev, que é um dos grandes nomes da arte, do cinema, e aceitou pela primeira vez fazer a apresentação pública do seu filme fora do seu país. No conjunto da sua vasta obra, fez mais de 70 filmes ao longo da sua carreira, é a primeira vez que ele estreia fora da Bulgária. Vai ser exibido no dia 19 de março e é um filme muito bonito, muito bem feito e com uma história que nos toca a todos.

O tema da Monstra deste ano é animação analógica/digital: “entre a imagem desenhada ou esculpida e as imagens criadas por meios digitais. Quais as grandes diferenças entre uma e outra e como se complementam?
É uma questão importante. Ao longo da história, sempre que aparece uma nova tecnologia, quem tem as velhas tecnologias fica com medo que elas vão desaparecer. Ou seja, quando aparece a fotografia, vai desaparecer a pintura; quando aparece o cinema, desaparece o teatro…E nada disso aconteceu! E o que é engraçado neste diálogo que vamos propor entre especialistas e espetadores é isto mesmo: as formas mais antigas não acabam –temos uma exposição, estreamos um filme da Joana Queen, que é uma desenhadora fabulosa e continua a fazer os filmes desenhados sobre papel, como se fazia no início do século XX – e depois existem outras pessoas que só desenham com as novas tecnologias, desenham e esculpem diretamente no computador. E aquilo que é ainda mais importante é começarmos a ver os vários autores a misturar as várias tecnologias, as mais antigas e as novas.

A combiná-las…
… Sim. A optar por situações mistas e é um pouco essa reflexão que queremos fazer com esta proposta. Seguindo aquela frase: “nada acaba, tudo se vai transformando”. Mas esta transformação não é redutora, antes pelo contrário, é enriquecedora das tecnologias tradicionais, mais analógicas ou das tecnologias mais digitais, mais recentes. Por isso é muito importante encontrar estúdios onde se possam combinar as duas tecnologias. E a opção escolhida seja a que melhor exprime a vontade do artista. A relação entre aquilo que as novas tecnologias propõem e aquilo que as mais antigas lhes deixaram é um encontro interessante.

E é um diálogo criativo…
…Exatamente. É um diálogo que nos leva a pensar que o mais importante é a criatividade, é aquilo que nós queremos dizer, independentemente da tecnologia que utilizamos.

To Put It Mildly


Uma última pergunta: a dimensão internacional da monstra. É um fato evidente e foi consolidado ao longo dos anos. Existem muitos realizadores a quererem competir no festival e a estarem presentes nos vários “palcos” do festival e existir essa permuta, esse contato com o público português, com os realizadores portugueses. Com o alívio das medidas de restrição esta vai ser uma nova oportunidade para que isso aconteça, novamente, este ano, para animar as sessões desta 21ªedição…
É verdade! Sim, vamos ter muitos realizadores das várias gerações. Vamos ter realizadores da Bulgária da casa dos 70 anos. Vão estar aqui, de mãos dadas com jovens realizadores na casa dos 20, 30 anos. Num diálogo de gerações. Todos querem vir ao festival e existe uma pressão muito grande para virem. Felizmente este ano voltamos a encher a casa. Com muitos convidados: são mais de 200 convidados! De mais de 50 países! E é interessante voltar a receber as pessoas e sentir o seu entusiasmo em querer regressar às salas de cinema.

Para vocês, deve ser uma sensação fantástica ter tantos realizadores a dialogarem, a conviverem, a falar não apenas de cinema de animação, mas de tudo um pouco…
Claro! Temos um realizador o Raymond Kruman que conheceu a sua namorada e atual companheira aqui, nas salas da Monstra, e este ano voltam juntos ao festival! A Monstra é não só um espaço de encontros no âmbito do cinema de animação, mas também um espaço de convivência e de vida. Os festivais são espaços de vida! E nele tiveram lugar encontros ao nível artístico, mas também interpessoal entre pessoas que se conhecem, que se tornam próximas e depois se convidam para ir a outros sítios. Por exemplo, um canadiano que este ano não pode vir aqui encontrou e conheceu aqui os Dead Combo e convidou-os a fazer a música num filme dele. Temos a Joanne Katz que encontrou aqui muitos amigos e decidiu fazer com eles um filme em que cada um deles tinha um minuto para contribuir para um filme, feito aqui na Monstra. É um filme que nasce da Monstra! Isso é muito gratificante.

É desses pequenos grandes momentos que se faz a história deste percurso do festival e que vos dão força e alegria…
São esses momentos que fazem com que nós queiramos continuar!