Talvez o mais contido de todos os atores de grande porte nos EUA, um actor capaz de racionalizar gestos simples, como coçar a cabeça ou abrir uma porta, Don Cheadle se liberta do seu arsenal cartesiano na condição de realizador, transformando «Miles Ahead» em algo anticerebral, numa experimentação de tempos e de planos de realidade.

A decisão de reconstituir a vida do trompetista Miles Davis (1926-1991), um mito do jazz, não se dá a partir de uma estrutura de reminiscência totalizante, no qual toda a sua vida é passada em revista, nos moldes de uma cinebiografia padrão. Em «Miles Ahead» optou-se por um recorte metonímico – e idealizado – no qual factos são meros detalhes. Não se trata de um filme sobre Miles mas sim um filme com Miles, a partir do qual o realizador (também na condição de protagonista) presta não apenas um tributo ao jazzista, mas à tradição da blaxploitation como uma amplificação de géneros, com base na negritude.

Don Cheadle construiu a trama com base num dos períodos mais controversos da carreira do instrumentista: uma fase da década de 1970 na qual ele exilou-se dos palcos, compondo sem gravar, sob os efeitos de montanhas de cocaína. A chegada de um suposto jornalista (Ewan McGregor) mexe com a sua inércia, engatando-o num torvelinho de perseguições típico de thrillers de gangsters de Nova Hollywood, suado, sujo e sensual.

Embalado pela música do começo ao fim, com direito a uma participação do pianista Herbie Hancock a tocar com o próprio Don Cheadle ao trompete, «Miles Ahead» usa as suas melodias como uma espécie de tapeçaria do Tempo. A partir dela entendemos as fases do jazz e quanto elas espelham uma transformação social da música – sobretudo da música negra – com base nas transformações trazidas pelas lutas raciais. A rítmica do sopro cria uma tensão crescente, bem alinhada ao filão policial. Há uma intriga de predestinação para o “herói torto” conforme a longa-metragem se abre para os perigos em que o jazzista se envolve depois de uma fita com algumas gravações inéditas é surripiada do seu apartamento. A confusão começa quando ele recebe a visita do (quase) repórter da revista Rolling Stones Dave Brill (McGregor) requisitando uma entrevista. Na conversa com ele e na luta para reaver a gravação com os seus temas originais, ele acaba por se lembrar da sua relação com a dançarina Frances Taylor com quem foi casado de 1958 a 68. O papel ficou com a atriz Emayatzy Corinealdi, elogiada na Festival de Cinema de Berlim pelo seu desempenho e a sua beleza. Nessas idas e vindas no tempo, Don Cheadle retratou Miles Davis com uma caracterização mais polida e uma postura mais elegante.

Título original: Miles Ahead Realização: Don Cheadle Elenco: Don Cheadle, Emayatzy Corinealdi, Ewan McGregor, Michael Stuhlbarg, LaKeith Stanfield Duração: 100 min. EUA, 2015

[Texto originalmente publicado na Revista Metropolis nº40, Junho 2016]

https://www.youtube.com/watch?v=wqq63ZJ5q3w
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