MILAGRE

MILAGRE

Segundo numa trilogia que Bogdan George Apetri centra nas imediações de uma pequena cidade Romena, «Milagre» segue o percurso de uma noviça, Cristina (Ioana Bugarin), que sai às escondidas do convento para ir a uma consulta no hospital. Enredada em mistério, esta viagem terá momentos de humor e de violência bruta, completo desespero e transcendência. Tudo isto é suportado por excelentes interpretações, não só da actriz no papel principal, mas de todo o elenco. A impressão de realismo nos pequenos detalhes, trocas de olhares, falas, silêncios e gestos, traduz-se numa empatia natural que mais tarde nos sairá cara.

O embate entre a religiosidade e uma visão secular da vida tem um lugar central neste filme onde o enredo se vai transformando para dar lugar a uma espécie de policial. Marius (Emanuel Parvu), o detective que tomará conta da segunda parte do filme, é, sem dúvida, o crítico mais severo da religião. A dada altura ele diz a uma freira que o seu depoimento não é como uma confissão, em que se diz só o que se quer e não toda a verdade. Mas ele próprio parece ter muitas coisas a esconder e o seu entendimento da verdade é, no mínimo, bastante “flexível”. O frenesim que, a princípio, podemos confundir com (excesso de) zelo vai acabar por revelar outras motivações.

Este jogo de escondidas, em que o espectador, tal como um detective, vai também descobrindo pistas e ligações, é dos aspectos mais bem conseguidos do filme. Pontuado por músicas antigas de estrelas já desaparecidas, como Mihaela Runceanu (brutalmente assassinada em 1989, aos 34 anos), o filme vive mergulhado numa nostalgia rasa, numa inquietude sem causa própria que se espalha como um vírus. O final, inesperado, “miraculoso”, não oferece, contudo, um escape satisfatório. Pelo contrário, a sensação com que ficamos é a de que, neste universo, só alguns sofrem verdadeiramente as consequências das suas acções. O que, para milagre, parece poucochinho.

Título Original: Miracol Realização: Bogdan George Apetri Elenco: Ioana Bugarin, Emanuel Parvu, Cezar Antal Duração: 118 min. Roménia, 2021

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº103, Fevereiro 2024]