Miguel Gomes vence Prémio de Melhor Realizador em Cannes

Miguel Gomes vence Prémio de Melhor Realizador em Cannes

Miguel Gomes foi distinguido com o prémio de melhor realizador no Festival de Cannes, com o filme «Grand Tour». Foi o primeiro filme português a concorrer à Palma de Ouro em 18 anos. É um prémio histórico para o cinema português.

O prémio de Melhor Realizador do Festival de Cannes em 2024 foi apresentado pelo distinto realizador germânico Wim Wenders, ele entregou o galardão a Miguel Gomes. O realizador português começou por dizer “que por vezes ele tem sorte” e agradeceu ao Festival de Cannes, em especial a Thierry Frémaux (Director) e a Christian Jeune (Adjunta do Director-Geral) e ao Júri. Num momento de grande partilha, segundo ele “por se sentir só” naquele momento, pediu uma “stage invasion” ao convidar os actores principais (Crista Alfaiate e Gonçalo Waddington), a produtora (Filipa Reis) e a argumentista (e esposa de Miguel Gomes, Maureen Fazendeiro) a subirem ao palco. Miguel Gomes acrescentou que “o director deve dirigir mas ele precisa de muita ajuda havendo muitas pessoas a dirigir imensas coisas [na produção de um filme]” em seguida agradeceu a todos que convidou até ao palco. Finalizou com uma palavra ao cinema português, relembrou que é raro haver um filme português na Competição Oficial [de Cannes] (e não ia comentar sobre isso). Miguel Gomes tinha de agradecer ao cinema português, dizendo “eu sei de onde estou a vir” e assinalou ainda os grandes cineastas portugueses, “verdadeiros mestres” como Manoel de Oliveira e João César Monteiro que levaram Miguel Gomes a ter o desejo de fazer cinema, terminou dizendo que sentia que tinha essa dívida com o legado do cinema português.

O realizador de «Tabu» e «Mil e Uma Noites» participou pela primeira vez na competição principal de Cannes com «Grand Tou», um filme que oscila entre o passado e o presente, o documentário e a ficção.

Miguel Gomes escreveu nas notas de intenção de «Grand Tour»: “o filme começou a ganhar forma na véspera do meu casamento. Estava a ler um livro sobre viagens intitulado “The Gentleman in the Parlour”, de Somerset Maugham. Em duas páginas deste livro, Maugham descreve um encontro com um inglês residente na Birmânia. Este homem tinha fugido da sua noiva para partes distantes da Ásia, antes de ser apanhado e de embarcar num casamento feliz. No fundo, trata-se de uma história que joga com estereótipos universais. A teimosia das mulheres triunfava sobre a cobardia dos homens.”

“O voo do noivo seguiu a rota da grande viagem. No início do século XX, a grande digressão asiática, iniciada numa das principais cidades do Império Britânico na Índia e terminada no Extremo Oriente (China ou Japão), era de longe a viagem mais procurada. Muitos viajantes europeus fizeram a grande digressão e alguns deles escreveram livros sobre a sua experiência.”

“Adoptando a abordagem genérica do noivo em fuga que segue a rota do grand tour, decidimos não começar a escrever o guião antes de fazermos nós próprios o grand tour. Filmámos esta viagem em 2020, criando um arquivo de imagens e sons. Depois de ver essas imagens de arquivo, escrevemos o guião. Ao contrário do que normalmente acontece nos filmes que trabalham com imagens de arquivo, as imagens que utilizámos pertencem ao presente e não ao passado. O resto do filme, a rodagem narrativa em estúdio, que teve lugar em Lisboa e Roma, pertence ao passado. A ação decorre em 1918.”

“As duas personagens principais deste filme cobrem este vasto território por razões interligadas. Edward (Gonçalo Waddington) está a fugir da sua noiva Molly (Crista Alfaiate); e Molly está a perseguir o seu noivo Edward. Ele quer evitar, ou pelo menos adiar, o casamento, enquanto ela está determinada a casar-se com Edward. As muitas aventuras que Edward e Molly têm pelo caminho são, na sua essência, o filme. Mostram a interação virtual entre os dois, a sinfonia de um desencontro provocado por outros ao longo do caminho e pela eclosão do caos no mundo.”

“Tal como nas comédias americanas dos anos 30 e 40, a mulher é a caçadora e o homem a presa. Mas as duas personagens estão separadas no espaço e no tempo do filme. A alternância entre as perspectivas masculina e feminina é o que transforma a comédia num melodrama.”

“Há várias grandes digressões neste filme. Há a digressão geográfica que se vê nas imagens da Ásia contemporânea, que coincide com a digressão seguida pelas personagens numa Ásia imaginária filmada em estúdio. Há a grande digressão emocional vivida de formas diferentes por Edward e Molly: ambos se movem neste território emocional que não é menos vasto do que aquele em que se encontram fisicamente. Acima de tudo, há esta imensa digressão que une o que está dividido – países, géneros, tempos, realidade e imaginário, o mundo e o cinema. Acima de tudo, quero convidar quem vê o filme a fazer esta última grande digressão. Acho que o cinema é isso mesmo.”