«Memórias de Paris», da realizadora francesa Alice Winocour (argumentista do belo drama coming of age «Mustang»), é um drama original, maduro e inteligente, baseado nos atentados terroristas que assolaram Paris a 13 de Novembro de 2015. O irmão da realizadora conseguiu salvar-se do Bataclan, uma sala de espectáculos de Paris, e um dos locais onde os terroristas atacaram. Os vários atentados custaram a vida a 130 pessoas e feriram cerca de 400.

Em «Memórias de Paris», Alice Winocour criou um argumento ficcional baseado nestes factos ao acompanhar em três actos Mia (Virginie Efira), uma vítima no seu choque, na sua perda da memória, a desconexão com a realidade e a procura do homem que lhe salvou a vida. É uma obra que começa com a perplexidade do ataque terrorista num restaurante parisiense onde Mia se abriga da chuva e cruza-se com uma série de estranhos que se vão tornar fantasmas. É uma sequência dura, extremamente bem filmada, mostrando o ponto de vista das vítimas que nos deixa igualmente atordoados. Inicia-se um processo de reconstituição de um puzzle na revistação da memória que desperta por pequenos gestos (o trabalho de som é notável) ao mesmo tempo que a sua relação com o companheiro deixa de fazer sentido. A narrativa termina em jeito de esperança no reconhecimento de se estar vivo após uma tragédia incalculável. Neste percurso a realizadora colocou outros personagens que representam diferentes formas de lidar com a dor, esporadicamente também temos em cena testemunhos das vítimas que escaparam ao atentado no restaurante num diálogo com a câmara sobre a noite de terror. É uma obra que começa de uma forma convencional, mas rapidamente faz a mutação para algo mais do que um retrato de uma vítima ao apresentar vários prismas da vida depois de um acontecimento brutal. Não é um filme, nem uma protagonista que procure apenas o “diamante do trauma” (algo bom no meio da desgraça), mas é um processo de catarse que tenta encontrar algo que permita agarrar-se à vida. Não me recordo de muitos filmes que tenham tido esta eloquência a processar esta temática de uma forma tão construtiva, original e, porque não dizer, terapêutica.

Título original: Revoir Paris Realização: Alice Winocour Elenco: Virginie Efira, Benoît Magimel, Grégoire Colin Duração: 105 min. França, 2022

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº96, Agosto 2023]

https://www.youtube.com/watch?v=idHIUQeF_cw
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