MARCHA SOBRE ROMA

MARCHA SOBRE ROMA

«Marcha Sobre Roma» é um dos grandes eventos do calendário cinematográfico de 2023. É uma obra para os amantes da História e do Cinema. Um filme realizado por Mark Cousins, um nome incontornável no cinema documental. O seu trabalho de cineasta incide bastante sobre a cultura visual – é o autor do imperdível «A História do Cinema: Uma Odisseia (2011).

«Marcha Sobre Roma» é um documentário marcante, actual e pertinente. O filme aborda a ascensão da extrema-direita de Benito Mussolini em Itália e a utilização do cinema como ferramenta de propaganda, disseminação de ideias e controlo de massas. A obra foi um desafio lançado pelos produtores italianos a Mark Cousins que teve como ponto de partida um filme oficial do partido fascista italiano de 1922, intitulado «A NOI!», de Umberto Paradisi.

O filme propaganda «A NOI!» apresentava a marcha em Roma dos camisas negras que representavam o partido fascista. «A NOI!» é analisado e desmistificado por Mark Cousins. Os acontecimentos decorrem no pós-I Guerra Mundial num país pobre e quebrado. Os camisas negras exigiam que o governo lhes fosse entregue. «A NOI!» criou uma narrativa triunfante – que não poderia estar mais longe da verdade dos factos – através da manipulação das imagens e dos acontecimentos encena o triunfo de Mussolini. Apesar de todo o aparato da marcha, o que sucedeu realmente foi uma conveniente transferência de poder que envolveu o Rei de Itália, a maçonaria e outras intrigas de bastidores.

Após o trecho inicial observamos o impacto do fascismo em Itália, através de imagens e fotos de arquivo e até trechos de filmes dos anos 1970 de outros grandes realizadores italianos (Pasolini e Scola) que retratam nas suas narrativas a vivência no seio do regime. Mussolini tinha o estatuto de divindade, o controlo da religião, da família, da arte e da cultura. As imagens documentais apresentam a expansão territorial e ideológica do fascismo de Mussolini dentro e fora de portas. Um percurso trágico que foi replicado noutras nações europeias, no mesmo período, como na Alemanha com Hitler, Espanha com Franco e Portugal com Salazar, observe-se o pormenor no filme da imagem do ditador português com um retrato de Mussolini na sua secretária.

A par desse envolvente relato visual e narrativo (Mark Cousins é o narrador do filme), temos trechos interpretados pela talentosa Alba Rohrwacher, que surge com a sua beleza arrasadora e intemporal. A actriz italiana é perfeita na representação do papel de mulher da classe trabalhadora (extremamente maltratada no regime de Mussolini). Através da palavra faz uma descrição do sentimento da época na perspectiva feminina. No final da obra (ao longo dos créditos finais), Alba Rohrwacher interpreta a canção partisan “Bella Ciao”, um tema símbolo da resistência contra o fascismo em Itália.

Após a memória dos factos, o filme relembra que apesar da queda de Mussolini outras marchas (Brasília, Washington D.C.) que carregam o espírito da extrema-direita. E visualizamos os posters boys & girls da extrema-direita espalhados pelo mundo contemporâneo que abraçam a ideologia assente no populismo e na discriminação. «Marcha Sobre Roma» foi exibido em muitas escolas de Itália e esperamos que o mesmo aconteça pelo mundo fora.

«Marcha Sobre Roma» foi criado em apenas dois meses e aliou a força do cinema à desconstrução da mecânica de controlo e propaganda da ideologia fascista. É uma obra estruturada em capítulos com uma dimensão operática que escalpeliza o aparecimento e a disseminação do fascismo. Um trajecto histórico que começou em Itália em 1922 e está em polvorosa 100 anos depois. Os primeiros capítulos são absolutamente magnetizantes, é impossível desviar o olhar perante esta anatomia do golpe.