Maigret e a Rapariga Morta

MAIGRET E A RAPARIGA MORTA

MAIGRET E A RAPARIGA MORTA

Sem dúvida o mais popular dos detectives do universo policiário francófono, Jules Maigret faz o seu aparecimento, pela mão do prolífero Georges Simenon, no já longínquo ano de 1931. O seu sucesso não se faz esperar, pois este inspector da polícia judiciária parisiense combina um profundo humanismo no tratamento de todas as personagens – suspeitas, inocentes ou culpadas, com uma profunda empatia que articulada com um método muito particular onde a intuição e a tenaz investigação de cada detalhe acabam por levar Maigret à resolução de cada caso. Entre o início dos anos 30 e 1972, Maigret investiga mais de uma centena de casos, entre romances e novelas, reflectindo a evolução da sociedade parisiense através do seu sub-mundo. Alguns dos elementos decisivos na caracterização de Maigret como um investigador nato são o seu saudável apetite, as preciosas pausas para ‘une demi’ (uma cervejinha) e, é claro, uma clarificadora boa cachimbada.

Ao longo das décadas Maigret foi interpretado no cinema e na tv por uma plêiade de talentosos e muito variados actores que, cada um a seu modo, souberam dar vida ao infatigável detective. Para muitos, o Maigret definitivo foi o criado pelo mítico Jean Gabin, que interpretou a personagem em três filmes realizados entre os finais dos anos 1950 e inícios dos 1960.

De algum modo o veterano realizador Patrice Leconte parece remeter o espectador para a época de Gabin/Maigret escolhendo, para retomar a figura tutelar de Jules Maigret, o único actor francês que parece ter nascido para encarnar Maigret, o inadjetivável Gérard Dépardieu. Curiosamente, o último filme produzido para o grande écran inspirado no universo de Georges Simenon foi exactamente «Maigret voit Rouge» (1963) interpretado por Gabin.

É como se Dépardieu retomasse a personagem de Maigret directamente de Gabin, até o caso que
inspira o filme ‘Maigret et la jeune Morte’ publicado originalmente em 1954, insere-se nas investigações do detective já no ocaso da sua carreira. O caso gira em torno do aparecimento do cadáver de uma jovem rapariga sem identificação. Maigret desta feita tem competição de um outro detective, chamado Lognon, que tem uma abordagem completamente diferente da de Maigret. Onde Maigret procura resolver o mistério da morte através de uma rigorosa reconstituição não só dos passos da vítima como da sua personalidade, o seu rival segue um curso mais óbvio mas nem por isso mais sólido ou eficaz. Patrice Leconte dá-nos uma excelente interpretação de Maigret, ao mesmo tempo muito detalhada e atmosférica mas também profundamente humana e empolgante. Apesar de todo o cuidado estilístico da produção o filme – a primeira produção cinematográfica francesa desde 1963, acaba por recair no talento de Dépardieu que num golpe de quase genialidade nos faz acreditar que Maigret está de volta. Manuel C. Costa

Título original: Maigret Realização: Patrice Leconte Elenco: Gérard Depardieu, Jade Labeste, Mélanie Bernier Duração: 89 min. França, 2022

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