Page 9 - Revista Metropolis nº80 - Dune
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A MULHER QUE MORREU DUAS VEZES








                                                 OZU DE JADE

                                                      HUGO GOMES




                                Para muitos foi somente o     cede à sua fervorosa loucura, à febre que a corrói no
                                pretexto para seguirmos na    seu interior profundo, e encontra essa oportunidade
                                proposta de suspense e de     numa das icónicas sequências no cinema de De Palma,
                                alusões hitchockianas de Brian   um calculado passeio no Museu de Arte de Filadélfia,
                                De  Palma, mas, deste  lado,   um desfrear do seu psicológico em pleno tormento
                                relembro com alguma tristeza,   que  se  transforma  numa  correria  pela  cultura  do
                                aquela que é a segunda morte   sexo.  Os encontros que tornam-se desencontros  e
                                de uma mulher desesperada. O   por fim num instintivo reencontro, culminando no
                                filme que vos trago é «Vestida   seio dos lençóis e de uma almofada amarrotada numa
            Para Matar» («Dressed to Kill», 1980), um dos meus   cama desconhecida. A nossa mulher atingiu o seu
            prediletos do realizador, ainda na tradição do legado   pleno prazer por via de braços estranhos, o conforto
            deixado pelo mestre de suspense de Hollywood [Alfred   que não revia nos gestos frios do seu marido. Uma
            Hitchcock], nascendo aqui um fôlego, ora antigo, ora   noite apenas, era o prometido e tal ficou registado.
            moderno, duma estética de Nova Hollywood, daquele   No momento da saída de cena, discreta assim quis,
            cinema aprendido e recitado com as paixões e as   Dickinson sorrateiramente evade o apartamento
            desconstruções devidas. Sim, os ditos “movie brats”   daquele homem incógnito e sem face (apenas o corpo
            (Spielberg, Lucas, Scorsese, Coppola), cineastas com   como moeda de troca), mas a sua curiosidade domina.
            uma consciência do cinema enquanto arte em plena   Na tentativa de adiar a sua nova “fuga” (a da fantasia
            mudança estética, narrativa e performativa. Para   para o seu enfadonho real), a mulher lança-se na
            quem desconhece, ou cuja memória não é o seu forte,   jornada de conhecer este companheiro temporário,
            a obra parte de uma assassina em série na sede do   com isso confrontado com o seu fim, a sentença de
            seu mortal vício que persegue uma “call girl” (Nancy   um adultério satisfatório, a luxúria consequencial.
            Allen) que porventura testemunhou um dos seus     Perante esse novo e revelado “veneno” que corre pelas
            crimes. No centro está Michael Caine como psiquiatra,   suas veias, a loira é subitamente “atropelada” pelo
            e ainda mais a fundo uma paciente sua, loira de meia-  seu carrasco. Nada relacionado com a sua anterior
            idade,  enclausurada no  aborrecimento que não  é   condenação, mas foi com a fria lâmina do facalhão
            mais que a sua vida de dona de casa. As evasões desta   utilizado por esta entidade assassina que Dickinson
            mulher,  o  nosso  primeiro  contacto  neste  mesmo   cede ao seu eterno descanso. Esta foi a loira que morreu
            universo, acontecem exclusivamente na sua mente,   duas vezes, a morte definitiva pelo vilão da história e
            os devaneios que a fazem desesperar e suspirar pela   a outra, pelo seu escape à realidade que a afrontava
            fuga  possível,  partindo  de  um  pressuposto  sexual.   diariamente. Porém, pensando bem, esta sua segunda
            Segredos íntimos  acompanhados por carícias       morte soou mais com uma salvação, até porque nesta
            libertadoras,  fantasias  projetadas  apenas  confiadas   sociedade regida pela convencionalidade, os desejos
            ao  seu  psiquiatra.  Esta  mulher  (Angie  Dickinson)   nunca são prazeres inocentes.















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