Page 7 - Revista Metropolis nº80 - Dune
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HURRA! OS FESTIVAIS REGRESSARAM   MAKUNAÍMA, O MITO FUNDADOR DA

 COM VITALIDADE, CONTRA TUDO E               BRASILIDADE

 CONTRA TODOS!













 CINETENDINHA                              CINEMA BRASILEIRO

 RUI PEDRO TENDINHA                                RODRIGO FONSECA




 Os festivais de cinema   realizadores presentes. Os nossos cineastas não   Há um ano o cinema brasileiro   Pautado num argumento sólido como rocha,
 voltaram em força nesta   gostam de ver cinema nos festivais. Há uns anos,   olha para os céus atrás do   construído a partir de uma estrutura assinada por
 rentrée. E voltaram a provar   quando o TIFF era em  uptown, era normal ver   paradeiro de um ovni chamado   Juliana Colares, o filme de Séllos parte do registro
 que cada vez mais há um   Brian De Palma entre os críticos nas sessões   «Por onde anda Makunaíma?»,   de Makunaima como sendo um mito para povos
 público sedento do “evento”.   “press & industry”. O homem é cinéfilo e quer   que surpreendeu o país na   da tríplice fronteira Brasil-Venezuela-Guiana,
 Um público que gosta de ver   ver o que se faz de novo. Cá, parece haver um   disputa pelo troféu Candango   registrado em livro pela primeira vez no início dos
 primeiro, um público que   desinteresse com aquilo que é novo. À parte de   do  Festival de  Brasília e  saiu   anos de 1910, pelo etnólogo alemão Koch-Grünberg.
 quer ouvir as apresentações   João Pedro Rodrigues e Gonçalo Galvão Teles,   dele laureado com o prémio de   É ele quem fez a ponte entre o extremo norte da
 e participar nos Q&A. Em Portugal, o sucesso das   é muito raro ver cineastas estabelecidos a ver   melhor filme. É uma produção egressa de Roraima,   América do Sul com o Brasil, por meio de Mário de
 salas esgotadas ou quase de casos como a Festa do   cinema nestes eventos. Francamente gostei de   com 84 minutos de afirmação de identidade na   Andrade. Partindo de um rastreio etnográfico e de
 Cinema Francês, o Fest ou o MOTELx demonstra   ver  este  último  e Artur Ribeiro  (realizador  de   veia, num estudo sobre os mitos que fundam a   uma atomização da rapsódia andradiana, o cineasta
 que o conceito do público é partilhar, muito mais   Terra Nova) no FEST deste ano. Cineastas com   Pangeia latina, a partir do legado das populações   engata um voo pelo Cinema Novo, para fazer a
 do que ser visto. Tudo isto numa altura em que   interesse genuíno em espreitar as masterclasses,   indígenas. Centrado na  herança  mítica dos povos   geologia das cordilheiras semióticas que o realizador
 os filmes que não são  blockbusters parecem ter   as sessões do novo cinema e mesmo as festas.   fundadores, a longa-metragem de Rodrigo Séllos é   Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) erigiu ao
 perdido a maioria dos seus espetadores depois   Este ano, o festival de Espinho esteve com   uma universidade de múltiplos saberes, concentrados   levar Macunaíma às telas, em 1969, com «Grande
 da pandemia. As pessoas que deixaram de ir   alguns dos melhores filmes vistos em Cannes   em  84  minutos,  a  partir  do  estudo  da  figura  de   Otelo» (1915-1993) e Paulo José (1937-2021). Este
 ver cinema de autor são as mesmas que ficam   e nem isso chegou para mais cineastas terem   Makunaíma – mais lembrado pelo livro de Mário de   tem uma delicada aparição no documentário, em
 em casa a ver séries nas plataformas e, depois,   vontade de ir lá, nem mesmo os nortenhos.   Andrade, onde o nome do personagem se escreve com   meio a depoimentos analísticos de Heloísa Buarque
 quando o rei faz anos, se deslocam a um festival.   “c” e não com “k” – como uma síntese da brasilidade   de Hollanda e Hernani Hefner. Igualmente delicada
 Por este caminho, vão de certezinha acontecer     Por falar em norte, elogio para o Cinema   em sua concepção mais revolucionária, desbundada,   é a fala de Antunes Filho (1929-2019) sobre a versão
 mais festivais. Por um lado, são a salvação de um   Trindade, que depois da pandemia está um   tropicalista.  Ao  longo  da  projeção,  estuda-se   do Herói Sem Caráter para os palcos, questionando
 certo tipo de cinema, por outro, quem sabe se   autêntico festival de cinema diário, implacável   Antropologia, Cinema Moderno, Teatro e Geopolítica,   a repressão contra o espetáculo. Repressão, aliás, é
 também não serão um certificado de extermínio   a conseguir as antestreias primeiro que todos, a   sempre a partir de um debate sobre os movimentos   uma das palavras mais revisitadas (e espatifadas)
 da “tradicional” estreia em sala. Dá que pensar.   trazer cineastas de gabarito como Walter Salles   de vanguarda da arte. Uma frase do produtor Luiz   por Séllos, em especial num desabafo do ator Cacá
 e a estar sempre a inventar ciclos e sessões   Carlos Barreto, responsável pelo sucesso de bilheteria   Carvalho a dizer: “Aquela força de ‘Macunaíma’ foi
 A reflexão nesta coisa de festivais passa por   especiais. Américo Santos, o seu programador,   “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), serve como   uma resposta a um tempo terrível. Talvez esteja
 uma outra constante: à parte dos cineastas   faz serviço público na Baixa do Porto e qualquer   um farol para esta narrativa de uma convulsiva (e,   para aparecer uma outra resposta de força artística
 dos filmes exibidos, coisa que nunca se vê são   dia têm de lhe dar uma estátua...  também, reflexiva) montagem: “O Brasil se perderá   diante desse horror que está se configurando desses
            definitivamente na hora que renegar Macunaíma”.   tempos politicamente… vergonhosos”.















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