Page 6 - Revista Metropolis nº80 - Dune
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HURRA! OS FESTIVAIS REGRESSARAM                                                                                         MAKUNAÍMA, O MITO FUNDADOR DA

                  COM VITALIDADE, CONTRA TUDO E                                                                                                                     BRASILIDADE

                                        CONTRA TODOS!













                                               CINETENDINHA                                                                                                       CINEMA BRASILEIRO

                                                  RUI PEDRO TENDINHA                                                                                                      RODRIGO FONSECA




                                Os festivais de cinema        realizadores presentes. Os nossos cineastas não                                          Há um ano o cinema brasileiro   Pautado num argumento sólido como rocha,
                                voltaram em força nesta       gostam de ver cinema nos festivais. Há uns anos,                                         olha para os céus atrás do    construído a partir de uma estrutura assinada por
                                rentrée. E voltaram a provar   quando o TIFF era em  uptown, era normal ver                                            paradeiro de um ovni chamado   Juliana Colares, o filme de Séllos parte do registro
                                que cada vez mais há um       Brian De Palma entre os críticos nas sessões                                             «Por onde anda Makunaíma?»,   de Makunaima como sendo um mito para povos
                                público sedento do “evento”.   “press & industry”. O homem é cinéfilo e quer                                           que surpreendeu o país na     da tríplice fronteira Brasil-Venezuela-Guiana,
                                Um público que gosta de ver   ver o que se faz de novo. Cá, parece haver um                                            disputa pelo troféu Candango   registrado em livro pela primeira vez no início dos
                                primeiro, um público que      desinteresse com aquilo que é novo. À parte de                                           do  Festival de  Brasília e  saiu   anos de 1910, pelo etnólogo alemão Koch-Grünberg.
                                quer ouvir as apresentações   João Pedro Rodrigues e Gonçalo Galvão Teles,                                             dele laureado com o prémio de   É ele quem fez a ponte entre o extremo norte da
            e participar nos Q&A. Em Portugal, o sucesso das   é muito raro ver cineastas estabelecidos a ver                      melhor filme. É uma produção egressa de Roraima,   América do Sul com o Brasil, por meio de Mário de
            salas esgotadas ou quase de casos como a Festa do   cinema nestes eventos. Francamente gostei de                       com 84 minutos de afirmação de identidade na      Andrade. Partindo de um rastreio etnográfico e de
            Cinema Francês, o Fest ou o MOTELx demonstra      ver  este  último  e Artur Ribeiro  (realizador  de                  veia, num estudo sobre os mitos que fundam a      uma atomização da rapsódia andradiana, o cineasta
            que o conceito do público é partilhar, muito mais   Terra Nova) no FEST deste ano. Cineastas com                       Pangeia latina, a partir do legado das populações   engata um voo pelo Cinema Novo, para fazer a
            do que ser visto. Tudo isto numa altura em que    interesse genuíno em espreitar as masterclasses,                     indígenas. Centrado na  herança  mítica dos povos   geologia das cordilheiras semióticas que o realizador
            os filmes que não são  blockbusters parecem ter   as sessões do novo cinema e mesmo as festas.                         fundadores, a longa-metragem de Rodrigo Séllos é   Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) erigiu ao
            perdido a maioria dos seus espetadores depois     Este ano, o festival de Espinho esteve com                           uma universidade de múltiplos saberes, concentrados   levar Macunaíma às telas, em 1969, com «Grande
            da pandemia. As pessoas que deixaram de ir        alguns dos melhores filmes vistos em Cannes                          em  84  minutos,  a  partir  do  estudo  da  figura  de   Otelo» (1915-1993) e Paulo José (1937-2021). Este
            ver cinema de autor são as mesmas que ficam       e nem isso chegou para mais cineastas terem                          Makunaíma – mais lembrado pelo livro de Mário de   tem uma delicada aparição no documentário, em
            em casa a ver séries nas plataformas e, depois,   vontade de ir lá, nem mesmo os nortenhos.                            Andrade, onde o nome do personagem se escreve com   meio a depoimentos analísticos de Heloísa Buarque
            quando o rei faz anos, se deslocam a um festival.                                                                      “c” e não com “k” – como uma síntese da brasilidade   de Hollanda e Hernani Hefner. Igualmente delicada
            Por este caminho, vão de certezinha acontecer     Por falar em norte, elogio para o Cinema                             em sua concepção mais revolucionária, desbundada,   é a fala de Antunes Filho (1929-2019) sobre a versão
            mais festivais. Por um lado, são a salvação de um   Trindade, que depois da pandemia está um                           tropicalista.  Ao  longo  da  projeção,  estuda-se   do Herói Sem Caráter para os palcos, questionando
            certo tipo de cinema, por outro, quem sabe se     autêntico festival de cinema diário, implacável                      Antropologia, Cinema Moderno, Teatro e Geopolítica,   a repressão contra o espetáculo. Repressão, aliás, é
            também não serão um certificado de extermínio     a conseguir as antestreias primeiro que todos, a                     sempre a partir de um debate sobre os movimentos   uma das palavras mais revisitadas (e espatifadas)
            da “tradicional” estreia em sala. Dá que pensar.   trazer cineastas de gabarito como Walter Salles                     de vanguarda da arte. Uma frase do produtor Luiz   por Séllos, em especial num desabafo do ator Cacá
                                                              e a estar sempre a inventar ciclos e sessões                         Carlos Barreto, responsável pelo sucesso de bilheteria   Carvalho a dizer: “Aquela força de ‘Macunaíma’ foi
            A reflexão nesta coisa de festivais passa por     especiais. Américo Santos, o seu programador,                        “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), serve como   uma resposta a um tempo terrível. Talvez esteja
            uma outra constante: à parte dos cineastas        faz serviço público na Baixa do Porto e qualquer                     um farol para esta narrativa de uma convulsiva (e,   para aparecer uma outra resposta de força artística
            dos filmes exibidos, coisa que nunca se vê são    dia têm de lhe dar uma estátua...                                    também, reflexiva) montagem: “O Brasil se perderá   diante desse horror que está se configurando desses
                                                                                                                                   definitivamente na hora que renegar Macunaíma”.   tempos politicamente… vergonhosos”.















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      6   METROPOLIS SETEMBRO 2021                                                                                                                                                                            METROPOLIS NOVEMBRO 2021    7
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