Page 8 - Revista Metropolis nº78
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UM MANIFESTO CONTRA OS

                  MANIFESTOS E AS SUAS TRAGÉDIAS

                                            ANUNCIADAS





                                                     OZU DE JADE
                                             CRÓNICA DE HUGO GOMES






                                Uma  perda  incalculável  acon-  ninguém quis saber, Governo inclusive e a camada
                                teceu  a  29  de  julho  de  2021  -   artística também. Não basta manifestos nem notas
                                era  uma  tragédia  anunciada,   de repúdio ou de censura, para este tipo de sujeitos
                                segundo os cabeçalhos de jor-  sentados nos seus devidos tronos de palha, tais são
                                nais e artigos vários que entre-  palavras em demasia, papel desperdiçado para quem
                                tanto  transformaram-se  em   às instituições nada deve. Há que seguir uma outra
                                slogan  apocalíptico  -  o  incên-  via de resistência, não das armas, mas pelos atos e a
                                dio  na  Cinemateca  Brasileira,   Cinemateca necessitava dos seus atos e dos seus ato-
            em  São  Paulo,  era  já  visto  como  coisa  de  premoni-  res (onde estavam eles quando o espaço mais precisa-
            ção  de  Nostradamus.  Deste  lado,  simplesmente,  a   va?). Na Cultura, ninguém parece querer agir, todos
            secura  tomou  conta.  Parece  não  existir  mais  espa-  reagem passivamente, aguardando por aquele ombro
            ço para frustração, essa morrera faz tempo, dando   amigo  que  nunca  chega.  A  situação  da  Cinemateca
            lugar à impotência perante um país à beira da sua   Brasileira  tornou-se  um  arrasto,  um  prolongamen-
            autodestruição cultural. Filmes, documentos, outros   to que nos levou ao inevitável. Quem ganha com a
            artefactos históricos, aliás a História audiovisual …   perda de um legado cinematográ!co? Simplesmente
            esperem  …  História  Brasileira  perdeu-se  aqui,  re-  quem deseja implementar uma outra História, uma
            duzida a cinzas, e nada mais que isso. O luto, esse,   outra  forma  de  vida,  um  outro  país.  Quem  perde?
            pronto a ser vestido por alguns, visto que as forças   Todos nós. Não apenas os brasileiros, mas todos nós.
            máximas do país da Ordem e do Progresso pouco ou   Consequencialmente, entre as perdas estão o muito
            nada lhes interessam. Um misto de indiferença e sa-  espólio do cineasta Glauber Rocha. Em entrevista à
            tisfação sob um derrotado “inimigo” (o triunfo dos   Globo,  Paloma  Rocha, !lha  do realizador, declarou
            medíocres e da mediocridade). Não vamos resumir a   que 100 entre as 300 caixas correspondentes ao au-
            ideologias políticas, escolhas partidárias ou um mero   tor  de  «Barravento»  e  de  «Terra  em  Transe»  foram
            ativismo de rede social que aponta o dedo para o pró-  consumidos pelas chamas. Falamos de !lmes, docu-
            ximo sem olhar ao seu redor, a cultura sempre foi um   mentos,  ensaios  e  outros  retalhos  memorialísticos
            alvo a abater em terreno de incompetência política,   de Rocha … desvanecidos! O que poderemos fazer a
            isso não é perspetiva alguma, é um certeiro facto. A   seguir disto? Tornar (e preservar) a História viva de
            Cinemateca  Brasileira  encontrava-se  ao  abandono,   alguma maneira. Não esquecer, essa, sim, a priori-
            sem manutenção, sem recursos humanos e sem com-   dade, porque é no vazio que nascem os incultos. Ao
            paixão, por mais avisos que o caso tenha suscitado,   Cinema Brasileiro, as minhas condolências.

















         CR Ó N I C A
      8   METROPOLIS AGOSTO !"!#
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