Page 7 - Revista Metropolis nº78
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DE CANNES PARA UMA CARAVANA

                             COM CINEMA PORTUGUÊS



                                                  CINETENDINHA
                                        CRÓNICA DO ESCRAVO DO CINEMA
                                                RUI PEDRO TENDINHA
















                                Lições  de  Cannes  2021?  O   Mas se há pouco falava de lições, a maior delas
                                cinema, o melhor cinema, foi   talvez  seja  o  bom  trabalho  das  distribuidoras
                                aquele que arriscou na forma,   nacionais. Não só devoram tudo o que havia para
                                na    linguagem.    Cinema    devorar  mas  também  investiram  em  pérolas  da
                                que  para  estes  tempos  de   Cannes Premiere (olá «Cow», de Andrea Arnold) e
                                pós-pandemia  fez  do  risco   do Un Certain Regard (olá «Uncleching the Fists»,
                                um  diálogo  com  o  futuro   de Kira Kovalenko). Bons sinais para a próxima
                                imediato.  Os  cineastas  que   temporada mesmo com a outra lição negativa: o
            !lmaram  com  urgência  petiscaram.  Que  o  diga   fracasso de Annette, prémio de melhor realização
            Julia  Ducournau,  tão  justamente  recompensada   para  Leos  Carax,  nos  cinemas  portugueses.
            com a Palma de Ouro com «Titane» [foto], crónica
            de monstros que somos nós que é ainda um hino     Enquanto  isso,  no  Algarve,  a  Loulé  Film  O"ce
            ao  cinema  extremo.  Quem  não  cair  na  preguiça   con!rma o seu desígnio de !lm comission que não
            de  o  comparar  a  «Christine»,  de  Carpenter  e  a   pára.  Para  além  de  apadrinhar  o  primeiro  !lme
            «Crash», de Cronenberg, talvez encontre aqui uma   !lmado nos gigantes estúdios da MovieBox, «#e
            obra com um fulgor de choque que hoje é tão vital.  Infernal Machine», com Guy Pearce e Iris Cayatte;
                                                              continua a levar cinema ao ar livre pelas povoações
            Também  impossível  não  viajar  pelos  escombros   sem cinema do concelho. Cinema ao ar livre que é
            da  alma  nesse  negro  «Vortex»,  de  Gaspard  Noé,   serviço público.
            presente na secção Cannes Premiere, !lme também
            extremista sobre o bafo da morte a farejar um casal   E por falar em cinema ao ar livre, aplausos para
            idoso em Paris. Um Noé sem violência física e até   a  iniciativa  Cine-Caravana,  apoiada  pelo  ICA  e
            com uma ternura convulsa. «Vortex» não abdica     pelos CTT. Está a levar cinema português a todo
            do  “split  screen”  mas  parece  agora  apaziguado.   o país para noites de verão diferentes. Se poderia
            E  por  Cannes,  a  morte  também  teve  direito  a   ter  antestreias?  Poderia,  mas  uma  programação
            cerimónia com melodrama !no, «Tous s'est Bien     que mistura Oliveira, César Monteiro e Fonseca e
            Passé», uma das obras-primas de Francois Ozon,    Costa já merece algum carinho...
            cineasta que aqui faz da elegância da câmara um
            movimento constante, dando também à sua atriz,
            Sophie  Marceau,  um  momento  ímpar.  Filme  de
  FOTO ! PHILIPPE QUAISSE
            uma beleza siderante.









                                                                                          CR Ó N I C A

                                                                                          METROPOLIS AGOSTO !"!#   7
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