IRON CLAW

IRON CLAW

«Iron Claw» é um drama com raízes clássicas olhando à própria história do cinema como também à própria herança dramatúrgica. Estamos perante uma tragédia grega no coração da América. É um soco no estômago, um drama em estado puro.

«Iron Claw» é apenas o terceiro filme de Sean Durkin que se apresentou ao mundo com o magnífico «Martha Marcy May Marlene» (2011), um diamante bruto dos últimos 20 anos. Sean Durkin também assinou o argumento e continua a ser um factor diferenciador ao destilar temas basilares que se tornam fracturantes na sinuosa existência da família Von Erich.

O filme é uma introspecção da América e dos códigos da família, a masculinidade, o dinheiro, a ambição desmesurada e a religião, e tudo em convulsão numa história verídica. A obra baseia-se na história negra da família Von Erich. É um relato que se não fosse real seria difícil acreditar.

Não se inibam de ver o filme pelo seu pano de fundo: o wrestling (as sequências no ringue são fabulosas). Esta forma de entretenimento demonstra, nesta obra, que mesmo a fingir a dor é real mas a mágoa e a dor invisível fazem bem mais estragos do que um “abraço de urso” ou um corpo espalmado no meio do ringue.

Nos anos 1980, no Texas, um pai (Holt McCallany) de família e antiga glória dos ringues tem uma fábrica de futuros campeões em casa e deseja que todos os seus filhos tenham um destino glorioso. É interessante ver as engrenagens do sistema e a vida dentro e fora dos ringues. Igualmente interessante é a vivência dos quatro inseparáveis irmãos Von Erich e o seu amor fraterno na órbita de um pai que acha que ser duro com os filhos com o seu “tough love” é o caminho para o sucesso, só lhe interessa o lucro, os rankings e a glória no ringue. Os filhos têm um esforço sobre-humano para não desiludir o pai e os desígnios do legado familiar e gradualmente começam a quebrar… A mãe (Maura Tierney, um belo exemplo do silêncio da dor) agarra-se à religião e espera que tudo se resolve entre os “rapazes”.

É uma obra entre a felicidade, a ilusão e a desilusão. Havendo ao longo do filme viragens bruscas em termos emocionais que se evidenciam nas transições entre a amizade, a fraternidade passando pela fama até a solidão e o desespero lacónico. O que distingue «Iron Claw» é o seu olhar incisivo sobre as dinâmicas de relacionamentos familiares no seio da família Von Erich, cada irmão vai tendo um pedaço de filme onde a sua história pessoal é predominante e desconcertante. O pai e o irmão mais velho Kevin Von Erich (Zac Efron) vão sendo constantes em toda a obra. Estes terminam em cantos opostos perante a tristeza e o desencanto quando Kevin conclui que uma vida assentada em bases alegadamente sólidas (família, religião, sacrifício) afinal era um logro. Nada disto teria sentido se não estivessem em cena uma mão cheia de grandes actores em interpretações muito complexas onde na maioria do filme, a sua revolta é interior e bem mais dolorosa do que os corpos quebrados pela força da luta. O casting foi muito feliz, os cinco principais papéis da família Von Erich são extraordinários e destacamos a interpretação de carreira de Zac Efron que como actor parece ter entrado na estratosfera.

Uma das conclusões mais fortes desta obra é que se tirarmos o wrestling temos uma história contemporânea, perturbante e universal que se repete infindavelmente noutros contextos em inúmeros clãs familiares…

«Iron Claw» foi produzido pela A24, a produtora coqueluche dos espectadores que anseiam cinema de qualidade, uma etiqueta que tem sido um sinónimo de excelência. O facto da A24 ter nos Óscares 2024 títulos muito fortes como «Vidas Passadas» e «A Zona de Interesse» pode justificar que «Iron Claw» tenha ficado de fora das campanhas para a temporada de Prémios. Não deixa de ser um filme a não perder e está entre as grandes estreias do início de 2024 nas salas de cinema, tão cedo não nos esqueceremos dos irmãos Von Erich…

Título original: The Iron Claw Realização: Sean Durkin Elenco: Zac Efron, Jeremy Allen White, Harris Dickinson, Holt McCallany, Maura Tierney, Stanley Simons Duração: 132 min. EUA/Reino Unido, 2023