logo

Entrar
Actualizado às 11:13 AM, Oct 23, 2019

Demolidor: o reset da emoção (review da 3T)

Depois de duas temporadas e um crossover a alta velocidade com resultados catastróficos, o Demolidor está de volta – alguém acreditou mesmo que ele ia morrer?! – esta sexta-feira, 19

A Marvel replicou a fórmula do MCU (Marvel Cinematic Universe) na Netflix e, como resultado, as duas primeiras temporadas de «Demolidor» trabalharam em grande medida para fortalecer «Os Defensores», culminando com o confronto épico dos anti-heróis e da ‘Mão’ que teimava em estragar a tranquilidade de Nova Iorque. Com principal destaque para o combate anunciado e muito explorado entre o Demolidor (Charlie Cox) e Elektra (Elodie Yung), sendo o primeiro incapaz de salvar a mulher por quem estava apaixonado. Destruído física e emocionalmente, Matt Murdock desapareceu e foi dado como morto.

Demolidor 2
Torna-se quase irrisório que a Marvel tenha ‘sugerido’ a queda derradeira do Demolidor no final de «Os Defensores», quando um ano antes tinha sido anunciada a terceira temporada do justiceiro a solo. Embora a quase-morte tenha tido um propósito meramente narrativo, uma vez que contribui para o afastamento e reinvenção da personagem, acabou por não causar qualquer suspense durante o hiato. Ainda assim, o facto de não existir mistério ajuda a não distrair a audiência, pelo que o foco mantém-se no desenvolvimento das diversas camadas da ação, ao invés de se sugestionar um “Gato de Schrödinger”, onde não se sabia se Demolidor estava vivo ou morto até abrir a ‘caixa’.

O encontro com o anti-herói anuncia também a interação com um novo núcleo na terceira temporada: a Igreja. Chega a ser irónico que Demolidor, desesperado e sem qualquer proactividade, tenha de interagir com uma facção associada à esperança e a crença naquilo que não se vê – contudo, não é uma relação tão linear assim. Ao mesmo tempo, ressurge um vilão que impõe respeito, o Wilson Fisk de Vincent D’Onofrio, que sai finalmente da prisão sedento de vingança. Como se um inimigo não fosse suficiente, eis que é introduzido Bullseye (Wilson Bethel, «Como Defender um Assassino»), uma figura misteriosa que não olhará a meios para derrotar o Demolidor.

Demolidor 3

Assim como já aconteceu com as diversas apostas da Marvel na Netflix, a componente política e de reflexão social é muito forte. Enquanto Murdock faz um ‘reset’ emocional, numa redescoberta da sua essência pessoal e de Demolidor, Wilson Fisk assume contornos sobejamente reconhecidos, no que às figuras políticas internacionais mais extremistas e menos consensuais diz respeito (exemplo Donald Trump ou Vladimir Putin). Espera-se, portanto, muito qualidade da parte do novo criador Erik Oleson («Arrow», «The Man In The High Castle») e companhia.

  • Publicado em TV

Eu sobrevivi à sexta temporada de «Orange is the New Black»!

Depois do motim das presidiárias, a narrativa ficou em aberto e as possibilidades eram imensas. «Orange is the New Black» segue um caminho ousado, e com escolhas que dificilmente vão agradar a todos, mas sai a ganhar após 13 episódios. A METROPOLIS teve acesso antecipado à nova temporada, que estreia sexta-feira, 27, na Netflix.

Pela primeira vez desde a estreia, em 2013, «Orange is the New Black» não somou qualquer indicação aos Emmys de setembro. A ‘culpada’ foi a sua quinta temporada, lançada no verão de 2017 e só agora elegível para nomeação, que marcou uma rutura clara e incontornável com as anteriores storylines da criadora Jenji Kohan e companhia. Depois de conflitos entre presidiárias – ou destas com pessoas pré-Litchfield –, foi a vez de as mulheres se revoltarem contra os guardas e a corporação responsável pela gestão da Prisão de Litchfield (a MCC), devido às más condições, violência e discriminação. Qualquer semelhança com a realidade das prisões norte-americanas não será pura coincidência.

Orange 2

É certo que, mais do que qualquer uma das anteriores, a última temporada dividiu opiniões. A mudança de paradigma foi muito acentuada e ousada, levando a um corte quase total com aquela que tinha sido a ‘linguagem’ usada até então, e os resultados foram catastróficos – que o diga Desi Piscatella (Brad William Henke). No entanto, o regresso está longe, também, de querer agradar às massas, pelo que não tem problemas em afastar personagens ou prejudicar as individualidades em prol da história maior que quer contar. Ainda que algumas pessoas possam entender isto como uma falta de foco, ou um ‘castigo’ sem critério definido, «Orange is the New Black» tem uma narrativa intencional e cuidada, o que se torna cada vez mais claro ao longo dos 13 episódios, disponíveis na Netflix a partir de sexta, feira, 27.

Sempre foi notório que, à exceção de Piper Chapman (Taylor Schilling), inspirada na ex-presidiária e humanitária Piper Kerman, ninguém está a salvo. Veja-se a morte de Poussey (Samira Wiley, agora em «The Handmaid’s Tale») ou o afastamento, nos próximos episódios, de personagens tidas como determinantes e até fan favourites, como ‘Big’ Boo (Lea DeLaria) e Maritza (Diane Guerrero). Outrora nos ‘bastidores’ da ação, a Max de Litchfield reclama agora todas as atenções para si, pelo que o núcleo duro da menina dos olhos da Netflix vão ser as presidiárias deslocadas para lá e aquelas que já estão na prisão de segurança máxima, nomeadamente as ‘líderes’ da Prisão de Máxima Segurança, as irmãs Carol (Henny Russell) e Barbara (Mackenzie Phillips), e as suas pupilas Badison (Amanda Fuller) e Daddy (Vicci Martinez). Quem foi transferida para outra prisão acaba por perder importância e, consequentemente, passa ao lado da sexta temporada.

Orange 3

“Ai, as saudades que eu tinha da Piper!”. Embora a nova temporada da bem-sucedida aposta da Netflix seja propícia a frases emotivas, dificilmente encontraremos este desabafo de felicidade entre elas. Piper seria facilmente colocada numa lista de ‘protagonistas não adorados’ ou ‘personagens que provocam mais revirar de olhos por episódio’, e regressa igual a si mesma. A evolução da personagem principal ao longo dos anos tem sido notória, mas isso não tem tido correspondência em menos egoísmo e egocentrismo, ainda que ela tente contribuir para uma realidade mais positiva na prisão. Ao jeito do que acontece com Piper Kerman, que sempre manifestou a sua vontade de colocar a audiência a falar não apenas sobre a ficção, mas também sobre o drama real que se desenrola fora da televisão e do computador, nos centros de detenção norte-americanos.

Sem revelarmos demasiado sobre o que aí vem, fica desde já o aviso que as surpresas continuam a acontecer a um bom ritmo, mesmo com velhos conhecidos. Estamos perante, aliás, alguns dos twists mais chocantes de «Orange is the New Black». Por seu lado, há três personagens que se vão revelar determinantes e nas quais assentam as principais storylines: Piper, Frieda (Dale Soules), que tem um desentendimento antigo na Max, e Joe Caputo (Nick Sandow). Apesar de a narrativa não se concentrar demasiado em nenhum deles, seguindo mais uma vez o foco global da vida na prisão (ou sobrevivência), é indispensável o foco particular para fazer avançar «Orange is the New Black». E, sobretudo, aquilo que as consequências das diferentes histórias poderão significar na sétima, e última (?), temporada.

Orange 4
A avaliação global dos novos episódios é bastante positiva, embora as fragilidades da série sejam inegáveis, sobretudo no que diz respeito ao desenvolvimento de pequenos ‘dramas’, que nem sempre têm resposta à altura na ação. Não obstante, ‘perdoa-se’ esta falha pelas limitações óbvias de tempo e, ao mesmo tempo, porque são enfraquecidas em prol de uma maior força da história inspirada por Piper Kerman como um todo. Os produtores executivos olham Donald Trump e as suas políticas bem de frente, sem precisarem sequer de o mencionar ou de situar rigorosamente os acontecimentos, na linha do que têm feito apostas como «The Handmaid’s Tale», «The Good Fight» ou «Arrested Development».

«Orange is the New Black» está a marcar a atualidade seriólica e irá, com toda a certeza, ficar na história das produções da Netflix – não apenas pelo seu sucesso, mas também pela sua relevância para a discussão social. Numa altura em que ainda se critica a desvalorização das personagens femininas em séries e filmes, a série da Netflix rompe com a ‘norma’ e coloca as mulheres no topo desta cadeia alimentar, dando-lhes relevância, profundidade e problemas complexos (além da multiplicidade de etnias presentes). Isso não quer dizer que ignore as suas personagens masculinas, pelo contrário, sendo uma lição valiosa de como é possível ter conteúdos mais equilibrados em termos de género, sem prejudicar outros grupos.

  • Publicado em TV

«Aniquilação» com Natalie Portman

Alex Garland surpreendeu os amantes de Cinema com a sua primeira longa-metragem, «Ex Machina» (2014), uma arrojada e provocadora obra de ficção científica que venceu o Óscar de Melhores Efeitos Visuais e catapultou Alicia Vikander para a ribalta. Por isso, as expectativas são mais que muitas para o novo filme do cineasta britânico, que junta agora um novo ingrediente, o terror psicológico. Além de realizar a obra, Garland assina também o argumento.

«Aniquilação» baseia-se na trilogia “Southern Reach Trilogy”, do norte-americano Jeff VanderMeer, em que fazem também parte os livros “Authority” e “Acceptance”, um conjunto de obras elogiado pela crítica e que arrecadou alguns prémios. A trilogia acompanha a história de quatro mulheres enquanto investigam uma localização misteriosa, a Área X.

No Cinema, estas mulheres serão interpretadas por Natalie Portman, Jennifer Jason Leigh, Gina Rodriguez e Tessa Thompson, atrizes muito diferentes entre si e que já provaram o seu talento em diferentes momentos da sua carreira, sendo este também um dos principais motivos de expectativa para este «Aniquilação». Destaque sobretudo para Natalie Portman, que assume o papel de protagonista, arriscando num género ainda pouco explorado na sua trajetória artística. Num elenco essencialmente feminino salienta-se, ainda, o guatemalteco Oscar Isaac, vencedor do Globo de Ouro por «Show Me a Hero».

Ficção científica, deslumbre visual e interpretações fortes são a chave de «Aniquilação», que, sinal dos tempos, estará disponível na Netflix a 12 de Março.

HISTÓRIA: Uma bióloga (Natalie Portman) embarca numa missão secreta e perigosa com três cientistas em busca do seu marido (Oscar Isaac), que não deu mais sinais após ter entrado nessa mesma missão um tempo antes.

Realizador: Alex Garland («Ex Machina», 2014).
Elenco: Natalie Portman, Oscar Isaac, Jennifer Jason Leigh, Gina Rodriguez.

 

Annihilation Vertical MAIN PRE POR

  • Publicado em Feature

O FORASTEIRO, um filme Netflix

No Japão pós-guerra, um soldado norte-americano (Leto) capturado é libertado com a ajuda do seu colega de cela que pertence aos Yakuza. Agora livre, tenta ganhar respeito e pagar a sua dívida entrando no submundo do crime. Estreia a 9 de Março.

  • Publicado em Videos

Everything Sucks!: uma série sobre a pior (ou melhor) época das nossas vidas

A nova série da Netflix, cuja primeira temporada será lançada na totalidade no dia 16 de fevereiro, às 8 horas, tem como palco um liceu norte-americano nos anos 90. A METROPOLIS já iniciou este regresso ao passado; acompanha-nos nesta viagem?

É inevitável enquadrar a estreia de «Everything Sucks!» entre as apostas de sucesso do serviço de streaming Netflix, na linha de «Stranger Things» e «Por Treze Razões». A série criada por Ben York Jones e Michael Mohan leva-nos de volta aos anos 90, mais concretamente a 1996, e pega num grupo de jovens ‘caloiros’ no liceu – Luke (Jahi Di'Allo Winston), Tyler (Quinn Liebling) e McQuaid (Rio Mangini) –, que se prepara para enfrentar os obstáculos mais difíceis da adolescência: os miúdos populares. No entanto, não se deixem enganar por estereótipos ou ideias feitas.

Pulseiras que rodeavam o pulso após uma ‘pancada’, Trolls e uma sucessão de ‘quantos-queres’. Ainda o primeiro episódio mal começou e já fomos transportados para outros tempos, que ecoam memórias não apenas dos adolescentes de 90, mas também dos anos seguintes. É que, apesar de «Everything Sucks!» ser uma série tipicamente americana, há muitas brincadeiras juvenis que nos remetem também para o passado português. Mas apertem bem os cintos, porque a viagem não acaba aqui: há a caraterização pelo vestuário, um clube audiovisual (como em «Stranger Things») e preconceitos sobre os quais mal se ousava falar.

Ao mesmo tempo que é um passado recente que nos parece já muito distante, demonstra ainda como, em termos sociais, as pessoas não evoluíram tanto como se julga. Enquanto «Stranger Things» se situava na década de 80, e frisava recorrentemente essa realidade, a nova série da Netflix opta por fazer enquadramentos sobretudo visuais e de caraterização. Da mesma forma, organiza o ambiente com música, linguagem e referências espaciais e pormenorizadas a momentos ou tendências que marcaram aqueles que experienciavam a adolescência há 20 anos.

ES 103 Unit 01623R
Ainda assim, e ao contrário da trama dos irmãos Duffer, tem o principal conflito na rotina escolar, a partir da qual aproveita para escalar para uma discussão muito maior. Não é apenas uma batalha entre geeks e alunos populares – embora por vezes até pareça. Nada é inocente e, tal como se suspeitava, esta não é uma série infantojuvenil: atravessa gerações e dirá muito, certamente, aos nascidos nos anos 80 – e não só. Por seu lado, o elenco jovem soma créditos de respeito. Peyton Kennedy fez 14 anos recentemente, e já conta com uma carreira de quase seis anos. Jahi começou mais tarde, em 2016, mas soma créditos em êxitos como «Feed The Beast».

Este duo, no qual se centra parte da storyline, serve de exemplo para a qualidade que se pode encontrar em «Everything Sucks!», pelo que o melhor é não se deixarem enganar pela sua aparência franzina! É uma comédia, sim, mas é muito mais que isso: é uma discussão inevitável sobre as nossas memórias, as nossas experiências e, sobretudo, sobre a forma como a adolescência mexeu connosco e moldou a nossa personalidade. Afinal, para os mais jovens, tudo se vive com uma tal intensidade que todos os dias podem ser o fim do mundo...

  • Publicado em TV

MARVEL – JESSICA JONES - trailer 2ª temporada

A detetive privada, de Nova Iorque, Jessica Jones (Krysten Ritter) está a recomeçar a sua vida após ter morto Kilgrave, o seu pior inimigo. Agora ao ser conhecida pela cidade como uma assassina com superpoderes, um novo caso “obriga-a” a confrontar-se consigo mesma, aprofundando o seu passado e a perceber as razões do que se tem vindo a passar na sua vida.

A Krysten Ritter (Jessica Jones) junta-se um elenco que inclui, entre outros, Rachael Taylor (Trish Walker), Carrie-Anne Moss (Jeri Hogarth), Eka Darville (Malcolm Ducasse) e Janet McTeer and J.R. Ramirez.

Marvel - JESSICA JONES, na Netflix, conta com a produção executiva dos Showrunners Melissa Rosenberg (“Twilight”, “Dexter”), Raelle Tucker (“True Blood”), Jim Chory (“Marvel’s Daredevil”, “Marvel's Luke Cage”, “Marvel's Iron Fist”) e Jeph Loeb (“Marvel’s Daredevil”, “Marvel's Luke Cage”, “Marvel's Iron Fist”) que é também Marvel’s Head of Television.

Marvel – JESSICA JONES estreia no Dia Internacional da Mulher, 08 de Março.

JessicaJonesS2 Vertical Desk PRE POR

Fonte:Netflix

  • Publicado em Videos

Black Mirror: o melhor da TV continua a mostrar o pior de nós

A quarta temporada de «Black Mirror» chega à Netflix na sexta-feira, 29, bem a tempo de estragar as contas das melhores séries do ano. Com argumentos sólidos e pungentes, a série, que até já esteve condenada ao cancelamento no passado, regressa mais forte do que nunca. A METROPOLIS teve acesso à nova temporada em primeira mão e traz o kit de sobrevivência para mais uma aventura hipertecnológica.

“E a tecnologia?”. Esta pergunta ecoa, persistentemente, a cada nova incursão no universo de «Black Mirror», cujos episódios, independentes entre si, são unidos pela tecnologia, qual omnipresença invisível, e pela inevitabilidade de esta assumir novas formas (e perigos) no futuro. A tecnologia, sempre ela, mesmo quando o espectador não a alcança imediatamente à vista desarmada; mas será sempre ela a vilã desta história? Longe disso. Nada em «Black Mirror» escapa ao futuro – utópico mas perigosamente próximo –, que mascara com a sua espectacularidade o que de menos agradável há no ser humano.

Este futuro, distante mas próximo o suficiente para nos deixar assustados, volta em força com seis mini-filmes que têm como protagonista a tecnologia e, sobretudo, as suas potencialidades. Neste sem-fim de histórias assombradas pelo ser humano, e pelo que ele é capaz de fazer para sobreviver, há uma presença constante das dicotomias do certo e errado, ainda que nem sempre seja fácil, para o espectador, colocar uma ação numa ou noutra categoria. Assim como aconteceu com os episódios “The Entire History of You” ou “San Junipero”, por exemplo, a empatia não é uma relação literal e é particularmente difícil encaixar as decisões das diferentes personagens, de forma pacífica, na forma como percebemos a realidade.

blackmirror crocodile

Continua a existir uma preocupação do argumento, fortalecida ou desafiada pela realização, em tornar a narrativa exequível no tempo presente. Só assim esta relação conflituosa entre o espectador e os acontecimentos do pequeno ecrã é possível: embora haja uma perceção plena de que aquela tecnologia ainda está longe de ser global e banalizada, a verdade é que a conseguimos enquadrar na sociedade atual. Veja-se a mãe que instala uma vigilância constante na filha em “Arkangel”, ou a persistência em filmes com a temática da inteligência humana artificial, como é o caso de “Black Museum”. E até eventos menos prováveis, pelo menos a curto prazo, como “Metalhead” trazem consigo o fantasma da possibilidade, pois não deixam de ser uma ameaça do futuro.

«Black Mirror» não é apenas uma série, mas sim uma experiência. Perante a tecnologia fornecida às personagens deste imaginário tecnológico, o espectador acaba a indagar o que faria caso aquela tecnologia fosse atual. Embora se trate de ficção científica, a série da Netflix acaba a ser discutida quase como um documentário, na medida em que espelha as debilidades da instrumentalização do quotidiano, mas também o papel que o ser humano tem no decorrer da ação. Não estamos na presença de um elemento passivo, e a quarta temporada é sublime neste aspeto: coloca o homem e a mulher na sua zona de conforto para, desafiando esta aparente normalidade, deixar o espectador desconfortável.

blackmirror blackmuseum

A sobrevivência da individualidade numa era de massas

“Arkangel” vai dar que falar, e que terá, provavelmente, entrada direta para o top de melhores episódios de «Black Mirror». Realizado por Jodie Foster e com história da responsabilidade do criador Charlie Brooker, “Arkangel” instala-se numa sociedade familiar, sem grandes truques tecnológicos, e coloca uma mãe aparentemente banal (Rosemarie DeWitt) no centro da ação. Depois de perder momentaneamente a filha, deixa-se controlar pelo medo e instala um serviço permanente de vigilância e localização na criança, a fim de se proteger de novo susto. Como seria de esperar, esta história não tem um final feliz.

Mais uma vez, esta história é tecnológica à superfície, mas é essencialmente humana. A preocupação individual (e familiar) da personagem de DeWitt toca um tema muito sensível aos pais, a segurança dos filhos, pelo que é fácil encontrar lógica e justificações para as suas motivações. Além disso, e atendendo ao foco de «Black Mirror», continua a ser importante perceber de que forma o individual choca com as outras individualidades, bem como a tecnologia pode ser uma forma de controlo e manipulação, mesmo que não exista essa permissão clara. Há uma leitura diferente desta relação entre o indivíduo e o interesse geral em “Crocodile”, um episódio mais frio – não apenas categoricamente mas também porque se passa na Islândia.

Novamente com argumento de Brooker, o episódio toma outras liberdades no universo que já antes inspirou “The Entire History of You”, na primeira temporada, nomeadamente a possibilidade de revisitar memórias de forma clara. Um thriller improvável e que se torna cada vez mais complexo, “Crocodile” é um twist e desafio permanente às interpretações que vamos fazendo às personagens e acontecimentos. Algo que atinge um nível ainda mais assertivo em “USS Callister”, uma homenagem fora do comum ao legado deixado por «Star Trek», pela lente de um realizador acostumado a «Doctor Who». A combinação ganha forças nas palavras de Brooker e William Bridges, que repetem a dupla de “Shut Up and Dance”, de 2016, e que voltam a explorar os limites da individualidade. E nem o espectador se livra de alinhar nesta viagem.

blackmirror arkangel

O homem e a máquina: a efemeridade do ‘eu’

Se “Arkangel” se destaca pela proximidade ao presente, “Black Museum” evidencia-se pela capacidade de explorar aspetos totalmente ficcionais, ainda que esta suposta distância seja uma ilusão – atenuada pela construção da narrativa num ambiente próximo. Tem diversos ingredientes, desde uma partilha demasiado viciante a uma existência artificial que se torna exigente, mas assenta na interação banal entre o dono de um museu (Douglas Hodge) e uma visita que tem de gastar tempo (Letitia Wright). Esta relação quase rotineira serve de fio condutor à viagem pela tecnologia e, em último caso, pela sua efemeridade – que é também a efemeridade de quem a cria.

A série da Netflix encurta, por diversas vezes, a barreira de separação entre o indivíduo e a tecnologia, e este episódio não é exceção. Esta linha é ainda mais reduzida em “Hang the DJ”, onde, ao jeito de um Tinder do futuro, uma máquina de inteligência artificial reúne um conjunto de indivíduos num resort, sendo o objetivo final que estes encontrem a sua alma gémea. O conceito é algo confuso, de forma intencional e fortalecida pelo argumento de Brooker, colocando a decisão maquinal à frente da individual. Desta forma, há um jogo constante entre aquilo que é a tecnologia super avançada, por um lado, e a incapacidade de voltar ao básico do relacionamento humano, por outro. Ironicamente, dá vontade de pedir uma TARDIS para o presente a fim de resolver o conflito inerente à ação, que é bastante simples.

Por sua vez, e ainda com «Stranger Things» bem presente na memória, uma vez que a segunda temporada foi lançada recentemente, “Metalhead” lembra o drama da outra série da Netflix. Os personagens humanos são perseguidos por máquinas, numa realidade futurista e pós-apolítica, a preto e branco, naquela que é uma luta literal entre a tecnologia e a homem. Realizado por David Slade («American Gods» e «Hannibal»), este episódio sombrio destoa da restante temporada a vários níveis, levando ao extremo o entendimento usualmente subjectivo daquilo que é o confronto entre a personagem e a tecnologia em que esta vive mergulhada.

  • Publicado em TV

The Crown: o regresso feliz a um mundo não tão feliz

Só há uma Família Real capaz de ofuscar o mediatismo em torno da britânica e do casamento do Príncipe Harry com a atriz Meghan Markle: a britânica... que habita o pequeno ecrã em «The Crown». A METROPOLIS teve acesso antecipado à segunda temporada que estreia sexta-feira, 8, e diz-lhe o que pode esperar.

Há, em «The Crown», uma pergunta que constantemente se impõe acima de todas as outras: onde mora o amor? Ao contrário de outros monarcas, Isabel II não nasceu com a responsabilidade de, um dia, usar a coroa: o seu pai, George, era o segundo na linha de sucessão ao trono, atrás do irmão David. No entanto, ao abdicar do trono por amor, o tio colocou-a imediatamente como a sucessora do pai, à frente de Margaret – tinha somente 10 anos. Aos 25, Isabel seria coroada rainha, lugar que ocupa ainda hoje, 65 anos depois. Com os olhares constantemente sobre si, a Rainha evitou rumores e escândalos, desafiou costumes, cruzou barreiras e, acima de tudo, entregou o coração aos deveres da Coroa. É também de amor que se fala quando pensamos nas histórias da irmã e Princesa Margaret, do tio David e, mais recentemente e ainda fora da tela de «The Crown», do seu filho Charles e netos William e Harry.

Separados por décadas, o Príncipe Harry e a sua tia-avó Princesa Margaret partilham o amor por alguém divorciado que, no caso da segunda, não teve um final feliz. Também David decidiu abdicar dos seus direitos à Coroa para casar com Wallis Simpson. Chega a ser irónico que, depois da conclusão destroçante da primeira temporada de «The Crown», com a separação da Princesa Margaret (Vanessa Kirby) e Peter Townsend (Ben Miles), tenha sido anunciado recentemente o casamento do Príncipe Harry com a atriz Meghan Markle, também já divorciada. Contudo, o desfecho promete ser mais risonho do que em 1955, altura em que Margaret e Peter seguiram caminhos opostos. Ainda assim, e afinando aquilo que foi veiculado pela série da Netflix, uma carta revelada mais tarde aponta a responsabilidade diretamente para a Princesa, que terá hesitado e declarado isso mesmo numa carta ao então primeiro-ministro, Anthony Eden. Tal aliviaria as culpas da Rainha, do Governo e da Igreja.

TheCrown 201
Embora o feito alcançado por «The Crown» não seja único, é inevitável destacar a coerência apresentada pela série mais cara da Netflix ao longo da segunda temporada. Além do lado público da Família Real, «The Crown» explora o lado privado, nomeadamente a evolução de Isabel II (Claire Foy) enquanto Rainha na viragem da primeira década de reinado. Mais do que uma biografia ou uma recuperação dramática, há uma preocupação forte com a humanidade das diferentes personagens, ainda que o cerne da ação (e da complexidade) recaia sobre Isabel II. A nova incursão na história da Rainha funciona como uma espécie de puzzle que se vai construindo ao longo do tempo, onde o Governo não tem o mesmo protagonismo que teve em 2016 com Winston Churchill (John Lithgow), mas continua a assumir um papel determinante na influência na Coroa. Quer isto dizer, ainda, que Isabel II é, como dita o tempo, uma figura mais adulta, mais proativa e, sobretudo, mais presente na vida dos que a rodeiam. O que também se aplica à relação com o povo britânico e o uso dos novos media.

Mas, como já assinalámos, esta não é apenas uma viagem histórica, mas também emocional. E, nesse sentido, «The Crown» tem desafiado o entendimento do passado de uma maneira surpreendente: não por via do choque ou do inesperado, mas da desconstrução dos mitos e das verdades para, caídas as aparências, ficar o que realmente importa – e nos humaniza. Sendo este lado obrigatoriamente inalcansável, e por isso menos óbvio na narrativa, o espectador tem aqui um papel ativo e é chamado a inferir novas leituras relativamente a diversas personagens históricas; como, por exemplo, John F. Kennedy (Michael C. Hall) e Jackie Kennedy (Jodi Balfour). As duas carismáticas figuras históricas são recuperadas na perspetiva da Rainha, que tinha alguns ciúmes da primeira-dama dos EUA e, atendendo ao que está registado, Jackie terá falado mal de Isabel II e do Palácio de Buckingham num evento social.

TheCrown 208
Desde o final de «Dexter», em 2013, que Michael C. Hall não participava numa série. As expetativas estavam em alta e, tendo em conta isso mesmo, poderá dizer-se que a montanha pariu um rato. Em contrapartida, é Jodi Balfour a brilhar, numa recriação histórica que assenta não apenas na visita europeia do casal Kennedy, mas também no homicídio do Presidente dos EUA. Apesar disto, a introdução do casal em «The Crown», pelas portas monstruosas do Palácio, é um dos momentos mais bem conseguidos não apenas da nova temporada, mas também da série no seu todo. Para quem está à espera de formalismos e rigidez naquele que é, provavelmente, o arco mais esperado da temporada, está reservada uma surpresa que prima pela sua audácia e, acima de tudo, pela simplicidade (bem conseguida). Ainda que fique uma teimosa sensação de ‘copo’ meio cheio...

Por sua vez, aos portugueses está reservado um ‘mimo’ subtil, mas inescapável: a passagem, ainda que breve e superficial, por terras lusas. Contudo, ouvir-se português na série mais cara da Netflix será sempre uma vitória. É por Portugal que passa, aliás, parte da storyline de Isabel e Philip (Matt Smith), que volta a assumir-se como uma figura dificilmente consensual. Ainda assim, a balança não tende em demasia para este conflito, permitindo o fortalecimento e permanência dos novos focos de ação vindos de África. Mais uma vez, «The Crown» procura reescrever a história de maneira subtil mas, ao mesmo tempo, certeira, repescando segredos que, apesar de terem deixado de o ser, continuam a ser pouco conhecidos – nomeadamente um que está relacionado com o antigo herdeiro ao trono, David (Alex Jennings). Mas não só.

A imagem fotográfica de «The Crown» arrasa-nos com o seu rigor. Em primeiro lugar, pelo cuidado em recriar momentos emblemáticos, como a viagem da Rainha ao Gana em 1961 ou a imagem de Jackie após o assassinato do marido, com o mítico conjunto rosa coberto de sangue. De igual forma, há uma sobriedade assumida no som e na montagem da ação, com o ritmo a ser tendencialmente fluído. As personagens, como já acontecera na primeira temporada, são o principal efeito a que recorre o argumento e a realização, e a série ganha muito com essa escolha. Algo que é potenciado por um elenco verdadeiramente de estrelas, que se estende até ao mais secundário, nomeadamente Anton Lesser, Matthew Goode e Chloe Pirrie.

  • Publicado em TV
Assinar este feed RSS